sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Olhos

Cruzei o meu olhar com o teu por instantes. Hoje, trouxeste os olhos da cor da camisola.
O cabelo estava mais parecido com o Sol que nos outros dias quando, gigante, mergulha no mar no fim do dia. Não sei porque o seu tamanho muda de cada vez que olho para ele nessa altura, mas o teu cabelo fez-me lembrar as bolas de fogo gigantes que prendem o nosso olhar até doer.
Sinto-me crescer quando vejo o teu sorriso, como se o meu corpo não coubesse nas roupas que trago. Se calhar por isso me gosto de despir ao pé de ti, tirar de cima de quem sou o que me cobre, destapar o que quero ser, por te ter aqui.
Sou cada vez mais os dias que vão passando, e o meu caminho é feito pelas pedras que piso no meu vagar determinado. Vou andando sem destino, preso ao horizonte que os meus sonhos definem à minha frente. Sinto que me levas pela mão, ou que me empurras noutras vezes. Nada me pára porque sinto que caminhamos entrelaçados. Os nossos dedos dão forma aos nós que prendem os nossos espíritos.
Também o teu olhar me prende, mais ainda hoje, que trazes os olhos da cor da camisola.
Vai-me dizendo de que cor queres que traga as minhas. Invade o meu roupeiro porque também eu te quero fazer sorrir, de cada vez que os nossos olhares se cruzarem como hoje, um dia que podia ser igual a todos os outros, não fosse ter ficado deslumbrado, uma vez mais, por estar contigo.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Metáforas

Não me falta a verborreia digital, a tremura nas falanges que me compele a traduzir as imagens em coisas que se lêem. Não me faltam os conceitos fisicos e os arquétipos, nem os sonhos difusos que desperto me confundem a noção de estar acordado, por vezes. Nem as imagens que me amassam como numa colisão frontal, o choque entre os meus sentidos e a realidade: inspiram-me como sempre os pequenos gestos, os objectos insignificantes, as brisas que me afagam os cabelos. Todas essas coisas continuam também comigo.
Não me faltam as pessoas que me amam, as pessoas que me odeiam e as pessoas para quem sou indiferente. Todas elas à sua maneira me dão motes para esculpir as frases que procuram ser matéria. Para elas sinto sempre ser imensamente cruel, para lá do que consigo controlar, mesmo quando lhes digo o quanto as amo. Não tenho mão no que sinto e cada vez a minha competência para o fazer se esboroa em fúteis intenções. Estou um animal mais visceral, mais impulsivo, receio cada vez mais os meus planos e por isso torno-me mais comedido quando perspectivo o futuro. O vazio do tempo incerto que há-de vir mantém-me num estado em que o optimismo e o pessimismo convivem como velhos batendo cartas num banco gasto de jardim. Desafiam-se dolentemente, procurando apenas ganhar sentido ao tempo.
Não me faltam os rostos anónimos, as gargalhadas ruidosas e os abraços dos amantes, que me despertam memórias e confabulações pouco inocentes. Estão em todo o lado por onde vou, nas ruas largas por onde caminho como um vagabundo, nas ruas estreitas por onde não consigo evitar caminhar. São crianças entretidas com a dimensão gigantesca das coisas, são mulheres com os olhos exultando expectativas, são idosos com as mãos encarquilhadas.
Não me faltam as noções de ser quem sou, cada vez mais exposto perante mim próprio mesmo que igualmente resistente à invasão. Sou como um espelho convexo, percebo melhor agora, que não deixando de reflectir a luz que sobre ele incide, se protege emitindo imagens transfiguradas aos olhares dos curiosos.
Nada disto me falta.
Apenas me faltam as metáforas. Mas só às vezes dou por falta delas. E noutras tantas, como agora, irrompem vindas do nada e invadem os meus poros, as células que compõe a matéria que se vê.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Atende o telefone, por favor

Atende o telefone. Atende que te quero imaginar aqui ao meu lado para sentirmos os dois a suave carícia da noite que arrefece a olhos vistos. Pelas ruas da cidade andam almas em rédea solta, liberdades pouco condicionadas soltas de pretéritos imperfeitos. Vagueiam pelas vielas como almas penadas isentas de teor corpóreo. São igualmente luminosas, irradiam a vontade de ser mais do que um espectro, mais do que uma sombra.
Também eu quero ser notado. Por ti. Por isso atende o telefone, por favor.
Atende que te quero imaginar a caminhar ao meu lado, serpenteando pelo restos de vinho entornado nos passeios. Há algo de terrivelmente apelativo neste cenário decadente de cheiro a uvas passadas. Será este o elixir que desperta o pensamento enquanto, em simultâneo, inebria os sentidos? Talvez apenas goste de passear por entre estes espíritos desprendidos e deixar-me contagiar pelas suas estridentes gargalhadas de quem, à força, se quer fazer ouvir.
Nesta noite toda a gente anda de máscaras pelas ruas da cidade. Mas isso não faz desta noite uma noite especial. É sempre assim, de todas as vezes que pude assistir a esta parada de almas penadas em rédea solta. O que apenas fazem é trocar de máscaras, deixando penduradas em casa as que usam durante o dia para agora envergarem umas mais sonoras e sorridentes. Algumas são espampanantes e reflectem mais do que as outras o brilho amarelado dos candeeiros.
Todos tentam, através das suas máscaras, ser notados. Também eu quero ser notado. Por ti. Por isso atende o telefone, por favor. Quero mostrar a máscara que carrego hoje. Parece-me mais interessante esta que trago agora

por isso não te liguei durante o dia

e por senti-la grudada à minha pele gostava que a visses.

Quer dizer: vê-la não irás ser capaz

mas pelo menos gostava de te falar acerca dela, por isso atende o telefone por favor.
Podes fazer-me companhia enquanto me deixo perder por entre as entranhas da cidade como quem mergulha fundo num mar de gente feito de almas penadas em rédea solta. Como são imateriais deixam o meu corpo passar sem resistência, mesmo nas ruelas mais estreitas onde parece não poder caber mais nada. Podes fazer-me companhia enquanto olho para elas e tento decifrar o significado das suas máscaras, descortinar a profundidade dos seus risos, pressentir o gosto disfarçado das lágrimas contidas que nunca chegarão a ver a luz da lua.
Podes beber um copo comigo, estejas lá onde estiveres, e acompanhar-me nesta bebida que me adormece o caminhar.
Podemos beber às coisas simples em vez de celebramos as façanhas. Podemos comemorar a experiência de estarmos vivos em vez de brindar ao futuro e aos projectos que pretendemos ainda realizar. Ergamos os nossos copos

mesmo que à distância

por todas aquelas sensações a que nos habituámos a dar valor, quando achávamos que o que realmente importava eram as coisas que já tínhamos.

Por isso atende o telefone, por favor. Quero mostrar-te melhor quem sou, exposto pelo desvario da bebedeira que agora me fez sentar no passeio. Quero deixar cair a máscara. Todas as máscaras. Revelar-te o ser imperfeito que afinal sou, sempre oculto por debaixo de capas e mais capas e mais capas. Estou com coragem para o fazer agora.
Por isso atende o telefone, por favor.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Marcas de café

As marcas da chávena de café na mesa como aros de fumo sobrepostos.

