sábado, 16 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Dentro do carro, por debaixo de um candeeiro solitário de uma rua triste

O primeiro beijo soube estranhamente a morangos. A acidez das línguas colidindo funcionou como um refresco que abranda a sensação de calor, sem ser capaz de o fazer desaparecer completamente. Parecia tirado daqueles sonhos que nos visitam quando estamos prestes a adormecer, fundindo as percepções do mundo real com as ideações lunáticas das fantasias proibidas na vigília.
As suas barrigas acalmaram um pouco com aquele beijo, deixaram de soar esfomeadas dos apetites que nutriam um pelo outro.
Durante o primeiro beijo não respiraram. As línguas divertiam-se trocando carícias enquanto o ar ia faltando ao cérebro, que prolongava por isso a sensação de dormência que se apoderava dos seus corpos.
- Tinha tantas saudades dos nossos beijos!
E agarrou-o mais forte, entrelaçando os dedos por detrás da sua nuca, envolvendo-o num novo beijo que desta vez soube diferente. Ele procurava descobrir o que fazer com as mãos, passeava-as pelo seu rosto, percorria as suas costas, afagava o seu cabelo que transbordava por debaixo dos ombros.
Era um daqueles momentos que podia ser planeado. Ou devia, teria ele pensado antes de ocorrer. Como demonstrar o desejo e a paixão de forma que se visse, e não deixar ao acaso as manifestações desses sentimentos violentos? Isso devia requerer uma antecipação do momento para que, nada falhando, ele se tornasse mágico e perpétuo.
Mas tirando a vontade de estarem ali os dois, dentro do carro por debaixo de um candeeiro solitário de uma rua triste, nada mais estava sob controlo. Nem as mãos dele que pareciam ganhar vida própria e caminhavam, irremediavelmente, em direcção às suas coxas.
Ela mantinha os olhos fechados com força, pareceu-lhe a ele por vezes, como que se forçando a imaginar um outro cenário bem longe daquele beco solitário. Talvez uma praça de uma cidade importante num dia claro, ou uma esplanada sobranceira à maresia do Atlântico. Ele, por seu lado, olhava para ela por vezes para se certificar que não partiria de vez para esses locais enquanto o cérebro ia ficando menos oxigenado, assegurando-se de que pelo menos poderia garantir a presença da sua resignação dentro daquele carro.
A boca dele percorria-lhe o pescoço demoradamente, sorvendo os restos da maquilhagem misturados com a sua essência, a essência que só de a antecipar lhe causava uma tesão brutal.
A pele dela arrepiava-se à medida que os lábios dele perscrutavam curiosos todos os poros, respirando os odores que emanavam das suas entranhas e que saciavam o seu apetite voraz de feromonas.
Para além da pele de galinha, ela sentia os mamilos tomarem forma e como que impelida por um chamamento surdo, sentiu uma das mãos dele contra o seu peito que era agora um gerador de energia propagando descargas eléctricas até ao seu ventre.
As mãos dele estavam cada vez mais insubordinadas, e ganhavam um ímpeto violento quando comparado com a doçura dos beijos no pescoço e das mordidelas subtis que deixavam um rasto discreto de saliva por detrás do seu cabelo e junto às orelhas.
- Pára com isso, que nos vêem!
E usou as duas mãos para empurrar a dele que tentava entrar para dentro da sua saia e dos seus collants de lycra. Ele voltou a abraçá-la e a sufocá-la com um beijo ruidoso e molhado.
Ela deixava cair a cabeça como que entrando num estado de letargia, quando ele lhe massajava a nuca e simultaneamente lhe lambia o pescoço. Ao vê-la nesse estado de dormência fez nova investida e sentiu dificuldade a vencer a força do elástico que mantinha os collants colados à barriga. Maldito seja, pensava ele.
- Pára, já te disse que aqui não!
