quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

PAISAGENS

Ele olhou para ela como se ela estivesse por ali. Os seus olhos pareciam estar sincronizados com os lábios, movendo-se como um espelho que clamava por atenção. Olha para mim, pareciam gritar, disfarçando o desespero com um sorriso. Olhos de buraco negro, sorvedouros silenciosos do espaço que ambos ocupavam naquela sala. Se ela naquela sala estivesse.

Ele falou para ela como se ela estivesse por ali. Falou das horas do dia, das pessoas na rua, das palavras dos outros que suscitaram a sua verborreia habitual. Tentou pronunciar todas as sílabas com a determinação de quem acha poderem vir a ficar gravadas no tempo. Talvez com esse ênfase, ela desse conta do desespero em surdina que as suas palavras encerravam. Como se ela estivesse capaz de as ouvir.

Ele tocou-lhe como se ela estivesse por ali. Não procurou o desejo nem a memória dos tempos em que a chama esteve acesa. Queria apenas sentir se estavam vivos. Os dois. A temperatura dos corpos podia confirmar aquilo que a respiração parecia contradizer. Mas viva estava. Não estava ali, mas estava viva.


Ela tinha os olhos presos no tempo. No enxoval oferecido pela avó ainda tinha ela 15 anos, na cama sempre feita na perfeição todas as manhãs, nos sonhos de ter a sua vida organizada e de ser sempre aquilo que todos esperavam dela. Mas se os olhos estavam no passado, a cabeça estava no futuro. Nas paisagens que ainda ia ver, nos caminhos arriscados que iria percorrer. O presente, tal como ela, é que já não estavam por ali.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Não era amor. Foi amor. Deixou de amar.

Não era amor. Foi amor. Deixou de amar.

Primeiro sentiste as suas pernas tremer ao chegar perto de ti. Viste ao longe aquela figura enorme aproximar-se, sentindo-se cada vez mais pequena ao chegar à sombra do teu andar. A voz enrolada profanando o espaço consagrado que existia entre os dois. Sentiste o tempo parar e o espaço comprimir-se num grão de arroz onde tudo teria de caber, vocês os dois e todos os outros que no enquadramento do vosso olhar emudeceram e paralisaram na ânsia do consentimento. Ouviste o que já tinhas previsto ouvir mas que desejavas manter-se fechado numa caixa, longe dos devaneios do teu pensamento e do calor do teu coração.
Não era amor.

Depois recuperaste a ilusão construída na penumbra do esquecimento, a fantasia imaginada pela procura de um ideal que tentaste materializar vezes sem conta e sem sucesso. Viste aquela figura enorme tornar-se cada vez maior e desejaste tornar-te parte das suas fundações, inevitáveis em quem se chegava tão ameaçadoramente perto do céu. Sentiste o tempo parar e o espaço comprimir-se num grão de arroz quando forçaste o primeiro beijo com o teu olhar irresistível, de cachorrinho abandonado. Levavas o queixo junto ao peito e os olhos erguidos, e o teu aroma invadiu os seus sentidos que lutavam por se manter vigilantes. A noite passou depressa, tudo passava depressa à vossa volta e as memórias contradiziam-se a todo o instante. Não sabes bem, ainda hoje, que lábios foram aqueles que sentiste: se do homem que te apertava contra ele e nervoso chocalhava os dentes ou se a imagem construída, camada sobre camada, em cima dos desaires do presente.
Foi amor.

Finalmente decidiste esquecer, acreditar que a vida devia ser uma coisa com sentido em vez de aceitar que as pessoas correm em paralelo apenas a espaços. Deixaste-te enganar por duas vezes, de todas as vezes em que sentiste o tempo parar e o espaço comprimir-se num grão de arroz. Enganada por ti própria quiseste fugir dali para fora na esperança de não mais ver aquele homem que à distancia, parecia agora cada vez mais pequeno. Não conseguiste perceber que existe um significado nesta história, que não sendo o mais previsível do tipo daqueles que encontramos nos romances de cordel, é mais do que o que é normal acontecer entre duas pessoas. Que o momento não é o mais importante mas sim o que permanece perpetuado na memoria. O amor é mais frágil do que o rasto que se deixa no tempo, no tempo a que se pode sempre voltar desde que se queira. O amor, esse pode realmente acabar.
Deixou de amar.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Olhos