Hoje a manhã despontava fria e cinzenta e parecia que nunca mais iria chegar o bom tempo, como se esta manhã fosse o prenúncio de um Inverno teimosamente persistente para lá dos ciclos anuais.
Coçava as costas vagarosamente enquanto chinelava até ao armário onde se encontravam as chávenas do café e pelo caminho ligou a máquina. O ruído dos seus passos não deixava margem para dúvidas: pesava mais do que os quilos do seu corpo, carregando em cima dos ossos o peso do sono interrompido sob um manto de decoros e impropérios.
Quando a máquina começou finalmente a jorrar a água acastanhada, foi até ao quarto e ligou a televisão para ouvir as notícias. Estava trânsito na ponte nesse dia. Como em todos os outros dias. Que aborrecido deveria ter de ser o “homem do trânsito”, ecoando sempre a mesma ladainha, esperando ansiosamente que ocorresse algum acidente numa estrada secundária ou nos arrabaldes para que o dia pudesse ganhar outra emoção.
Levantou o som para que pudesse ouvir na cozinha o que se passava no IC19.

As marcas da chávena de café na mesa como as argolas entrelaçadas dos mágicos.

Sentou-se na cadeira da cozinha e ficou quase inerte saboreando os primeiros tragos de café. Parecia estar a fazer um esforço real para descolar as pálpebras e mesmo quando o seu corpo ganhava os contornos de um homem acordado, achava ainda estar a dormir por dentro.
“Sistemas principais em manutenção; é favor desligar todos os sistemas auxiliares; em frente, em velocidade de cruzeiro. Os Warps ficam para mais logo…”.
Olhou para fora pela janela da cozinha e mesmo não estando muita luz sentiu os fotões matinais como garfadas nos olhos. A roupa estendida lá fora ia precisar de ser lavada novamente, pois chovera toda a noite. Logo se havia de tratar disso que agora há que fazer esticar o tempo o mais possível para que a dolência seja aproveitada ao máximo antes do bulício do costume.

As marcas da chávena de café na mesa como carimbos repetidos sobre o papel.

O sono sabia-lhe bem, finalmente. Encontrou de novo o prazer da experiência onírica e fez as pazes com a almofada que noutros dias (mesmo naqueles em que o clima esteve mais ameno) mais lhe parecia ter sido enchida com granito.
O espaço parecia-lhe bem, o silêncio parecia-lhe bem, e se colocava a ladainha do homem do trânsito a soar pela casa era mesmo por ter por ele uma profunda admiração.
Finalmente conseguia enfrentar as fotos penduradas na parede sem sentir o impulso descontrolado de desviar o olhar. Foi por não as ter conseguido encarar de frente que elas ainda por ali andavam, é um facto. Mas agora já não provocavam nele qualquer embaraço ou inibição. As fotografias penduradas na parede ali deveriam permanecer, agora porque sim (justificação tão inconsequente e que nesta altura lhe parecia tão poderosa).
Quando é que a coisa mudou? Não sabia dizer. A construção tinha acontecido subtilmente, pedra sobre pedra, até que o edifício se erguesse sobre umas fundações fortalecidas.

As marcas da chávena de café na mesa como brincos de ciganas cheirando a fumeiro.

Hoje, naquele dia nublado, como nos dias anteriores teimosamente nublados, substituíra a celebração pela dor, a memória pela saudade.
O espaço era maior agora, apenas ocupado por ele. O silêncio era mais frequente pois o seu quotidiano estava agora privado de conversas idas. Mas o espaço e o silêncio pareciam-lhe bem agora.
Como o homem do trânsito viciado na sua ladainha e na esperança de um acidente numa estrada secundária ou num arrabalde, também ele esteve preso à dor e à saudade ansiando por um dia mais solarengo que por si só fizesse alterar todo o cenário.
Mas esse dia tardava a chegar e se calhar por isso, decidiu pôr-se a caminho.
A saudade é um sentimento perverso. Dizem que é típico dos portugueses como se isso fosse um motivo de orgulho para alguém... A saudade corrompe a memória e corrói o tempo como o ácido em calcário.
Algures, numa altura que ele não conseguia definir precisamente, o edifício começou a construir-se sob as fundações da celebração: as memórias das viagens que foi fazendo, mesmo daquelas que não implicaram ter ido para lado algum.
A vida é isso, afinal: uma longa viagem cheia de etapas. Quando chegamos a um destino e regressamos, começamos logo a pensar no próximo. E o próximo, por melhor que seja, não faz desaparecer o bem que soube o anterior.
Ele hoje olhava para as fotos de frente porque achou melhor celebrar. As viagens terminam mas as experiências permanecem o tempo que nós bem entendermos. Não é a viagem que nós buscamos mas as experiências que elas encerram.
A saudade, descobriu ele enquanto se erguiam as paredes do edifício, é afinal um sintoma de egoísmo. Sem a posse não há saudade e a posse é a maior das ilusões, que nos acena sedutora, como um efeito secundário da paixão.
Ele não possui ninguém agora, mas também nunca possuiu, por isso não tem de quê ter saudades. As únicas coisas verdadeiramente suas, tanto no passado como agora, são as experiências porque passou. E essas são para ser celebradas como as etapas alcançadas de uma prova de fundo, impulsos para prosseguir rumo a uma meta à qual nunca se chega afinal.
Acabem-se as ilusões, por isso. Acabe-se a dor e a saudade.
Os próximos dias podem ser de chuva, mas o cimento está armado e as vigas postas no seu lugar. O edifício está seguro, por isso.
Vai continuar a erigir novos pisos que tornarão o edifício ainda mais alto, para que as suas vistas alcancem ainda mais longe. Nas paredes que for criando vai colocar as fotos de sempre para decorar o espaço, dar-lhes a vida que é a sua.
Vai ser sempre assim.
Afinal, ele não perdeu nada mesmo achando outrora, ter tido tudo. Teve tudo, de facto, mas tanto como agora. Percebe isso claramente enquanto as pálpebras se separam definitivamente e parte rumo ao chuveiro.

As marcas da chávena de café na mesa como desenhos de uma criança.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Em Paris, junto ao Sena, 2005