A dificuldade que ele não conseguia, aparentemente ultrapassar, consumando a invasão, dava-lhe a ela tempo para sair da letargia e reagir.
Ele sorria como se tivesse sido esculpido no seu rosto a expressão da traquinice. Sentia o rubor nas bochechas e crescer dentro das calças um volume que não poderia disfarçar.
Ela sentia a humidade afogar os seus pensamentos, mergulhando-a numa espiral de descontrolo, num caleidoscópio de sentimentos contraditórios onde se misturavam o desejo e a censura, o prazer e a culpa.
Sem se aperceber disso, deixou-o lambuzar (por mais tempo do que o que se deu conta) todo o rosto, o pescoço irresistível, os lóbulos saborosos das orelhas. E a sua respiração foi ficando mais grave e os olhos mais pesados. Por momentos receou cair no embaraço de adormecer ali, perante todas aquelas demonstrações de luxúria, e que ele se desse conta que a dormência se estava a tornar irresistível como uma droga sem ressaca. Por entre as pálpebras semicerradas deixava entrar um pouco da luz amarela do candeeiro da rua, que parecia agora mover-se num balançar hipnótico. Pareceu-lhe também ver o vulto de dois jovens passar em frente ao carro, para lá da neblina que se condensava no pára-brisas.
Grave. Grave e ruidosa estava agora a sua respiração enquanto dizia baixinho o nome dele e permitia que os seus dedos visitassem o seu peito, por debaixo da camisola.
- Sabes tão bem - dizia ele num tom de voz que perpetuava a hipnose.
Finalmente forçou a entrada e alcançou a vagina com os seus dedos de aranhiço, que estava quente e perfumada com a fragrância da terra quente depois de uma chuvada tropical. Ela gemeu mais alto e todo o seu corpo enrijeceu num impulso. Cresceu para ele, passou a ocupar mais espaço naquele habitáculo apertado, e cravou as unhas no seu braço forçando-o a entrar mais fundo, a descobrir com as pontas dos dedos a textura dos seus recantos secretos.
Ele não se fez de rogado e penetrou-a furiosamente, movendo os dedos como podia para que nada lhe faltasse.
Ela saltou do lugar onde estava para o colo dele e quase lhe arrancava a mão pelo pulso, preso nos apertos dos collants. Punha-se a jeito, abrindo levemente as pernas para poder sentir o divagar daqueles dedos que mais valia não o serem. Nas suas coxas conseguia perceber como ele estava excitado e passou a sua mão sobre aquele órgão com vida própria, espalhando pela barriga os fluidos da paixão descontrolada.
A língua dele obrigava-se a estar dentro dela, e não podendo fazê-lo de outro jeito, entrava pelo seu ouvido dentro para lhe segredar sem dizer nada, que só iria parar de lhe tocar quando ela lhe pedisse. Por ele aquela noite seria maior que as horas em que as trevas cobrissem a rua, e não se importaria de ficar dentro dela até os seus corpos se fundirem numa massa única, moldada com a ajuda dos líquidos expelidos dos seus corpos, como o barro que se amassa melhor quando está húmido.
Passei por essa rua uma noite destas. Eles já não estavam lá, como esperava. O desejo não se cumpriu por completo dessa vez. Mas percebi que a luz do candeeiro estava mais forte. Naquela noite rara em que pode testemunhar a paixão, sentindo o descontrolo daqueles corpos que se comiam com uma sofreguidão que estranhava, por ser a primeira vez que assistia a tal coisa, pensou ser melhor não perturbar aquele momento, tentando misturar-se na penumbra e não a trespassar como sempre fazia.
Mas ao passar pelo local onde o carro esteve parado, para além da luz mais forte do candeeiro, senti um aroma diferente que não consegui encontrar em mais sítio nenhum naquela rua ou à volta dela. Um cheiro a morangos, amargo e doce, que me causou um arrepio que se confundiu com o frio da noite.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Avô