Cruzei o meu olhar com o teu por instantes. Hoje, trouxeste os olhos da cor da camisola.
O cabelo estava mais parecido com o Sol que nos outros dias quando, gigante, mergulha no mar no fim do dia. Não sei porque o seu tamanho muda de cada vez que olho para ele nessa altura, mas o teu cabelo fez-me lembrar as bolas de fogo gigantes que prendem o nosso olhar até doer.
Sinto-me crescer quando vejo o teu sorriso, como se o meu corpo não coubesse nas roupas que trago. Se calhar por isso me gosto de despir ao pé de ti, tirar de cima de quem sou o que me cobre, destapar o que quero ser, por te ter aqui.
Sou cada vez mais os dias que vão passando, e o meu caminho é feito pelas pedras que piso no meu vagar determinado. Vou andando sem destino, preso ao horizonte que os meus sonhos definem à minha frente. Sinto que me levas pela mão, ou que me empurras noutras vezes. Nada me pára porque sinto que caminhamos entrelaçados. Os nossos dedos dão forma aos nós que prendem os nossos espíritos.
Também o teu olhar me prende, mais ainda hoje, que trazes os olhos da cor da camisola.
Vai-me dizendo de que cor queres que traga as minhas. Invade o meu roupeiro porque também eu te quero fazer sorrir, de cada vez que os nossos olhares se cruzarem como hoje, um dia que podia ser igual a todos os outros, não fosse ter ficado deslumbrado, uma vez mais, por estar contigo.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Metáforas

Não me falta a verborreia digital, a tremura nas falanges que me compele a traduzir as imagens em coisas que se lêem. Não me faltam os conceitos fisicos e os arquétipos, nem os sonhos difusos que desperto me confundem a noção de estar acordado, por vezes. Nem as imagens que me amassam como numa colisão frontal, o choque entre os meus sentidos e a realidade: inspiram-me como sempre os pequenos gestos, os objectos insignificantes, as brisas que me afagam os cabelos. Todas essas coisas continuam também comigo.
Não me faltam as pessoas que me amam, as pessoas que me odeiam e as pessoas para quem sou indiferente. Todas elas à sua maneira me dão motes para esculpir as frases que procuram ser matéria. Para elas sinto sempre ser imensamente cruel, para lá do que consigo controlar, mesmo quando lhes digo o quanto as amo. Não tenho mão no que sinto e cada vez a minha competência para o fazer se esboroa em fúteis intenções. Estou um animal mais visceral, mais impulsivo, receio cada vez mais os meus planos e por isso torno-me mais comedido quando perspectivo o futuro. O vazio do tempo incerto que há-de vir mantém-me num estado em que o optimismo e o pessimismo convivem como velhos batendo cartas num banco gasto de jardim. Desafiam-se dolentemente, procurando apenas ganhar sentido ao tempo.
Não me faltam os rostos anónimos, as gargalhadas ruidosas e os abraços dos amantes, que me despertam memórias e confabulações pouco inocentes. Estão em todo o lado por onde vou, nas ruas largas por onde caminho como um vagabundo, nas ruas estreitas por onde não consigo evitar caminhar. São crianças entretidas com a dimensão gigantesca das coisas, são mulheres com os olhos exultando expectativas, são idosos com as mãos encarquilhadas.
Não me faltam as noções de ser quem sou, cada vez mais exposto perante mim próprio mesmo que igualmente resistente à invasão. Sou como um espelho convexo, percebo melhor agora, que não deixando de reflectir a luz que sobre ele incide, se protege emitindo imagens transfiguradas aos olhares dos curiosos.
Nada disto me falta.
Apenas me faltam as metáforas. Mas só às vezes dou por falta delas. E noutras tantas, como agora, irrompem vindas do nada e invadem os meus poros, as células que compõe a matéria que se vê.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Atende o telefone, por favor