Sinto nas mãos os contornos frágeis das curvas do teu corpo que desaparecem lentamente, como as curvas que o retrovisor oblitera até me encontrar perto de ti. Desaparecem porque o teu corpo ganha novas formas moldadas pelos dedos sensíveis de uma paixão que te enfarta. Toma o lugar dos alimentos, sacia a tua sede, rouba-te a carne aos ossos que agora sinto mais próximos da minha mão.
Deixa estar. Também o meu corpo se transfigura agora que a minha mão ganhou o direito de te tocar. Pode não se ver por fora, mas as minhas entranhas ganharam vida própria, rugem desalmadamente quando me afasto como que reclamando o seu quinhão, doem-me quando estou perto como que me avisando já estar cheio. Antigamente nem dava por elas, mas agora respondem ao toque desse teu corpo que perde as curvas lentamente.
Deixa estar que assim está bem. O teu corpo assim está bem. Faz as minhas mãos parecem maiores quando te aperto, dá-me a ilusão de que o meu toque e somente ele te protege. Faz-me sentir mais próximo quando te abraço e te aperto contra mim, sou muralha que desvia o vento das tempestades, sou a torre de marfim que podes ocupar com os teus caprichos.
Tu és o corpo que perde as curvas e que ganha novas formas, que se dá ao direito de substituir o sustento pelo amor, tu és o corpo que o meu egoísmo venera como se fosse perfeito porque dele preciso para ser muralha e para ser torre de marfim. Tu és o cheiro que me assombra e me persegue, que me visita como um espectro nas noites mal iluminadas em que deixo o tempo passar apenas, sem querer saber para onde vai. És o sabor que me acompanha quando os beijos acabam, a textura que permanece na minha boca como a de uma fruta húmida que estou sempre a trincar.
Tu és a mulher da vida que hoje tenho, da vida que hoje sou. Isso pode não ser muito importante para ti, sabendo tu das mil vidas que já tive e imaginando outras tantas que irei ter. Mas sinto, enquanto o beijo que damos se refresca com a brisa do rio, que marcas o meu tempo como uma cicatriz marca o meu corpo. É assim que ele muda, enquanto o teu perde lentamente as curvas: rasgas-me a pele porque eu quero, retorces-me a alma porque sim, entorpeces-me os sentidos porque és.
Mulher frágil de beijos fortes, mulher seca de amor molhado, mulher por ser mulher madura.
Mulher da minha vida enquanto dura.


NOTA: este texto fez parte da exposição de fotografias de João Oliveira (o autor desta foto) intitulada "mulheres anónimas para homens desconhecidos", realizada no espaço "Mercado Negro", em Aveiro, no mês de Abril deste ano.
João, obrigado por me teres convidado a colorir as tuas fotos (como se elas disso necessitassem...)

terça-feira, 6 de maio de 2008

Tinto

Escapam-me as palavras como a água que escorre entre os dedos, na tentativa vã de dar forma ao que sinto no estômago

um murro forte daqueles que nos deixa sem respirar por segundos

interrompendo os impulsos, fazendo com que a inspiração que se segue ao sufoco seja prazer em forma de ar.
Mas é semelhante a um bom vinho tinto.
Deixem-me tentar abusar da boa vontade das palavras

que a custo encontro

para descrever a sensação.
Um vinho quente daqueles que deixa a língua adormecida depois de engolido.
Um vinho daqueles que envolve a língua num manto de aromas de fruta e de madeira gentil

daquela que cheira a campos do Sul em dias de Verão

derretendo nas planícies como o alcatrão que ilude o olhar dos viajantes.
Um vinho daqueles em que apenas se sentem os taninos no primeiro trago, enquanto se estranha a combinação do seu aroma com o sabor da comida. Imediatamente se esclarecem as regras e a partir dessa primeira degustação os territórios ficam delimitados e a fronteira passa a ser o que interessa

flores coloridas em vez de arame farpado e ninhos de cegonha no lugar de postos de vigia

a fronteira que se estabelece entre a comida e o vinho é o território que conta, a separação tornada união, a diferença feita comunhão.
Um vinho daqueles que sabe cada vez melhor à medida que o bebemos, que nos faz ansiar por não ver chegar o fim da garrafa. A cabeça a ficar dormente, os dedos a ficarem dormentes, as pernas

“tomara não ter de me levantar”

e os olhos postos no fundo

e o raio do vidro escuro que não permite ver bem a que nível se encontra o néctar que nos inebria.
Um vinho que não se quer mais esquecer, que se quer perpetuar no paladar e na sensação da dormência que nos acomete.

Não são felizes as palavras

maldita falta de jeito que não evita que me escorram como a água por entre os dedos

mas os actos, esses sim pode ser que ajudem. Vou beber mais um trago de olhos fechados, receando e desejando

numa desesperante ambivalência

não os abrir mais, cegos pelo prazer e pelo espanto

a descoberta surpreendente feita por quem já tanto vinho tinto bebeu.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Lisboa

Por debaixo dos meus pés sinto os contornos da calçada que de estar tão branca, devolve ao céu a luz do Verão que despontou neste dia de Inverno. O relevo das linhas que um calceteiro não calcou devidamente abrandam os meus passos apressados, e relembra-me que as correrias são desnecessárias quando se anda em direcção a lado nenhum.
Sou um homem na cidade, deslumbrado com a ilusão de cheirar a maresia do rio e de sentir nas mãos a madrugada que despontou faz pouco tempo.
Olho para as curvas das ruas como quem admira as formas de uma mulher irresistível, que me seduz lasciva com os pregões que ecoam agora apenas nas histórias que guardo na memória, como quem me reclama para seu regaço. Faço amor com a cidade tocando ao de leve as paredes tatuadas dos prédios da baixa, sentindo nos dedos a aspereza da sua pele enrugada pelo frio matinal que o Sol ainda não arrebatou. Deleito-me com o aroma que me invade e me enche do desejo de quem sente a saudade, a definição que a própria cidade criou e que me assenta como uma luva. Quase sinto na boca o volume dos seus seios disfarçados de colinas que apontam hirtas para o céu, como que me devolvendo em sinais discretos a correspondência do meu desejo.
Vejo as fontes brotando gotas lentamente, como que em câmara lenta, e que mais parecem pedras preciosas trespassadas por essa luz que representa o verdadeiro significado da palavra celeste. Vejo gaivotas em terra, perdidas por terem antecipado a tormenta que não chegou afinal a apoquentar o mar. Vejo os carros começarem a aparecer cada vez em maior quantidade, como se o fluxo sanguíneo da cidade ganhasse um novo ritmo e agora o seu coração palpitasse mais por perceber as minhas intenções.
Ouça a cidade nas palavras do Ary, nas vozes das velhas que agora dormem em casas esconças. A noite foi de paixões violentas regadas a vinho tinto, de navalhas açaimadas e sedentas de calor jugular, de vultos indistintos sobre candeeiros intermitentes. Por isso as velhas agora precisam descansar, e das janelas dos seus quartos apenas emanam a esta hora as intenções das vozes em repouso.
Receio que a cidade se sinta atraiçoada por mim, por nem sempre lhe prestar vassalagem como agora. Mas é assim o amor, uma coisa mole que desperta por vezes apenas nos prenúncios do abandono.
Não sei se a mereço, generosa como é e disponível, enquanto eu apenas consigo continuar a vaguear sem rumo certo. Ela percebe como sou perdido, um caso sem esperança no que toca a orientação, alguém cuja bússola apenas aponta para dentro.
Logo ela que merece que a cuidem e que a amem como apregoam os fadistas. Fadista não sou, poeta menos, espero tão somente que me reconheça como um amante esforçado.
Receio que tenha tardado o meu regresso e que agora apenas entre nós, dois estranhos que não deram pelas diferenças que o tempo tentou sempre disfarçar, exista apenas desejo e nada mais.
Espero que ela perceba, enquanto vagueio sem rumo e toco ao de leve nas paredes dos prédios, agora menos enrugadas, que o amor não se perde como eu. O amor ficará para sempre, para lá do desejo, para lá dos dias como este em que o Sol parece querer estampar um sorriso nos nossos lábios como se nada mais importasse. O amor ficará para lá do desejo, que se vai, que sempre se vai e sempre volta, como os dias e as marés, como as fases da lua e as estações do ano. O amor ficará para lá do desejo que agride quando acaba e faz esquecer o bem que soube.
Amo-te para sempre, cidade que és minha.
Pode ser que esteja longe de ti quando me desejares perto e junto aos teus sopés quando pretenderes afastar-me. Não o farei por querer, mas por não saber ser de outra forma. A bússola far-me-á andar em círculos que te irão desnortear da mesma forma.
Não sei se é tarde porque tardei a dizer-te que te adoro.
Não sei se é cedo por ceder à tentação de te ir fazer sofrer.
Mas quero-te tanto quanto o meu amor consegue querer.