Ouvi finalmente os sinos da aldeia. Acabou por acontecer aquilo que me tinham dito ser normal, que depois de algum tempo iria deixar de os ouvir mesmo quando repicassem a meu lado. Mas naquele principio de tarde quente como tinham sido todas as tardes daquela semana, dei por eles finalmente.
No topo da igreja estava plantado um ninho de cegonhas que deixavam ver as suas cabeças de quando em vez. Seria de esperar que se agitassem perante aquele som forte ali tão perto, mas davam provas de que também para elas a teoria era verdadeira e por isso deixaram-se ficar no seu lugar como se nada se passasse.
Tinha vindo até ao largo da igreja, a meia dúzia de quarteirões da zona baixa da aldeia (que chamavam de Rossio) perto do rio. Nesta altura do ano em que o alcatrão parecia evaporar, apenas corria um fiozinho de água que não dava para saciar a sede implacável que atormentava as terras. Não se ouvia o coaxar das rãs durante o dia, nem era possível vislumbrar os cágados que noutras alturas se estiravam nos calhaus absorvendo todos os raios de Sol que pudessem fazer incidir sobre os seus corpos e armaduras.
Precisava de andar um pouco mesmo que fosse debaixo da torreira que por aquela altura do dia fazia recolher as velhas dentro de portas. Algumas seguiam os meus passos por detrás das cortinas de renda nas portadas, curiosas por saber que destino tomaria aquele forasteiro. Não se sentiam melindradas quando as encarava de frente, faziam vencer a curiosidade sobre o embaraço.
Mais à frente assistia ao desfilar de ruas perpendiculares à Rua Direita (todas as aldeias têm uma rua com este nome), declives pouco convidativos para as minhas pernas saturadas. A planície dominante do cenário era por isso muito mais atractiva do que esses resquícios de relevo acidentado que polvilhavam a aldeia a espaços.
Tirando as velhas por detrás das cortinas das portadas, podia dizer-se que estava sozinho naquele lugar. Apenas alguns rafeiros esfarrapados partilhavam a calçada comigo, mas esses, ao contrário das velhas, pareciam não querer saber de mim para nada.
O meu avô tinha morrido há pouco. Finalmente partiu para onde queria mesmo que nunca o tivesse dito, nem mesmo a si próprio. Não foi levado da vida, apenas desistiu. Não fez cenas, não fez dramas, não barafustou com nada e apenas teve na morte a mesma atitude conformada que manteve sempre ao longo da sua vida.
Lembro-me dele velho, como todos os avós devem ser. A sair de casa para ir esticar as pernas, a ir ter com os amigos ao jardim para ter conversas sobre coisa nenhuma, a ir fazer recados para que pudesse manter o olho sobre as contas lá de casa, a recitar os poemas que inventou mesmo não sabendo ler, a contar-me histórias sobre os lavradores e como exploravam gente simples como ele na altura em que era novo, a rir-se descontroladamente quando apertava a sua barriga inchada e lhe fazia cócegas, a aturar os desaforos da minha avó sem nunca se irritar nem levantar a voz ou um sobrolho.
Lembro-me de adorar comer arroz e de dizermos que essa seria uma das heranças que me deixava, dos gaspachos feitos com a água das fontes onde me levava para sentir como era fresca, das peles encarquilhadas nas suas mãos que me divertia a puxar e a medir o tempo que levavam a retomar a posição inicial, dos arranques saltitantes dos seus primeiros passos após ter estado muito tempo sentado.
O meu avô era como a aldeia onde agora eu deixava os meus passos ao sabor do acaso. Impávido perante a passagem do tempo sabendo não ser capaz de parar um comboio em andamento mesmo que quisesse muito; sereno perante a solidão que a outros espíritos atormenta, como um destino fatal de quem sabe ser pior criar amarras a quem se gosta de verdade.
Nos últimos dias de vida tinha ficado inconsciente, e por isso passei-os junto à sua cama no albergue da aldeia, no Rossio, onde decidira ir morar há uns anos. Tomou essa decisão porque assim sempre conseguia ter mais companhia e se fosse preciso alguma ajuda (para ele ou para a minha avó) sempre teria os técnicos do albergue para o valer. Chamei pelo seu nome várias vezes procurando que acordasse. Noutras alturas cheguei a conversar com ele descrevendo as coisas que ia fazendo como dar um jeito na roupa do quarto ou comentando alguma coisa que estivesse a passar na televisão.
Sempre me pareceu estar terrivelmente tranquilo, quase parecia ter um ligeiro sorriso nos lábios durante toda essa semana. Parecia estar em paz.

