terça-feira, 27 de maio de 2008

Marcas de café

As marcas da chávena de café na mesa como aros de fumo sobrepostos.

Hoje a manhã despontava fria e cinzenta e parecia que nunca mais iria chegar o bom tempo, como se esta manhã fosse o prenúncio de um Inverno teimosamente persistente para lá dos ciclos anuais.
Coçava as costas vagarosamente enquanto chinelava até ao armário onde se encontravam as chávenas do café e pelo caminho ligou a máquina. O ruído dos seus passos não deixava margem para dúvidas: pesava mais do que os quilos do seu corpo, carregando em cima dos ossos o peso do sono interrompido sob um manto de decoros e impropérios.
Quando a máquina começou finalmente a jorrar a água acastanhada, foi até ao quarto e ligou a televisão para ouvir as notícias. Estava trânsito na ponte nesse dia. Como em todos os outros dias. Que aborrecido deveria ter de ser o “homem do trânsito”, ecoando sempre a mesma ladainha, esperando ansiosamente que ocorresse algum acidente numa estrada secundária ou nos arrabaldes para que o dia pudesse ganhar outra emoção.
Levantou o som para que pudesse ouvir na cozinha o que se passava no IC19.

As marcas da chávena de café na mesa como as argolas entrelaçadas dos mágicos.

Sentou-se na cadeira da cozinha e ficou quase inerte saboreando os primeiros tragos de café. Parecia estar a fazer um esforço real para descolar as pálpebras e mesmo quando o seu corpo ganhava os contornos de um homem acordado, achava ainda estar a dormir por dentro.
“Sistemas principais em manutenção; é favor desligar todos os sistemas auxiliares; em frente, em velocidade de cruzeiro. Os Warps ficam para mais logo…”.
Olhou para fora pela janela da cozinha e mesmo não estando muita luz sentiu os fotões matinais como garfadas nos olhos. A roupa estendida lá fora ia precisar de ser lavada novamente, pois chovera toda a noite. Logo se havia de tratar disso que agora há que fazer esticar o tempo o mais possível para que a dolência seja aproveitada ao máximo antes do bulício do costume.

As marcas da chávena de café na mesa como carimbos repetidos sobre o papel.

O sono sabia-lhe bem, finalmente. Encontrou de novo o prazer da experiência onírica e fez as pazes com a almofada que noutros dias (mesmo naqueles em que o clima esteve mais ameno) mais lhe parecia ter sido enchida com granito.
O espaço parecia-lhe bem, o silêncio parecia-lhe bem, e se colocava a ladainha do homem do trânsito a soar pela casa era mesmo por ter por ele uma profunda admiração.
Finalmente conseguia enfrentar as fotos penduradas na parede sem sentir o impulso descontrolado de desviar o olhar. Foi por não as ter conseguido encarar de frente que elas ainda por ali andavam, é um facto. Mas agora já não provocavam nele qualquer embaraço ou inibição. As fotografias penduradas na parede ali deveriam permanecer, agora porque sim (justificação tão inconsequente e que nesta altura lhe parecia tão poderosa).
Quando é que a coisa mudou? Não sabia dizer. A construção tinha acontecido subtilmente, pedra sobre pedra, até que o edifício se erguesse sobre umas fundações fortalecidas.

As marcas da chávena de café na mesa como brincos de ciganas cheirando a fumeiro.

Hoje, naquele dia nublado, como nos dias anteriores teimosamente nublados, substituíra a celebração pela dor, a memória pela saudade.
O espaço era maior agora, apenas ocupado por ele. O silêncio era mais frequente pois o seu quotidiano estava agora privado de conversas idas. Mas o espaço e o silêncio pareciam-lhe bem agora.
Como o homem do trânsito viciado na sua ladainha e na esperança de um acidente numa estrada secundária ou num arrabalde, também ele esteve preso à dor e à saudade ansiando por um dia mais solarengo que por si só fizesse alterar todo o cenário.
Mas esse dia tardava a chegar e se calhar por isso, decidiu pôr-se a caminho.
A saudade é um sentimento perverso. Dizem que é típico dos portugueses como se isso fosse um motivo de orgulho para alguém... A saudade corrompe a memória e corrói o tempo como o ácido em calcário.
Algures, numa altura que ele não conseguia definir precisamente, o edifício começou a construir-se sob as fundações da celebração: as memórias das viagens que foi fazendo, mesmo daquelas que não implicaram ter ido para lado algum.
A vida é isso, afinal: uma longa viagem cheia de etapas. Quando chegamos a um destino e regressamos, começamos logo a pensar no próximo. E o próximo, por melhor que seja, não faz desaparecer o bem que soube o anterior.
Ele hoje olhava para as fotos de frente porque achou melhor celebrar. As viagens terminam mas as experiências permanecem o tempo que nós bem entendermos. Não é a viagem que nós buscamos mas as experiências que elas encerram.
A saudade, descobriu ele enquanto se erguiam as paredes do edifício, é afinal um sintoma de egoísmo. Sem a posse não há saudade e a posse é a maior das ilusões, que nos acena sedutora, como um efeito secundário da paixão.
Ele não possui ninguém agora, mas também nunca possuiu, por isso não tem de quê ter saudades. As únicas coisas verdadeiramente suas, tanto no passado como agora, são as experiências porque passou. E essas são para ser celebradas como as etapas alcançadas de uma prova de fundo, impulsos para prosseguir rumo a uma meta à qual nunca se chega afinal.
Acabem-se as ilusões, por isso. Acabe-se a dor e a saudade.
Os próximos dias podem ser de chuva, mas o cimento está armado e as vigas postas no seu lugar. O edifício está seguro, por isso.
Vai continuar a erigir novos pisos que tornarão o edifício ainda mais alto, para que as suas vistas alcancem ainda mais longe. Nas paredes que for criando vai colocar as fotos de sempre para decorar o espaço, dar-lhes a vida que é a sua.
Vai ser sempre assim.
Afinal, ele não perdeu nada mesmo achando outrora, ter tido tudo. Teve tudo, de facto, mas tanto como agora. Percebe isso claramente enquanto as pálpebras se separam definitivamente e parte rumo ao chuveiro.

As marcas da chávena de café na mesa como desenhos de uma criança.

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