Nunca é tarde nem cedo, para quem se quer tanto.

terça-feira, 18 de março de 2008

Destino

Um dia cheguei a um sítio qualquer, a um dos vários sítios por onde tenho andado e chegado e partido de seguida, numa roda viva de que me iludo nunca ter fim, porque o caminho vejo-o sempre mais reconfortante do que a meta, quando uma voz metálica e fria de uma máquina pendurada no pára-brisas do carro me disse, com a intenção de quem quer dar boas notícias, uma simples frase que me encheu de tristeza ao ponto de a desejar atirar janela fora, uma frase que dita daquela forma seca ainda agudizou mais a angústia já contida nas palavras proferidas: “chegou ao seu destino”!
Maldita máquina! Sabe lá ela! Posso não estar conectado a nenhum satélite, mas ai de quem me procurar orientar. Perdido sou porque apenas assim me encontro, definindo os meus limites de cada vez que embato contra as paredes. Se me encontrasse perdido ficaria, de vez, sem remédio nem interesse.
A minha bússola não aponta para Norte, excepto às vezes. Noutras alturas, deixa-se confundir com o movimento do Sol e segue o seu trajecto no espaço sideral.
Não é por mal que sou assim, eu juro. Resolvo a coisa achando que o meu destino afinal, é continuar a perder-me permanentemente. E por isso nenhuma máquina me valerá nunca, e ainda bem.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Dentro do carro, por debaixo de um candeeiro solitário de uma rua triste

O primeiro beijo soube estranhamente a morangos. A acidez das línguas colidindo funcionou como um refresco que abranda a sensação de calor, sem ser capaz de o fazer desaparecer completamente. Parecia tirado daqueles sonhos que nos visitam quando estamos prestes a adormecer, fundindo as percepções do mundo real com as ideações lunáticas das fantasias proibidas na vigília.
As suas barrigas acalmaram um pouco com aquele beijo, deixaram de soar esfomeadas dos apetites que nutriam um pelo outro.
Durante o primeiro beijo não respiraram. As línguas divertiam-se trocando carícias enquanto o ar ia faltando ao cérebro, que prolongava por isso a sensação de dormência que se apoderava dos seus corpos.
- Tinha tantas saudades dos nossos beijos!
E agarrou-o mais forte, entrelaçando os dedos por detrás da sua nuca, envolvendo-o num novo beijo que desta vez soube diferente. Ele procurava descobrir o que fazer com as mãos, passeava-as pelo seu rosto, percorria as suas costas, afagava o seu cabelo que transbordava por debaixo dos ombros.
Era um daqueles momentos que podia ser planeado. Ou devia, teria ele pensado antes de ocorrer. Como demonstrar o desejo e a paixão de forma que se visse, e não deixar ao acaso as manifestações desses sentimentos violentos? Isso devia requerer uma antecipação do momento para que, nada falhando, ele se tornasse mágico e perpétuo.
Mas tirando a vontade de estarem ali os dois, dentro do carro por debaixo de um candeeiro solitário de uma rua triste, nada mais estava sob controlo. Nem as mãos dele que pareciam ganhar vida própria e caminhavam, irremediavelmente, em direcção às suas coxas.
Ela mantinha os olhos fechados com força, pareceu-lhe a ele por vezes, como que se forçando a imaginar um outro cenário bem longe daquele beco solitário. Talvez uma praça de uma cidade importante num dia claro, ou uma esplanada sobranceira à maresia do Atlântico. Ele, por seu lado, olhava para ela por vezes para se certificar que não partiria de vez para esses locais enquanto o cérebro ia ficando menos oxigenado, assegurando-se de que pelo menos poderia garantir a presença da sua resignação dentro daquele carro.
A boca dele percorria-lhe o pescoço demoradamente, sorvendo os restos da maquilhagem misturados com a sua essência, a essência que só de a antecipar lhe causava uma tesão brutal.
A pele dela arrepiava-se à medida que os lábios dele perscrutavam curiosos todos os poros, respirando os odores que emanavam das suas entranhas e que saciavam o seu apetite voraz de feromonas.
Para além da pele de galinha, ela sentia os mamilos tomarem forma e como que impelida por um chamamento surdo, sentiu uma das mãos dele contra o seu peito que era agora um gerador de energia propagando descargas eléctricas até ao seu ventre.
As mãos dele estavam cada vez mais insubordinadas, e ganhavam um ímpeto violento quando comparado com a doçura dos beijos no pescoço e das mordidelas subtis que deixavam um rasto discreto de saliva por detrás do seu cabelo e junto às orelhas.
- Pára com isso, que nos vêem!
E usou as duas mãos para empurrar a dele que tentava entrar para dentro da sua saia e dos seus collants de lycra. Ele voltou a abraçá-la e a sufocá-la com um beijo ruidoso e molhado.
Ela deixava cair a cabeça como que entrando num estado de letargia, quando ele lhe massajava a nuca e simultaneamente lhe lambia o pescoço. Ao vê-la nesse estado de dormência fez nova investida e sentiu dificuldade a vencer a força do elástico que mantinha os collants colados à barriga. Maldito seja, pensava ele.
- Pára, já te disse que aqui não!
A dificuldade que ele não conseguia, aparentemente ultrapassar, consumando a invasão, dava-lhe a ela tempo para sair da letargia e reagir.
Ele sorria como se tivesse sido esculpido no seu rosto a expressão da traquinice. Sentia o rubor nas bochechas e crescer dentro das calças um volume que não poderia disfarçar.
Ela sentia a humidade afogar os seus pensamentos, mergulhando-a numa espiral de descontrolo, num caleidoscópio de sentimentos contraditórios onde se misturavam o desejo e a censura, o prazer e a culpa.
Sem se aperceber disso, deixou-o lambuzar (por mais tempo do que o que se deu conta) todo o rosto, o pescoço irresistível, os lóbulos saborosos das orelhas. E a sua respiração foi ficando mais grave e os olhos mais pesados. Por momentos receou cair no embaraço de adormecer ali, perante todas aquelas demonstrações de luxúria, e que ele se desse conta que a dormência se estava a tornar irresistível como uma droga sem ressaca. Por entre as pálpebras semicerradas deixava entrar um pouco da luz amarela do candeeiro da rua, que parecia agora mover-se num balançar hipnótico. Pareceu-lhe também ver o vulto de dois jovens passar em frente ao carro, para lá da neblina que se condensava no pára-brisas.
Grave. Grave e ruidosa estava agora a sua respiração enquanto dizia baixinho o nome dele e permitia que os seus dedos visitassem o seu peito, por debaixo da camisola.
- Sabes tão bem - dizia ele num tom de voz que perpetuava a hipnose.
Finalmente forçou a entrada e alcançou a vagina com os seus dedos de aranhiço, que estava quente e perfumada com a fragrância da terra quente depois de uma chuvada tropical. Ela gemeu mais alto e todo o seu corpo enrijeceu num impulso. Cresceu para ele, passou a ocupar mais espaço naquele habitáculo apertado, e cravou as unhas no seu braço forçando-o a entrar mais fundo, a descobrir com as pontas dos dedos a textura dos seus recantos secretos.
Ele não se fez de rogado e penetrou-a furiosamente, movendo os dedos como podia para que nada lhe faltasse.
Ela saltou do lugar onde estava para o colo dele e quase lhe arrancava a mão pelo pulso, preso nos apertos dos collants. Punha-se a jeito, abrindo levemente as pernas para poder sentir o divagar daqueles dedos que mais valia não o serem. Nas suas coxas conseguia perceber como ele estava excitado e passou a sua mão sobre aquele órgão com vida própria, espalhando pela barriga os fluidos da paixão descontrolada.
A língua dele obrigava-se a estar dentro dela, e não podendo fazê-lo de outro jeito, entrava pelo seu ouvido dentro para lhe segredar sem dizer nada, que só iria parar de lhe tocar quando ela lhe pedisse. Por ele aquela noite seria maior que as horas em que as trevas cobrissem a rua, e não se importaria de ficar dentro dela até os seus corpos se fundirem numa massa única, moldada com a ajuda dos líquidos expelidos dos seus corpos, como o barro que se amassa melhor quando está húmido.
Passei por essa rua uma noite destas. Eles já não estavam lá, como esperava. O desejo não se cumpriu por completo dessa vez. Mas percebi que a luz do candeeiro estava mais forte. Naquela noite rara em que pode testemunhar a paixão, sentindo o descontrolo daqueles corpos que se comiam com uma sofreguidão que estranhava, por ser a primeira vez que assistia a tal coisa, pensou ser melhor não perturbar aquele momento, tentando misturar-se na penumbra e não a trespassar como sempre fazia.
Mas ao passar pelo local onde o carro esteve parado, para além da luz mais forte do candeeiro, senti um aroma diferente que não consegui encontrar em mais sítio nenhum naquela rua ou à volta dela. Um cheiro a morangos, amargo e doce, que me causou um arrepio que se confundiu com o frio da noite.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Avô