Quero que saibas, avô, que sempre adorei os teus poemas e admirei a forma como os recitavas, como lengalengas ritmadas com uma cadência milimétrica. Fascinava-me teres todas essas palavras memorizadas (porque não sabias ler), mesmo quando a memória já te ia faltando para outras coisas.
Quero que saibas, avô, que sempre admirei a tua tranquilidade, como se o teu espírito estivesse num estado permanente de pousio como estavam agora as terras da aldeia porque ninguém cuidava delas. Se calhar eras assim por também nunca termos cuidado ti. Talvez por isso te fosses resignando à tua condição de condenado e a não teres mais expectativas do que poderes ver mais um ocaso de cada vez.

Não sei se estás nas ruas que agora calcorreio. A aldeia já mudou muito desde o tempo em que foste para o albergue e nem estou certo de teres dado por todas essas mudanças. Agora já existe um bairro social e o supermercado da D. Antónia fechou e por isso deixámos de ter sítio onde comprar as cachuleiras e os bolos findos.
Não sei se estás nas memórias dos que sobreviveram um pouco mais e que aguardam neste principio de tarde, por detrás das portadas, que a morte os leve para junto de ti. Estão cá poucos já, e parece-me que muitos deles passam mais tempo a olhar para as fotos que têm em cima dos móveis forrados a papel do que a querer saber dos que por cá andam. Acham curiosos os forasteiros como eu, como achamos curiosas as estrelas cadentes que deixam o seu rasto fugaz no céu: são bonitas de se ver mas não mudam as constelações que mapeiam a noite. E tu fazes parte da constelação da aldeia, a que pouco se liga como aos sinos que mais valia deixarem de tocar.
Nem sei se estás em mim ou se esta dúvida me assola apenas porque deliro com o calor que me cola a roupa ao corpo. Não sei se vou conseguir manter-te vivo para além da morte, para lá do tempo em que tiver presente o cheiro do teu quarto no albergue do Rossio.
Lembro-me agora que não sei nenhum dos teus poemas. E choro pela primeira vez desde que partiste. Eu que sempre procurei dar tanta importância às palavras, que as gostava de guardar em caixas-forte para que sejam mais do que letras agrupadas aos molhos ou meros sons sussurrados, que procuro torná-las coisa viva para que eu próprio não me sinta morto.
As tuas palavras desapareceram de vez e apenas as consigo substituir por lágrimas copiosas que não vou ser capaz de eternizar.

Onde estás avô?
Porque não me deixaste dizer-te mais coisas, todas aquelas coisas que admirava em ti?
Porque é que durante toda esta semana apenas me deste esse sorriso insípido que agora me começa a irritar profundamente quando penso nele?

Soluço no meio da rua para regozijo das velhas por detrás das portadas, que agora têm motivo de conversa para mais logo.
Junto a mim um rafeiro esfarrapado espreguiça-se para apenas mudar de posição e continuar deitado debaixo de uma das laranjeiras que decoram a praceta.

Fizeste bem em desistir, avô.
Agora sei que não estás só.
Prometo não ficar demasiado angustiado com a tua ausência, nem pelo facto de termos ficado com conversas penduradas. Vou fazer como tu, cuidar dos meus mandados, dar as minhas voltinhas, encolher os ombros perante as aflições desconcertantes das gentes baralhadas que se julgam maiores que a vida. Eles que se detenham a chorar das suas desgraças, que enquanto tivermos amigos nos jardins à nossa espera tudo se há de compor.

