terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Tatoo

Por entre o corrupio desenfreado das memórias dos odores e das cores que pintam o teu rosto de azul celeste e carmim e dos sons que os meus dedos provocam em ti como se dedilhassem as cordas da tua alma as teclas no teu íntimo as palhetas do teu corpo recordo aquele ser que pousou sobre a tua pele atraído pelo cheiro que podia ser o das flores da primavera e que o iludiu numa atracção irresistível que eu percebo tão bem que esse ser podia ser eu fui eu aliás que também tantas vezes me colei à tua pele como agora está ele mas com a diferença de que ele jamais te vai abandonar ao passo que eu te abandono por tudo e por nada e sobre a tua pele desapareço tantas vezes quanto as que desejo ficar colado a ti até os nossos corpos se fundirem num calor dos infernos que nos derreta e espalhe pela cama e pelo chão quem nós somos de verdade esse ser tem toda a sorte do mundo por poder permanecer poisado em ti para além do tempo e poder ver-te crescer e tornares-te senhora do mundo tu que és maior do que o espaço que ocupas

Percebo as suas formas os seus contornos a forma curiosa como parece perscrutar a tua silhueta e apenas rogo que te agarres às suas asas e te deixes levar por esse céu imenso lá em cima vais encontrar a minha cabeça de sonhador inveterado que pode não estar contigo quando ambos temos os pés no chão mas que flutua muitas vezes na tua direcção e que sabe que é no nevoeiro do etéreo que damos o melhor de nós longe das coisas terrenas que apenas servem aqueles que não vêem para além do que alcançam os olhos

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Montanha

Chegou ao topo da montanha depois de uma escalada longa e dolorosa. Trazia nas mãos as marcas do esforço de puxar pelo seu corpo vencendo a atracção do centro da Terra, e nos joelhos começavam a formar-se pequenas crostas de sangue seco, das vezes em que ia de encontro às rochas.
A roupa foi-se rasgando pelo caminho e agora conseguiam ver-se os contornos das suas pernas, os pêlos eriçados sobre os músculos tensos do esforço que o conduziu até ali. A camisa estava por fora das calças e baloiçava ao ritmo do vento que lá em cima era mais frio. Estava suja de terra e lama, numa aproximação a um tipo de camuflado natural.
A simbiose com a montanha foi aumentando com a escalada: confiou única e exclusivamente nela para que o protegesse e o fizesse chegar até ao topo. A certa altura, a meio do caminho, sentiu como se ela abrisse os braços para o receber, indicando-lhe os trilhos mais favoráveis de ser calcorreados. Sentiu-se mergulhar nas suas entranhas mesmo tendo claro que nunca deixou de roçar senão a superfície. Mas as marcas que a montanha deixava nele fizeram-no estremecer por vezes, sempre que perdia a noção completa dos seus contornos e começava a confundir os seus limites com as ervas e o musgo sobre as rochas, os líquenes que coloriam as sombras eternas de algumas colinas e a terra acastanhada com cheiro a vinho seco e quente.
Foi por pretender entregar-se aos desígnios da montanha, que decidiu não levar consigo quaisquer utensílios ou ferramentas. A montanha decidiria o que fazer com ele. O caminho tinha de ser completamente honesto, não havia volta a dar. Se cair fosse o seu destino, cairia de bom grado. Não valia a pena deixar-se enganar pelas intenções falaciosas dos subterfúgios. A montanha poderia fazer dele um joguete, um peão do seu tabuleiro pronto a sacrificar-se por um bem maior.
Não o fez por querer afrontar a montanha ou fazer valer a sua determinação. Fê-lo porque confiava nela, apenas confiava nela. O desejo de a escalar e deixar-se entregar às alturas era a força suficiente para pôr tudo em risco, mesmo a sua própria vida que sentia ser cada vez menos sua à medida que ia caminhando em direcção ao céu. Era esse o desígnio da escalada: entregar a sua vida à montanha, quer isso significasse morrer durante o trajecto ou manter vivo o seu corpo para que se tornasse dela.
A montanha não o deixou ficar mal e recompensou a sua confiança. Ao fim de um tempo que lhe pareceu menor do que fora realmente, atingiu o cume almejado.
Pensou que iria dar mais pela falta de oxigénio pois continuava a respirar normalmente como quando estava lá em baixo, mas depois deu-se conta que já entre os seus vales por vezes lhe faltava a respiração ao sentir-se arrebatado pela sua beleza, pela imponência e a elegância com que trespassava as nuvens namoradeiras que a visitavam sem parar. Desejou tantas vezes ser nuvem e poder roçar-se no seu corpo que a sua cabeça flutuava, realmente, e o levava até aos picos mais distantes onde se deleitava no regaço das cordilheiras. Acordado, sentia a textura da erva massajar-lhe suavemente os pés e o cheiro das pequenas flores que decoravam o seu corpo; a dormir, muitas vezes acordava molhado pelo toque dos glaciares que o visitavam de noite, assombrando o seu sono descansado, passando os dedos gélidos nas suas costas queimando-as com o rigor dos Invernos mais sombrios.
Já no cimo da montanha decidiu sentar-se sobre um precipício e admirar a paisagem em seu redor. A sua mais delirante imaginação nunca poderia ter suposto um cenário mais magnifico. Sentiu estar a contemplar a essência da beleza, em estado bruto, o arquétipo original que inspirou desde sempre os artistas iluminados pelo toque da genialidade. Não foi Deus quem definiu tal padrão, mas sim esta montanha e a sua paisagem em redor. Por ela terão suspirado os amantes das tripas corroídas pelo ciúme, por ela terão sido evocadas as notas mais belas das sinfonias que a história tratou de preservar.
A beleza da montanha, comprovada pelos olhos que ansiavam tanto tornar-se finalmente testemunhas, fez cair deles uma lágrima, singela quando comparada com a torrente de imagens e sentimentos que o esmagavam nessa altura.
A lágrima não escorreu pelo seu rosto como todas as outras lágrimas que derramara anteriormente. Deixou-se ficar um pouco abaixo da pálpebra, adiando o seu trajecto até se imobilizar de vez. Transformou-se numa espécie de espigão de gelo, numa estalactite inusitada. De repente todo o seu rosto ficou imóvel contagiado por esta vaga de frio que foi tomando conta do seu corpo até o tomar por completo.
A vida que lhe fora poupada durante a escalada tinha sido afinal entregue à montanha conforme previra. Ela reteve-o para sempre, naquela posição, deixando-o a contemplar por toda a eternidade a ideação mais perfeita da beleza. Deu-lhe os tons de azul e branco nos Invernos, e no meses quentes fez a sua pele estalar como casca seca das árvores. Ficou com ele, no seu seio, tomando conta dele até ao final dos tempos. Manteve-o longe do mundo e dos olhares impuros dos outros, e apenas permitiu que o silêncio povoasse o seu sentir. Durante toda a eternidade aquela devoção não viu maneira de ser ameaçada. Os animais nunca se aproximaram para tentar desvendar aquele desconhecido, e as labaredas dos fogos de Verão passavam à margem para que aquele amor permanecesse incólume.
Do alto da montanha ele ficaria para sempre, contra todas as probabilidades e as leis da natureza. Ficaria porque se entregou a um amor incompreensível, a algo que admirava para além dos limites da razão. Tornar-se-ia parte dela porque viver sem o ser seria engano.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Silêncio