Atende o telefone. Atende que te quero imaginar aqui ao meu lado para sentirmos os dois a suave carícia da noite que arrefece a olhos vistos. Pelas ruas da cidade andam almas em rédea solta, liberdades pouco condicionadas soltas de pretéritos imperfeitos. Vagueiam pelas vielas como almas penadas isentas de teor corpóreo. São igualmente luminosas, irradiam a vontade de ser mais do que um espectro, mais do que uma sombra.
Também eu quero ser notado. Por ti. Por isso atende o telefone, por favor.
Atende que te quero imaginar a caminhar ao meu lado, serpenteando pelo restos de vinho entornado nos passeios. Há algo de terrivelmente apelativo neste cenário decadente de cheiro a uvas passadas. Será este o elixir que desperta o pensamento enquanto, em simultâneo, inebria os sentidos? Talvez apenas goste de passear por entre estes espíritos desprendidos e deixar-me contagiar pelas suas estridentes gargalhadas de quem, à força, se quer fazer ouvir.
Nesta noite toda a gente anda de máscaras pelas ruas da cidade. Mas isso não faz desta noite uma noite especial. É sempre assim, de todas as vezes que pude assistir a esta parada de almas penadas em rédea solta. O que apenas fazem é trocar de máscaras, deixando penduradas em casa as que usam durante o dia para agora envergarem umas mais sonoras e sorridentes. Algumas são espampanantes e reflectem mais do que as outras o brilho amarelado dos candeeiros.
Todos tentam, através das suas máscaras, ser notados. Também eu quero ser notado. Por ti. Por isso atende o telefone, por favor. Quero mostrar a máscara que carrego hoje. Parece-me mais interessante esta que trago agora

por isso não te liguei durante o dia

e por senti-la grudada à minha pele gostava que a visses.

Quer dizer: vê-la não irás ser capaz

mas pelo menos gostava de te falar acerca dela, por isso atende o telefone por favor.
Podes fazer-me companhia enquanto me deixo perder por entre as entranhas da cidade como quem mergulha fundo num mar de gente feito de almas penadas em rédea solta. Como são imateriais deixam o meu corpo passar sem resistência, mesmo nas ruelas mais estreitas onde parece não poder caber mais nada. Podes fazer-me companhia enquanto olho para elas e tento decifrar o significado das suas máscaras, descortinar a profundidade dos seus risos, pressentir o gosto disfarçado das lágrimas contidas que nunca chegarão a ver a luz da lua.
Podes beber um copo comigo, estejas lá onde estiveres, e acompanhar-me nesta bebida que me adormece o caminhar.
Podemos beber às coisas simples em vez de celebramos as façanhas. Podemos comemorar a experiência de estarmos vivos em vez de brindar ao futuro e aos projectos que pretendemos ainda realizar. Ergamos os nossos copos

mesmo que à distância

por todas aquelas sensações a que nos habituámos a dar valor, quando achávamos que o que realmente importava eram as coisas que já tínhamos.

Por isso atende o telefone, por favor. Quero mostrar-te melhor quem sou, exposto pelo desvario da bebedeira que agora me fez sentar no passeio. Quero deixar cair a máscara. Todas as máscaras. Revelar-te o ser imperfeito que afinal sou, sempre oculto por debaixo de capas e mais capas e mais capas. Estou com coragem para o fazer agora.
Por isso atende o telefone, por favor.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Marcas de café

As marcas da chávena de café na mesa como aros de fumo sobrepostos.

Hoje a manhã despontava fria e cinzenta e parecia que nunca mais iria chegar o bom tempo, como se esta manhã fosse o prenúncio de um Inverno teimosamente persistente para lá dos ciclos anuais.
Coçava as costas vagarosamente enquanto chinelava até ao armário onde se encontravam as chávenas do café e pelo caminho ligou a máquina. O ruído dos seus passos não deixava margem para dúvidas: pesava mais do que os quilos do seu corpo, carregando em cima dos ossos o peso do sono interrompido sob um manto de decoros e impropérios.
Quando a máquina começou finalmente a jorrar a água acastanhada, foi até ao quarto e ligou a televisão para ouvir as notícias. Estava trânsito na ponte nesse dia. Como em todos os outros dias. Que aborrecido deveria ter de ser o “homem do trânsito”, ecoando sempre a mesma ladainha, esperando ansiosamente que ocorresse algum acidente numa estrada secundária ou nos arrabaldes para que o dia pudesse ganhar outra emoção.
Levantou o som para que pudesse ouvir na cozinha o que se passava no IC19.

