terça-feira, 17 de junho de 2008

Metáforas

Não me falta a verborreia digital, a tremura nas falanges que me compele a traduzir as imagens em coisas que se lêem. Não me faltam os conceitos fisicos e os arquétipos, nem os sonhos difusos que desperto me confundem a noção de estar acordado, por vezes. Nem as imagens que me amassam como numa colisão frontal, o choque entre os meus sentidos e a realidade: inspiram-me como sempre os pequenos gestos, os objectos insignificantes, as brisas que me afagam os cabelos. Todas essas coisas continuam também comigo.
Não me faltam as pessoas que me amam, as pessoas que me odeiam e as pessoas para quem sou indiferente. Todas elas à sua maneira me dão motes para esculpir as frases que procuram ser matéria. Para elas sinto sempre ser imensamente cruel, para lá do que consigo controlar, mesmo quando lhes digo o quanto as amo. Não tenho mão no que sinto e cada vez a minha competência para o fazer se esboroa em fúteis intenções. Estou um animal mais visceral, mais impulsivo, receio cada vez mais os meus planos e por isso torno-me mais comedido quando perspectivo o futuro. O vazio do tempo incerto que há-de vir mantém-me num estado em que o optimismo e o pessimismo convivem como velhos batendo cartas num banco gasto de jardim. Desafiam-se dolentemente, procurando apenas ganhar sentido ao tempo.
Não me faltam os rostos anónimos, as gargalhadas ruidosas e os abraços dos amantes, que me despertam memórias e confabulações pouco inocentes. Estão em todo o lado por onde vou, nas ruas largas por onde caminho como um vagabundo, nas ruas estreitas por onde não consigo evitar caminhar. São crianças entretidas com a dimensão gigantesca das coisas, são mulheres com os olhos exultando expectativas, são idosos com as mãos encarquilhadas.
Não me faltam as noções de ser quem sou, cada vez mais exposto perante mim próprio mesmo que igualmente resistente à invasão. Sou como um espelho convexo, percebo melhor agora, que não deixando de reflectir a luz que sobre ele incide, se protege emitindo imagens transfiguradas aos olhares dos curiosos.
Nada disto me falta.
Apenas me faltam as metáforas. Mas só às vezes dou por falta delas. E noutras tantas, como agora, irrompem vindas do nada e invadem os meus poros, as células que compõe a matéria que se vê.

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