São tantas as coisas que quero dizer que não consigo que saia nada cá para fora. Os meus lábios estão paralisados com a dormência provocada pela pressão das palavras por dizer.
São tantas as coisas que sinto que o meu coração não tem mãos a medir, e bate frenético tentando acompanhar em vão o ritmo dos meus pensamentos. Luta por manter a cadência por entre a turbulência dos sentimentos contraditórios que o forçam a compassar as batidas.
São tantas as ideias que me atropelam o espírito que sinto difícil fazê-lo levantar-se de novo, esmagado que está no asfalto pelo peso das reviravoltas, das incongruências, das vontades por cumprir.

Vou deixar o silêncio falar por mim, desta vez. A minha voz vai repousar, renunciando ao impulso de a fazer ecoar por entre os recantos da tua alma. Está a soar rouca agora, fraca nas tonalidades graves que sempre soaram bem perto de ti. Está esganiçada pela secura das lágrimas contidas, oscilante como o ruído do vento por entre os canaviais.
Vou deixar cair o manto escuro do silêncio sobre o cenário. Não há porquê correr o risco de o manchar com esta voz fragilizada, entorpecida pela fraqueza do corpo. Quero que te recordes dela como quando tinha a força de fazer mover as montanhas.

O silêncio vai falar por mim, desta vez.
Os meus lábios apenas vão servir, para já, para te dar o beijo que ficou por cumprir. Estão mudos mas não inertes, e juntam-se na celebração da epopeia que tem sido a nossa história. Uma viagem de descobertas de territórios inexplorados, onde procurámos não ficar apenas deslumbrados com a paisagem mas onde, para além dela, sempre procurámos ver o que havia por debaixo de cada pedra que encontrávamos.
Fica com o meu silêncio, por agora. Mas não me recuses este beijo!