Ouvi finalmente os sinos da aldeia. Acabou por acontecer aquilo que me tinham dito ser normal, que depois de algum tempo iria deixar de os ouvir mesmo quando repicassem a meu lado. Mas naquele principio de tarde quente como tinham sido todas as tardes daquela semana, dei por eles finalmente.
No topo da igreja estava plantado um ninho de cegonhas que deixavam ver as suas cabeças de quando em vez. Seria de esperar que se agitassem perante aquele som forte ali tão perto, mas davam provas de que também para elas a teoria era verdadeira e por isso deixaram-se ficar no seu lugar como se nada se passasse.
Tinha vindo até ao largo da igreja, a meia dúzia de quarteirões da zona baixa da aldeia (que chamavam de Rossio) perto do rio. Nesta altura do ano em que o alcatrão parecia evaporar, apenas corria um fiozinho de água que não dava para saciar a sede implacável que atormentava as terras. Não se ouvia o coaxar das rãs durante o dia, nem era possível vislumbrar os cágados que noutras alturas se estiravam nos calhaus absorvendo todos os raios de Sol que pudessem fazer incidir sobre os seus corpos e armaduras.
Precisava de andar um pouco mesmo que fosse debaixo da torreira que por aquela altura do dia fazia recolher as velhas dentro de portas. Algumas seguiam os meus passos por detrás das cortinas de renda nas portadas, curiosas por saber que destino tomaria aquele forasteiro. Não se sentiam melindradas quando as encarava de frente, faziam vencer a curiosidade sobre o embaraço.
Mais à frente assistia ao desfilar de ruas perpendiculares à Rua Direita (todas as aldeias têm uma rua com este nome), declives pouco convidativos para as minhas pernas saturadas. A planície dominante do cenário era por isso muito mais atractiva do que esses resquícios de relevo acidentado que polvilhavam a aldeia a espaços.
Tirando as velhas por detrás das cortinas das portadas, podia dizer-se que estava sozinho naquele lugar. Apenas alguns rafeiros esfarrapados partilhavam a calçada comigo, mas esses, ao contrário das velhas, pareciam não querer saber de mim para nada.
O meu avô tinha morrido há pouco. Finalmente partiu para onde queria mesmo que nunca o tivesse dito, nem mesmo a si próprio. Não foi levado da vida, apenas desistiu. Não fez cenas, não fez dramas, não barafustou com nada e apenas teve na morte a mesma atitude conformada que manteve sempre ao longo da sua vida.
Lembro-me dele velho, como todos os avós devem ser. A sair de casa para ir esticar as pernas, a ir ter com os amigos ao jardim para ter conversas sobre coisa nenhuma, a ir fazer recados para que pudesse manter o olho sobre as contas lá de casa, a recitar os poemas que inventou mesmo não sabendo ler, a contar-me histórias sobre os lavradores e como exploravam gente simples como ele na altura em que era novo, a rir-se descontroladamente quando apertava a sua barriga inchada e lhe fazia cócegas, a aturar os desaforos da minha avó sem nunca se irritar nem levantar a voz ou um sobrolho.
Lembro-me de adorar comer arroz e de dizermos que essa seria uma das heranças que me deixava, dos gaspachos feitos com a água das fontes onde me levava para sentir como era fresca, das peles encarquilhadas nas suas mãos que me divertia a puxar e a medir o tempo que levavam a retomar a posição inicial, dos arranques saltitantes dos seus primeiros passos após ter estado muito tempo sentado.
O meu avô era como a aldeia onde agora eu deixava os meus passos ao sabor do acaso. Impávido perante a passagem do tempo sabendo não ser capaz de parar um comboio em andamento mesmo que quisesse muito; sereno perante a solidão que a outros espíritos atormenta, como um destino fatal de quem sabe ser pior criar amarras a quem se gosta de verdade.
Nos últimos dias de vida tinha ficado inconsciente, e por isso passei-os junto à sua cama no albergue da aldeia, no Rossio, onde decidira ir morar há uns anos. Tomou essa decisão porque assim sempre conseguia ter mais companhia e se fosse preciso alguma ajuda (para ele ou para a minha avó) sempre teria os técnicos do albergue para o valer. Chamei pelo seu nome várias vezes procurando que acordasse. Noutras alturas cheguei a conversar com ele descrevendo as coisas que ia fazendo como dar um jeito na roupa do quarto ou comentando alguma coisa que estivesse a passar na televisão.
Sempre me pareceu estar terrivelmente tranquilo, quase parecia ter um ligeiro sorriso nos lábios durante toda essa semana. Parecia estar em paz.

Quero que saibas, avô, que sempre adorei os teus poemas e admirei a forma como os recitavas, como lengalengas ritmadas com uma cadência milimétrica. Fascinava-me teres todas essas palavras memorizadas (porque não sabias ler), mesmo quando a memória já te ia faltando para outras coisas.
Quero que saibas, avô, que sempre admirei a tua tranquilidade, como se o teu espírito estivesse num estado permanente de pousio como estavam agora as terras da aldeia porque ninguém cuidava delas. Se calhar eras assim por também nunca termos cuidado ti. Talvez por isso te fosses resignando à tua condição de condenado e a não teres mais expectativas do que poderes ver mais um ocaso de cada vez.

