sexta-feira, 23 de maio de 2008

Em Paris, junto ao Sena, 2005



Sinto nas mãos os contornos frágeis das curvas do teu corpo que desaparecem lentamente, como as curvas que o retrovisor oblitera até me encontrar perto de ti. Desaparecem porque o teu corpo ganha novas formas moldadas pelos dedos sensíveis de uma paixão que te enfarta. Toma o lugar dos alimentos, sacia a tua sede, rouba-te a carne aos ossos que agora sinto mais próximos da minha mão.
Deixa estar. Também o meu corpo se transfigura agora que a minha mão ganhou o direito de te tocar. Pode não se ver por fora, mas as minhas entranhas ganharam vida própria, rugem desalmadamente quando me afasto como que reclamando o seu quinhão, doem-me quando estou perto como que me avisando já estar cheio. Antigamente nem dava por elas, mas agora respondem ao toque desse teu corpo que perde as curvas lentamente.
Deixa estar que assim está bem. O teu corpo assim está bem. Faz as minhas mãos parecem maiores quando te aperto, dá-me a ilusão de que o meu toque e somente ele te protege. Faz-me sentir mais próximo quando te abraço e te aperto contra mim, sou muralha que desvia o vento das tempestades, sou a torre de marfim que podes ocupar com os teus caprichos.
Tu és o corpo que perde as curvas e que ganha novas formas, que se dá ao direito de substituir o sustento pelo amor, tu és o corpo que o meu egoísmo venera como se fosse perfeito porque dele preciso para ser muralha e para ser torre de marfim. Tu és o cheiro que me assombra e me persegue, que me visita como um espectro nas noites mal iluminadas em que deixo o tempo passar apenas, sem querer saber para onde vai. És o sabor que me acompanha quando os beijos acabam, a textura que permanece na minha boca como a de uma fruta húmida que estou sempre a trincar.
Tu és a mulher da vida que hoje tenho, da vida que hoje sou. Isso pode não ser muito importante para ti, sabendo tu das mil vidas que já tive e imaginando outras tantas que irei ter. Mas sinto, enquanto o beijo que damos se refresca com a brisa do rio, que marcas o meu tempo como uma cicatriz marca o meu corpo. É assim que ele muda, enquanto o teu perde lentamente as curvas: rasgas-me a pele porque eu quero, retorces-me a alma porque sim, entorpeces-me os sentidos porque és.
Mulher frágil de beijos fortes, mulher seca de amor molhado, mulher por ser mulher madura.
Mulher da minha vida enquanto dura.


NOTA: este texto fez parte da exposição de fotografias de João Oliveira (o autor desta foto) intitulada "mulheres anónimas para homens desconhecidos", realizada no espaço "Mercado Negro", em Aveiro, no mês de Abril deste ano.
João, obrigado por me teres convidado a colorir as tuas fotos (como se elas disso necessitassem...)

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