quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

PAISAGENS

Ele olhou para ela como se ela estivesse por ali. Os seus olhos pareciam estar sincronizados com os lábios, movendo-se como um espelho que clamava por atenção. Olha para mim, pareciam gritar, disfarçando o desespero com um sorriso. Olhos de buraco negro, sorvedouros silenciosos do espaço que ambos ocupavam naquela sala. Se ela naquela sala estivesse.

Ele falou para ela como se ela estivesse por ali. Falou das horas do dia, das pessoas na rua, das palavras dos outros que suscitaram a sua verborreia habitual. Tentou pronunciar todas as sílabas com a determinação de quem acha poderem vir a ficar gravadas no tempo. Talvez com esse ênfase, ela desse conta do desespero em surdina que as suas palavras encerravam. Como se ela estivesse capaz de as ouvir.

Ele tocou-lhe como se ela estivesse por ali. Não procurou o desejo nem a memória dos tempos em que a chama esteve acesa. Queria apenas sentir se estavam vivos. Os dois. A temperatura dos corpos podia confirmar aquilo que a respiração parecia contradizer. Mas viva estava. Não estava ali, mas estava viva.


Ela tinha os olhos presos no tempo. No enxoval oferecido pela avó ainda tinha ela 15 anos, na cama sempre feita na perfeição todas as manhãs, nos sonhos de ter a sua vida organizada e de ser sempre aquilo que todos esperavam dela. Mas se os olhos estavam no passado, a cabeça estava no futuro. Nas paisagens que ainda ia ver, nos caminhos arriscados que iria percorrer. O presente, tal como ela, é que já não estavam por ali.

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