Não sei se estás nas ruas que agora calcorreio. A aldeia já mudou muito desde o tempo em que foste para o albergue e nem estou certo de teres dado por todas essas mudanças. Agora já existe um bairro social e o supermercado da D. Antónia fechou e por isso deixámos de ter sítio onde comprar as cachuleiras e os bolos findos.
Não sei se estás nas memórias dos que sobreviveram um pouco mais e que aguardam neste principio de tarde, por detrás das portadas, que a morte os leve para junto de ti. Estão cá poucos já, e parece-me que muitos deles passam mais tempo a olhar para as fotos que têm em cima dos móveis forrados a papel do que a querer saber dos que por cá andam. Acham curiosos os forasteiros como eu, como achamos curiosas as estrelas cadentes que deixam o seu rasto fugaz no céu: são bonitas de se ver mas não mudam as constelações que mapeiam a noite. E tu fazes parte da constelação da aldeia, a que pouco se liga como aos sinos que mais valia deixarem de tocar.
Nem sei se estás em mim ou se esta dúvida me assola apenas porque deliro com o calor que me cola a roupa ao corpo. Não sei se vou conseguir manter-te vivo para além da morte, para lá do tempo em que tiver presente o cheiro do teu quarto no albergue do Rossio.
Lembro-me agora que não sei nenhum dos teus poemas. E choro pela primeira vez desde que partiste. Eu que sempre procurei dar tanta importância às palavras, que as gostava de guardar em caixas-forte para que sejam mais do que letras agrupadas aos molhos ou meros sons sussurrados, que procuro torná-las coisa viva para que eu próprio não me sinta morto.
As tuas palavras desapareceram de vez e apenas as consigo substituir por lágrimas copiosas que não vou ser capaz de eternizar.

Onde estás avô?
Porque não me deixaste dizer-te mais coisas, todas aquelas coisas que admirava em ti?
Porque é que durante toda esta semana apenas me deste esse sorriso insípido que agora me começa a irritar profundamente quando penso nele?

Soluço no meio da rua para regozijo das velhas por detrás das portadas, que agora têm motivo de conversa para mais logo.
Junto a mim um rafeiro esfarrapado espreguiça-se para apenas mudar de posição e continuar deitado debaixo de uma das laranjeiras que decoram a praceta.

Fizeste bem em desistir, avô.
Agora sei que não estás só.
Prometo não ficar demasiado angustiado com a tua ausência, nem pelo facto de termos ficado com conversas penduradas. Vou fazer como tu, cuidar dos meus mandados, dar as minhas voltinhas, encolher os ombros perante as aflições desconcertantes das gentes baralhadas que se julgam maiores que a vida. Eles que se detenham a chorar das suas desgraças, que enquanto tivermos amigos nos jardins à nossa espera tudo se há de compor.

No dia seguinte chega o resto da família e o meu avô é enterrado a alguns metros de distância da minha avó, que partiu um ano atrás. O meu pai e os meus tios estão serenos também, com um esgar que me faz recordar a imagem que me acompanhou naquela semana, plantada no rosto do meu avô enquanto dormia profundamente. Pensei com que cara estaria eu…
Algumas velhas saíram hoje à rua e assistiam a todo o ritual com uma indiferença desconcertante. À parte disso, mantinha-se o calor, o silêncio do rio e os pulguentos refastelados na calçada.
Tudo se mantinha como sempre esteve, num equilíbrio previsível que teria feito o meu avô feliz.
As minhas lágrimas copiosas já tinham secado, resignadas a não conseguir substituir as palavras entoadas dos cânticos populares desenhados a régua e esquadro.
Ficam as minhas palavras por dizer. Fica-me o cheiro do calor do Verão a incidir no asfalto derretido, da terra seca gretada pela água que até das fontes santas deixa de brotar. Fica-me o sorriso, que vai se a ver foi só para mim que brotou no seu rosto. Fica-me a vontade de parar o comboio em andamento e as ganas de concentrar nessa tarefa todas as minhas forças. Fica-me a ideia de que não posso desistir mesmo quando nada mais restar senão eu próprio e a loucura.
Vou-me embora, para o lugar onde me levam os próprios passos.

Quando me preparava para regressar à cidade, dei novamente pelos sinos a anunciando a hora certa.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

A minha mana

A minha mana não é sangue do meu sangue mas corre nas minhas veias e faz palpitar o meu coração como se fosse dona de metade dos meus genes.

A minha mana é a guardiã dos meus silêncios, daqueles que escondem por vezes gritos lancinantes. Mas mantém-no aninhado no seu colo, trata dele com um carinho fraternal e afaga as suas inquietudes quando quase se prepara para explodir numa fúria sem sentido.

A minha mana ouve as coisas que tenho para dizer e dá-lhes uma atenção que me surpreende, mesmo sabendo que conto sempre com o seu amor. Dá a volta ao texto, lê nas entrelinhas, espreita discretamente por detrás do pano e descobre quem eu sou de verdade. Às vezes descobre essas coisas ainda antes de me atravessarem as goelas, quando não são mais do que congeminações deste meu espírito irremediavelmente irrequieto.

A minha mana conhece os traços do meu rosto para lá do que se vê, as pregas das minhas bochechas quando sorrio e distingue com facilidade as vezes que disfarço daquelas em que me entrego. Não desvenda essa revelação, permanece apenas um segredo entre nós dois.

A minha mana tem sempre espaço para ouvir os meus disparates, as minhas alucinações, os meus sonhos desmedidos e atura a minha estúpida mania de que um dia acabarei por conseguir mudar o mundo. Conhece os meus pensamentos mais tresloucados, as minhas fantasias megalomaníacas, mesmo que nunca lhe tenha revelado por completo a dimensão da minha loucura.

A minha mana está sempre a dizer-me, mesmo quando não me diz nada, que posso ficar descansado que nunca estarei verdadeiramente só neste Mundo, mesmo quando for abandonado pelas pessoas que o meu mau jeito afastar de mim. Terei sempre o seu colinho para me receber e partilharemos as nossas vidas nas palavras e nos olhares que a nossa cumplicidade manterá vivos.

A minha mana sabe que a minha ausência e o meu silêncio não significam distância. Como
poderiam, se ela está sempre junto a mim como uma imagem a que se recorre de cada vez que os olhos precisam de descanso e o espírito de sintonia?

A minha mana não me cobra nada. A minha mana é.

A minha mana sabe que este meu mau jeito com as palavras não faz justiça à dimensão dos meus sentimentos. Sinto-me grande ao pé da minha mana, porque ela me puxa para perto de si no topo da montanha onde habita perto dos deuses que me inspiram a procurar ser alguém um pouquinho melhor (que seja).



