quinta-feira, 3 de abril de 2008

Lisboa

Por debaixo dos meus pés sinto os contornos da calçada que de estar tão branca, devolve ao céu a luz do Verão que despontou neste dia de Inverno. O relevo das linhas que um calceteiro não calcou devidamente abrandam os meus passos apressados, e relembra-me que as correrias são desnecessárias quando se anda em direcção a lado nenhum.
Sou um homem na cidade, deslumbrado com a ilusão de cheirar a maresia do rio e de sentir nas mãos a madrugada que despontou faz pouco tempo.
Olho para as curvas das ruas como quem admira as formas de uma mulher irresistível, que me seduz lasciva com os pregões que ecoam agora apenas nas histórias que guardo na memória, como quem me reclama para seu regaço. Faço amor com a cidade tocando ao de leve as paredes tatuadas dos prédios da baixa, sentindo nos dedos a aspereza da sua pele enrugada pelo frio matinal que o Sol ainda não arrebatou. Deleito-me com o aroma que me invade e me enche do desejo de quem sente a saudade, a definição que a própria cidade criou e que me assenta como uma luva. Quase sinto na boca o volume dos seus seios disfarçados de colinas que apontam hirtas para o céu, como que me devolvendo em sinais discretos a correspondência do meu desejo.
Vejo as fontes brotando gotas lentamente, como que em câmara lenta, e que mais parecem pedras preciosas trespassadas por essa luz que representa o verdadeiro significado da palavra celeste. Vejo gaivotas em terra, perdidas por terem antecipado a tormenta que não chegou afinal a apoquentar o mar. Vejo os carros começarem a aparecer cada vez em maior quantidade, como se o fluxo sanguíneo da cidade ganhasse um novo ritmo e agora o seu coração palpitasse mais por perceber as minhas intenções.
Ouça a cidade nas palavras do Ary, nas vozes das velhas que agora dormem em casas esconças. A noite foi de paixões violentas regadas a vinho tinto, de navalhas açaimadas e sedentas de calor jugular, de vultos indistintos sobre candeeiros intermitentes. Por isso as velhas agora precisam descansar, e das janelas dos seus quartos apenas emanam a esta hora as intenções das vozes em repouso.
Receio que a cidade se sinta atraiçoada por mim, por nem sempre lhe prestar vassalagem como agora. Mas é assim o amor, uma coisa mole que desperta por vezes apenas nos prenúncios do abandono.
Não sei se a mereço, generosa como é e disponível, enquanto eu apenas consigo continuar a vaguear sem rumo certo. Ela percebe como sou perdido, um caso sem esperança no que toca a orientação, alguém cuja bússola apenas aponta para dentro.
Logo ela que merece que a cuidem e que a amem como apregoam os fadistas. Fadista não sou, poeta menos, espero tão somente que me reconheça como um amante esforçado.
Receio que tenha tardado o meu regresso e que agora apenas entre nós, dois estranhos que não deram pelas diferenças que o tempo tentou sempre disfarçar, exista apenas desejo e nada mais.
Espero que ela perceba, enquanto vagueio sem rumo e toco ao de leve nas paredes dos prédios, agora menos enrugadas, que o amor não se perde como eu. O amor ficará para sempre, para lá do desejo, para lá dos dias como este em que o Sol parece querer estampar um sorriso nos nossos lábios como se nada mais importasse. O amor ficará para lá do desejo, que se vai, que sempre se vai e sempre volta, como os dias e as marés, como as fases da lua e as estações do ano. O amor ficará para lá do desejo que agride quando acaba e faz esquecer o bem que soube.
Amo-te para sempre, cidade que és minha.
Pode ser que esteja longe de ti quando me desejares perto e junto aos teus sopés quando pretenderes afastar-me. Não o farei por querer, mas por não saber ser de outra forma. A bússola far-me-á andar em círculos que te irão desnortear da mesma forma.
Não sei se é tarde porque tardei a dizer-te que te adoro.
Não sei se é cedo por ceder à tentação de te ir fazer sofrer.
Mas quero-te tanto quanto o meu amor consegue querer.

Nunca é tarde nem cedo, para quem se quer tanto.