As marcas da chávena de café na mesa como as argolas entrelaçadas dos mágicos.

Sentou-se na cadeira da cozinha e ficou quase inerte saboreando os primeiros tragos de café. Parecia estar a fazer um esforço real para descolar as pálpebras e mesmo quando o seu corpo ganhava os contornos de um homem acordado, achava ainda estar a dormir por dentro.
“Sistemas principais em manutenção; é favor desligar todos os sistemas auxiliares; em frente, em velocidade de cruzeiro. Os Warps ficam para mais logo…”.
Olhou para fora pela janela da cozinha e mesmo não estando muita luz sentiu os fotões matinais como garfadas nos olhos. A roupa estendida lá fora ia precisar de ser lavada novamente, pois chovera toda a noite. Logo se havia de tratar disso que agora há que fazer esticar o tempo o mais possível para que a dolência seja aproveitada ao máximo antes do bulício do costume.

As marcas da chávena de café na mesa como carimbos repetidos sobre o papel.

O sono sabia-lhe bem, finalmente. Encontrou de novo o prazer da experiência onírica e fez as pazes com a almofada que noutros dias (mesmo naqueles em que o clima esteve mais ameno) mais lhe parecia ter sido enchida com granito.
O espaço parecia-lhe bem, o silêncio parecia-lhe bem, e se colocava a ladainha do homem do trânsito a soar pela casa era mesmo por ter por ele uma profunda admiração.
Finalmente conseguia enfrentar as fotos penduradas na parede sem sentir o impulso descontrolado de desviar o olhar. Foi por não as ter conseguido encarar de frente que elas ainda por ali andavam, é um facto. Mas agora já não provocavam nele qualquer embaraço ou inibição. As fotografias penduradas na parede ali deveriam permanecer, agora porque sim (justificação tão inconsequente e que nesta altura lhe parecia tão poderosa).
Quando é que a coisa mudou? Não sabia dizer. A construção tinha acontecido subtilmente, pedra sobre pedra, até que o edifício se erguesse sobre umas fundações fortalecidas.

As marcas da chávena de café na mesa como brincos de ciganas cheirando a fumeiro.

Hoje, naquele dia nublado, como nos dias anteriores teimosamente nublados, substituíra a celebração pela dor, a memória pela saudade.
O espaço era maior agora, apenas ocupado por ele. O silêncio era mais frequente pois o seu quotidiano estava agora privado de conversas idas. Mas o espaço e o silêncio pareciam-lhe bem agora.
Como o homem do trânsito viciado na sua ladainha e na esperança de um acidente numa estrada secundária ou num arrabalde, também ele esteve preso à dor e à saudade ansiando por um dia mais solarengo que por si só fizesse alterar todo o cenário.
Mas esse dia tardava a chegar e se calhar por isso, decidiu pôr-se a caminho.
A saudade é um sentimento perverso. Dizem que é típico dos portugueses como se isso fosse um motivo de orgulho para alguém... A saudade corrompe a memória e corrói o tempo como o ácido em calcário.
Algures, numa altura que ele não conseguia definir precisamente, o edifício começou a construir-se sob as fundações da celebração: as memórias das viagens que foi fazendo, mesmo daquelas que não implicaram ter ido para lado algum.
A vida é isso, afinal: uma longa viagem cheia de etapas. Quando chegamos a um destino e regressamos, começamos logo a pensar no próximo. E o próximo, por melhor que seja, não faz desaparecer o bem que soube o anterior.
Ele hoje olhava para as fotos de frente porque achou melhor celebrar. As viagens terminam mas as experiências permanecem o tempo que nós bem entendermos. Não é a viagem que nós buscamos mas as experiências que elas encerram.
A saudade, descobriu ele enquanto se erguiam as paredes do edifício, é afinal um sintoma de egoísmo. Sem a posse não há saudade e a posse é a maior das ilusões, que nos acena sedutora, como um efeito secundário da paixão.
Ele não possui ninguém agora, mas também nunca possuiu, por isso não tem de quê ter saudades. As únicas coisas verdadeiramente suas, tanto no passado como agora, são as experiências porque passou. E essas são para ser celebradas como as etapas alcançadas de uma prova de fundo, impulsos para prosseguir rumo a uma meta à qual nunca se chega afinal.
Acabem-se as ilusões, por isso. Acabe-se a dor e a saudade.
Os próximos dias podem ser de chuva, mas o cimento está armado e as vigas postas no seu lugar. O edifício está seguro, por isso.
Vai continuar a erigir novos pisos que tornarão o edifício ainda mais alto, para que as suas vistas alcancem ainda mais longe. Nas paredes que for criando vai colocar as fotos de sempre para decorar o espaço, dar-lhes a vida que é a sua.
Vai ser sempre assim.
Afinal, ele não perdeu nada mesmo achando outrora, ter tido tudo. Teve tudo, de facto, mas tanto como agora. Percebe isso claramente enquanto as pálpebras se separam definitivamente e parte rumo ao chuveiro.