À minha mana Sara.
Fica descansada: vou conseguir deixar de ter medo de conseguir. Estou quase lá... são palavras como as tuas (meu Deus, como és hábil a utilizá-las, que inveja!) que me dão a força que preciso, nas alturas em que preciso, e em todas as outras em que me iludo de ser suficientemente forte para tomar conta da minha vida.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Espera um pouco apenas, morte

Espera um pouco apenas, morte. Espera só um pouco mais.
Não me leves deste mundo
Não me afastes dos mortais
Deixa-me acabar a obra
Ser quem sempre prometi
Ser um ser mais verdadeiro
Ser mentira só para ti
Dá-me só um tempo mais
Não apareças de surpresa
Nunca te roguei favores mas deixa que agora peça
Espera só um pouco mais
Não me leves despojado
Hoje nada sou mas sei que serei mais abastado

Depois leva-me contigo
Caminhemos lado a lado
Na viagem prometida
Que me tens sempre tentado
Não me sais do pensamento
Qual amor assolapado
És a miragem do meu tempo
Consumido e apaixonado

Ciganita

Dança comigo ciganita, deixa-me levar-te nos meus braços. Deixa-me embalar o teu olhar com o movimento do vento nas cearas. Quero sentir o cheiro da lenha queimada nos teus cabelos que mais parecem ninhos de rato feitos cinza. Com ele vêm as memórias daquelas madrugadas nos campos

não me perguntes porquê

dos dias em que acordei junto ao riacho de águas geladas

aquele riacho que procura a custo no Verão contornar os seixos no caminho.

Deixa-me sentir o teu porte, ciganita, contornar o teu corpo com os meus braços. Afagar os teus receios de seres vista ao meu lado, mãos sobre mãos, peito sobre peito. Quero senti-lo estremecer da ansiedade de quem desbrava novos trilhos em matas virgens. Quero ver nos teus olhos o poder das catanadas, fixando os meus até poderes ver a minha alma.
Quero rodopiar levando-te comigo enquanto levamos todos à nossa frente. Sentes os olhos das velhas trespassarem-te? Seguem a cadência dos nossos passos, tentam acompanhar o nosso ritmo e procuram perceber a dimensão da nossa cumplicidade. As mãos coladas fundem-se no calor da noite e elas procuram, agitando as cabeças como os mochos nas árvores, perceber se os nossos sorrisos escondem palavras por dizer. Mas as nossas bocas permanecem seladas enquanto a música ecoa pela praça e desviamos o olhar sempre que o sentimos tornar-se espelho das nossas pretensões.
Cheiras a fumo, ciganita. Deixas atrás de ti o odor primordial da pele e da carne feita gente de verdade. Sinto que se te lambesse o rosto levaria comigo o sabor da terra seca e do barro quebradiço. Adoro essas tuas bochechas rechonchudas

toda tu és rechonchuda

roliça descubro agora, pelo toque no teu corpo.

A noite é nossa, ciganita. Dança comigo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Amanhã, talvez

Quero que me vejas como sempre me mostrei, todo, transparente, indefeso.

Quero que continues a olhar para mim, a chamar pelo meu nome, a descobrir os segredos que encerro. Tu tens a chave para entrar dentro de mim e facilmente darás por eles dentro do baú das minhas divagações e memórias transformadas em palavras que se dizem.
Quero levar-te comigo para todo o lado, quero que queiras vir, trazer o teu sabor na minha boca, o teu cheiro nas minhas mãos, o teu olhar no meu sorriso.
Quero mostrar-te a amplitude dos meus pensamentos e a loucura que são os meus sonhos quando os tento traduzir. Sabes que tenho sempre a cabeça no ar e que não descanso enquanto não me achar maior que a vida, eu que tantas e tantas vezes me recolho no meu canto, encolhido perante a grandeza do mundo e o tamanho que tu tens. Sim, cresço de cada vez que respiro o teu ar, muda a imagem que vejo reflectida no espelho e sou cada vez mais quem me reconheço. Mas são muitas as vezes que me sinto pequeno, demasiado pequeno, acobardado pelo poder de ser maior.
Quero que saibas quem sou.
Não sou como as árvores grandiosas das florestas que assistem à distância ao efeito do vento nas ramagens, serenas perante as convulsões das intempéries. Não sou como os rios que seguem o leito esculpido entre os vales das montanhas, com rumo certo em direcção ao mar. Não sou como as noites quentes de Verão no Alentejo que deixam revelar o manto das estrelas no firmamento, escondido nas cidades pela luz dos candeeiros.

Sou a lágrima que vês escorrer do meu rosto quando as palavras não querem sair. Sou a doçura que fere como ferroadas, a ternura que desfere golpes baixos. Sou o sorriso da ironia desprendida, o esgar da sedução feita a medo de dar certo.
Sou um ser perdido nas coisas que sou, que me encontro a espaços quando decido enfrentar a escuridão que ocupa lugar entre as minhas contradições.

Quero que me vejas como sempre me mostrei, todo, transparente, indefeso.

Hoje sou uma pequena flor num jardim desarranjado, contando com o vento para que me desvie das pisadas que correrão comigo do mapa. Apenas conto com o vento, porque comigo não posso contar. Hoje não… amanhã, talvez.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Quintal

Pegou numa pedra que estava num jardim ladeado de prédios tristes por todos os lados, numa zona periférica da cidade. As veredas de arbustos podados serpenteavam por todo o comprimento e o chão era de gravilha miúda, poeirenta e ruidosa com o vagar das suas passadas curiosas. Havia por perto um parque com baloiços e escorregas e por isso ouvia a galhofa das crianças, e quase se podiam imaginar as correrias, os rostos transpirados e aquela ânsia de abraçar o Mundo num momento, que os miúdos têm quando se sentem felizes.
As pessoas na rua olharam para ele com curiosidade. Houve até um menina que ficou, literalmente, de boca aberta enquanto puxava pela manga do casaco da mãe, entretida a falar com uma amiga sem lhe prestar atenção.
A pedra era de facto de dimensões consideráveis. Era uma pedra como todas as outras as pedras, de formas indefinidas, lascada nalgumas partes da sua superfície pelo tempo e os elementos. Carregava-a com os braços deitados por terra, empurrando-a com o balançar da anca enquanto caminhava. O seu rosto estava carmim e a respiração ofegante, e de vez em quando sentia necessidade de parar para recuperar energias. Nessa altura pousava a pedra no chão encostada a uma parede e colocava-se à sua frente como que a protegendo dos olhares das gentes que passavam.

Passou cerca de meio dia pelos promontórios no alto de um mar que se agitava em reboliço lá bem em baixo, procurando ganhar espaço à massa sólida que se interpunha entre ele e o resto do mundo. Calcorreou com cuidado o piso escorregadio, colorido de verde limo, olhou para dentro de algumas poças que a chuva criou nas fendas dos pontões e espreitou para dentro das grutas improvisadas pelo tempo e os elementos.
Só passadas algumas horas encontrou a pedra, decorada de madeixas brancas que se esfumavam do centro para fora. Era uma pedra redonda, como quase todas as pedras que calhou se terem desprendido do promontório, e lisa como as unhas de uma criança. Apetecia quase afagá-la com a face e sentir o frio do vento norte nela impregnado com o aroma das marés.
Foi difícil fazer o caminho de volta até ao carro carregando a pedra nos braços. Era menor do que a primeira, mas mesmo assim sentia que muitas vezes o chão o queria trair e que o movimento da Terra acelerava de repente apenas para ver se ele mantinha o equilíbrio.