No dia seguinte chega o resto da família e o meu avô é enterrado a alguns metros de distância da minha avó, que partiu um ano atrás. O meu pai e os meus tios estão serenos também, com um esgar que me faz recordar a imagem que me acompanhou naquela semana, plantada no rosto do meu avô enquanto dormia profundamente. Pensei com que cara estaria eu…
Algumas velhas saíram hoje à rua e assistiam a todo o ritual com uma indiferença desconcertante. À parte disso, mantinha-se o calor, o silêncio do rio e os pulguentos refastelados na calçada.
Tudo se mantinha como sempre esteve, num equilíbrio previsível que teria feito o meu avô feliz.
As minhas lágrimas copiosas já tinham secado, resignadas a não conseguir substituir as palavras entoadas dos cânticos populares desenhados a régua e esquadro.
Ficam as minhas palavras por dizer. Fica-me o cheiro do calor do Verão a incidir no asfalto derretido, da terra seca gretada pela água que até das fontes santas deixa de brotar. Fica-me o sorriso, que vai se a ver foi só para mim que brotou no seu rosto. Fica-me a vontade de parar o comboio em andamento e as ganas de concentrar nessa tarefa todas as minhas forças. Fica-me a ideia de que não posso desistir mesmo quando nada mais restar senão eu próprio e a loucura.
Vou-me embora, para o lugar onde me levam os próprios passos.

Quando me preparava para regressar à cidade, dei novamente pelos sinos a anunciando a hora certa.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

A minha mana

A minha mana não é sangue do meu sangue mas corre nas minhas veias e faz palpitar o meu coração como se fosse dona de metade dos meus genes.

A minha mana é a guardiã dos meus silêncios, daqueles que escondem por vezes gritos lancinantes. Mas mantém-no aninhado no seu colo, trata dele com um carinho fraternal e afaga as suas inquietudes quando quase se prepara para explodir numa fúria sem sentido.

A minha mana ouve as coisas que tenho para dizer e dá-lhes uma atenção que me surpreende, mesmo sabendo que conto sempre com o seu amor. Dá a volta ao texto, lê nas entrelinhas, espreita discretamente por detrás do pano e descobre quem eu sou de verdade. Às vezes descobre essas coisas ainda antes de me atravessarem as goelas, quando não são mais do que congeminações deste meu espírito irremediavelmente irrequieto.

A minha mana conhece os traços do meu rosto para lá do que se vê, as pregas das minhas bochechas quando sorrio e distingue com facilidade as vezes que disfarço daquelas em que me entrego. Não desvenda essa revelação, permanece apenas um segredo entre nós dois.

A minha mana tem sempre espaço para ouvir os meus disparates, as minhas alucinações, os meus sonhos desmedidos e atura a minha estúpida mania de que um dia acabarei por conseguir mudar o mundo. Conhece os meus pensamentos mais tresloucados, as minhas fantasias megalomaníacas, mesmo que nunca lhe tenha revelado por completo a dimensão da minha loucura.

A minha mana está sempre a dizer-me, mesmo quando não me diz nada, que posso ficar descansado que nunca estarei verdadeiramente só neste Mundo, mesmo quando for abandonado pelas pessoas que o meu mau jeito afastar de mim. Terei sempre o seu colinho para me receber e partilharemos as nossas vidas nas palavras e nos olhares que a nossa cumplicidade manterá vivos.

A minha mana sabe que a minha ausência e o meu silêncio não significam distância. Como
poderiam, se ela está sempre junto a mim como uma imagem a que se recorre de cada vez que os olhos precisam de descanso e o espírito de sintonia?

A minha mana não me cobra nada. A minha mana é.

A minha mana sabe que este meu mau jeito com as palavras não faz justiça à dimensão dos meus sentimentos. Sinto-me grande ao pé da minha mana, porque ela me puxa para perto de si no topo da montanha onde habita perto dos deuses que me inspiram a procurar ser alguém um pouquinho melhor (que seja).



À minha mana Sara.
Fica descansada: vou conseguir deixar de ter medo de conseguir. Estou quase lá... são palavras como as tuas (meu Deus, como és hábil a utilizá-las, que inveja!) que me dão a força que preciso, nas alturas em que preciso, e em todas as outras em que me iludo de ser suficientemente forte para tomar conta da minha vida.