As marcas da chávena de café na mesa como desenhos de uma criança.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Em Paris, junto ao Sena, 2005



Sinto nas mãos os contornos frágeis das curvas do teu corpo que desaparecem lentamente, como as curvas que o retrovisor oblitera até me encontrar perto de ti. Desaparecem porque o teu corpo ganha novas formas moldadas pelos dedos sensíveis de uma paixão que te enfarta. Toma o lugar dos alimentos, sacia a tua sede, rouba-te a carne aos ossos que agora sinto mais próximos da minha mão.
Deixa estar. Também o meu corpo se transfigura agora que a minha mão ganhou o direito de te tocar. Pode não se ver por fora, mas as minhas entranhas ganharam vida própria, rugem desalmadamente quando me afasto como que reclamando o seu quinhão, doem-me quando estou perto como que me avisando já estar cheio. Antigamente nem dava por elas, mas agora respondem ao toque desse teu corpo que perde as curvas lentamente.
Deixa estar que assim está bem. O teu corpo assim está bem. Faz as minhas mãos parecem maiores quando te aperto, dá-me a ilusão de que o meu toque e somente ele te protege. Faz-me sentir mais próximo quando te abraço e te aperto contra mim, sou muralha que desvia o vento das tempestades, sou a torre de marfim que podes ocupar com os teus caprichos.
Tu és o corpo que perde as curvas e que ganha novas formas, que se dá ao direito de substituir o sustento pelo amor, tu és o corpo que o meu egoísmo venera como se fosse perfeito porque dele preciso para ser muralha e para ser torre de marfim. Tu és o cheiro que me assombra e me persegue, que me visita como um espectro nas noites mal iluminadas em que deixo o tempo passar apenas, sem querer saber para onde vai. És o sabor que me acompanha quando os beijos acabam, a textura que permanece na minha boca como a de uma fruta húmida que estou sempre a trincar.
Tu és a mulher da vida que hoje tenho, da vida que hoje sou. Isso pode não ser muito importante para ti, sabendo tu das mil vidas que já tive e imaginando outras tantas que irei ter. Mas sinto, enquanto o beijo que damos se refresca com a brisa do rio, que marcas o meu tempo como uma cicatriz marca o meu corpo. É assim que ele muda, enquanto o teu perde lentamente as curvas: rasgas-me a pele porque eu quero, retorces-me a alma porque sim, entorpeces-me os sentidos porque és.
Mulher frágil de beijos fortes, mulher seca de amor molhado, mulher por ser mulher madura.
Mulher da minha vida enquanto dura.


NOTA: este texto fez parte da exposição de fotografias de João Oliveira (o autor desta foto) intitulada "mulheres anónimas para homens desconhecidos", realizada no espaço "Mercado Negro", em Aveiro, no mês de Abril deste ano.
João, obrigado por me teres convidado a colorir as tuas fotos (como se elas disso necessitassem...)