Chegou manhã cedo à floresta, ainda os primeiros raios de sol trespassavam os fetos e se fundiam com a neblina fazendo parecer que todo o ar estava invadido por espectros do outro mundo. As calças foram ficando molhadas à medida que ia passando por entre as veredas estreitas e se deixava mergulhar no orvalho. O ar estava frio naquele Outono que começava agora, finalmente, a provocar estragos nas árvores mais sensíveis. Sentiu-se por vezes observado pelas aves que pareciam seguí-lo com curiosidade, viajando de ramo em ramo até perceber o que faria ali aquele ser estranho. Houve pelo menos um corvo que garante tê-lo seguido durante todo o trajecto, ecoando o seu grasnar por entre as avenidas de pinheiros, as alamedas de begónias e as pracetas de jasmins.
Dessa vez não demorou muito tempo até encontrar a pedra. Ela lá estava, repousando em silêncio por debaixo de uma árvore, dissimulada pelas folhas amarelas que coloriam o chão por ali. Era a maior pedra de todas as que recolhera até agora. Estava forrada de musgo e alguns líquenes pequeninos emergiam apontando para o céu, parecendo querendo indicar a direcção das suas ambições mais desmedidas, eles que jamais seriam mais do que são, naquela rocha lapidada pelo tempo e os elementos.
O caminho de volta foi o mais difícil até então: teve se subir uma colina procurando agarrar-se ao chão por debaixo das folhas, que mais pareciam tapetes puxados sobre os seus pés. Perdeu-se até chegar à estrada, calcorreando em círculos pela floresta até se assustar e pensar não mais conseguir sair de dentro dela. Encontrou o corvo poisado num ramo e seguiu o seu esvoaçar até finalmente dar por si de volta ao sítio onde tudo começara nesse dia.

Subiu a uma montanha onde estivera anos atrás numa altura em que partilhou aquelas vistas com alguém que amou profundamente. O tempo apartou-o desse amor mas deixou ficar a memória dos momentos que mantiveram aquecido aquele lugar inóspito, de onde até o oxigénio fugia. Sobre as planícies cobertas de neve imaginou pairar a sombra dessa mulher como se fosse uma colina da montanha, estendendo-se pelo horizonte fora, espalhando com o seu abraço envolvente a ternura que sentiu tantas vezes na sua pele.
No alto da montanha as pedras eram difíceis de descobrir, escondidas por debaixo da neve e do gelo que por ali abundavam. Teve de deixar chegar o Sol do meio-dia para ver se se revelava uma pontinha de esperança. Com a ajuda das luvas ia raspando pacientemente os locais que lhe parecia ocultar relevos moldados pelo tempo e os elementos.
Não conseguiu descobrir nenhuma pedra à altura das suas pretensões, e por isso regressou no dia seguinte. O clima tinha sido compreensivo com ele e transformou em água grande parte do manto que cobria a montanha e as planícies lá em baixo. Sorriu ao imaginar que o abraço quente da mulher que amou profundamente poderia ter contribuído para esta alteração do cenário, à medida que estendia o seu aconchego acolhedor por entre os vales.
A tarefa não foi por isso mais fácil, pois os caminhos escondiam armadilhas mortais, a vegetação acalentava falsas esperanças e o ar rarefeito prendia os seus movimentos ao centro da Terra. Mas acabou o dia com a pedra na sua posse, de arestas pontiagudas como as setas dos homens primitivos e com a cor das casas das aldeias.


Nas traseiras da sua casa tinha um pequeno quintal.


Os muros em sua volta tinham sido reforçados fazia meses, e em vez do tradicional chão cuidado resolvera deixar a terra revolta forrar aquele espaço. Era uma terra castanho escura, de grãos grandes e húmidos que insistiam em colar-se uns aos outros em pequenos grânulos mesmo nos dias quentes de Verão.
Naquele espaço nada mais existia senão um pequeno banco de madeira encostado a um dos cantos, do lado onde ficava a casa.
As pedras que recolhera nas suas jornadas epopeicas estavam agora a ser cuidadosamente colocadas no centro do quintal, formando uma espécie de círculo disforme. Colocou-as em posição com o cuidado com que se afaga as coxas de uma mulher, e em todos os instantes tinha escarrapachado um sorriso glorioso no seu rosto iluminando-o para além da tez acinzentada dos dias sobre as luzes fluorescentes.
Finalmente estava pronto o seu santuário. Olhou mais uma vez para confirmar que o equilíbrio possível estava conseguido e pareceu-lhe, depois de mais uns pequenos ajustes, ter encontrado a melhor forma de as dispor.
Após essa confirmação resolveu sentar-se no banco e montar guarda, ficando embevecido a mirá-las como quem contempla uma obra de arte de um pintor consagrado.
Pensou em todos os dias da sua vida até aí que não iriam ficar para a história. Da maior parte nem lembrar-se deles era capaz, maldita a memória limitada que nos amputa os momentos que constroem o nosso ser como os tijolos que constroem os prédios. Dos que se recordava, tinha presente a noção de serem pouco mais do que iguais uns aos outros, sucedendo-se como capítulos de uma história de sentido insondável. Sempre receou deixar este Mundo sem deixar a sua marca, caminhando pela vida em busca de um significado que já sabia perdido à partida. Não tinha filhos e o seu coração estava cada vez mais empedernido com a amargura de amores idos, corroídos pelo tempo e os elementos. E passou tempo até descobrir que marca seria essa que perdurasse para além da sua frágil condição de ser, até decidir construir este santuário.
O destino tinha outro desígnio para as pedras que agora plantara no jardim. Haveria de as procurar dissolver, espalhar as suas grainhas pelos rios em direcção ao mares, fundi-las no calor da lava incandescente. Como um plano bem montado desde o início dos tempos, aquelas pedras teriam uma história condicionada apenas pelo rumo dos acontecimentos naturais, tão desprovidas de significado e utilidade eram.
Mas agora ele interferira no curso da natureza e atribuíra-lhes todo um novo sentido. Naquele lugar, protegido na medida das suas possibilidades, elas tornar-se-iam coisa viva, símbolo da crença de ser possível fazer acontecer, agir sobre as cordas das marionetas que são todas as coisas nas mãos de Deus.
Perdera a esperança no seu coração e sabia que se tornaria cada vez mais parecido com as pedras do seu quintal, à medida que os anos passassem por si. E por isso, todo o tempo que dispunha para além das rotinas dos dias iguais e sem história, deixava-se ficar sentado no quintal, no seu banco de madeira, contemplando o seu poder de fazer mudar o Mundo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Ambiguidade


Mesmo que gostes da imagem podes sempre ir para além do que os teus olhos vêem; mesmo que sintas o frio na pele podes sempre procurar encontrar o pulsar do sangue quente nas tuas veias; mesmo que sintas a humidade nos ossos podes sempre aquecer-te perante a magnificiência do que te esmaga de tão belo te parecer.
Podes encontrar o caminho do meio da ambivalência e da ambiguidade que te deixo, incapaz de explicar o que à primeira vista parece ser tão simples e linear. Podes fazê-lo se quiseres, contando apenas contigo e com o que vales. De mim apenas tens garantida a neblina que confunde os sentidos, que atordoa, que baralha e volta a dar, que não descortina a fachada das traseiras...