quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Espera um pouco apenas, morte

Espera um pouco apenas, morte. Espera só um pouco mais.
Não me leves deste mundo
Não me afastes dos mortais
Deixa-me acabar a obra
Ser quem sempre prometi
Ser um ser mais verdadeiro
Ser mentira só para ti
Dá-me só um tempo mais
Não apareças de surpresa
Nunca te roguei favores mas deixa que agora peça
Espera só um pouco mais
Não me leves despojado
Hoje nada sou mas sei que serei mais abastado

Depois leva-me contigo
Caminhemos lado a lado
Na viagem prometida
Que me tens sempre tentado
Não me sais do pensamento
Qual amor assolapado
És a miragem do meu tempo
Consumido e apaixonado

Ciganita

Dança comigo ciganita, deixa-me levar-te nos meus braços. Deixa-me embalar o teu olhar com o movimento do vento nas cearas. Quero sentir o cheiro da lenha queimada nos teus cabelos que mais parecem ninhos de rato feitos cinza. Com ele vêm as memórias daquelas madrugadas nos campos

não me perguntes porquê

dos dias em que acordei junto ao riacho de águas geladas

aquele riacho que procura a custo no Verão contornar os seixos no caminho.

Deixa-me sentir o teu porte, ciganita, contornar o teu corpo com os meus braços. Afagar os teus receios de seres vista ao meu lado, mãos sobre mãos, peito sobre peito. Quero senti-lo estremecer da ansiedade de quem desbrava novos trilhos em matas virgens. Quero ver nos teus olhos o poder das catanadas, fixando os meus até poderes ver a minha alma.
Quero rodopiar levando-te comigo enquanto levamos todos à nossa frente. Sentes os olhos das velhas trespassarem-te? Seguem a cadência dos nossos passos, tentam acompanhar o nosso ritmo e procuram perceber a dimensão da nossa cumplicidade. As mãos coladas fundem-se no calor da noite e elas procuram, agitando as cabeças como os mochos nas árvores, perceber se os nossos sorrisos escondem palavras por dizer. Mas as nossas bocas permanecem seladas enquanto a música ecoa pela praça e desviamos o olhar sempre que o sentimos tornar-se espelho das nossas pretensões.
Cheiras a fumo, ciganita. Deixas atrás de ti o odor primordial da pele e da carne feita gente de verdade. Sinto que se te lambesse o rosto levaria comigo o sabor da terra seca e do barro quebradiço. Adoro essas tuas bochechas rechonchudas

toda tu és rechonchuda

roliça descubro agora, pelo toque no teu corpo.

A noite é nossa, ciganita. Dança comigo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Amanhã, talvez

Quero que me vejas como sempre me mostrei, todo, transparente, indefeso.

Quero que continues a olhar para mim, a chamar pelo meu nome, a descobrir os segredos que encerro. Tu tens a chave para entrar dentro de mim e facilmente darás por eles dentro do baú das minhas divagações e memórias transformadas em palavras que se dizem.
Quero levar-te comigo para todo o lado, quero que queiras vir, trazer o teu sabor na minha boca, o teu cheiro nas minhas mãos, o teu olhar no meu sorriso.
Quero mostrar-te a amplitude dos meus pensamentos e a loucura que são os meus sonhos quando os tento traduzir. Sabes que tenho sempre a cabeça no ar e que não descanso enquanto não me achar maior que a vida, eu que tantas e tantas vezes me recolho no meu canto, encolhido perante a grandeza do mundo e o tamanho que tu tens. Sim, cresço de cada vez que respiro o teu ar, muda a imagem que vejo reflectida no espelho e sou cada vez mais quem me reconheço. Mas são muitas as vezes que me sinto pequeno, demasiado pequeno, acobardado pelo poder de ser maior.
Quero que saibas quem sou.
Não sou como as árvores grandiosas das florestas que assistem à distância ao efeito do vento nas ramagens, serenas perante as convulsões das intempéries. Não sou como os rios que seguem o leito esculpido entre os vales das montanhas, com rumo certo em direcção ao mar. Não sou como as noites quentes de Verão no Alentejo que deixam revelar o manto das estrelas no firmamento, escondido nas cidades pela luz dos candeeiros.

Sou a lágrima que vês escorrer do meu rosto quando as palavras não querem sair. Sou a doçura que fere como ferroadas, a ternura que desfere golpes baixos. Sou o sorriso da ironia desprendida, o esgar da sedução feita a medo de dar certo.
Sou um ser perdido nas coisas que sou, que me encontro a espaços quando decido enfrentar a escuridão que ocupa lugar entre as minhas contradições.

Quero que me vejas como sempre me mostrei, todo, transparente, indefeso.

Hoje sou uma pequena flor num jardim desarranjado, contando com o vento para que me desvie das pisadas que correrão comigo do mapa. Apenas conto com o vento, porque comigo não posso contar. Hoje não… amanhã, talvez.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Quintal

Pegou numa pedra que estava num jardim ladeado de prédios tristes por todos os lados, numa zona periférica da cidade. As veredas de arbustos podados serpenteavam por todo o comprimento e o chão era de gravilha miúda, poeirenta e ruidosa com o vagar das suas passadas curiosas. Havia por perto um parque com baloiços e escorregas e por isso ouvia a galhofa das crianças, e quase se podiam imaginar as correrias, os rostos transpirados e aquela ânsia de abraçar o Mundo num momento, que os miúdos têm quando se sentem felizes.
As pessoas na rua olharam para ele com curiosidade. Houve até um menina que ficou, literalmente, de boca aberta enquanto puxava pela manga do casaco da mãe, entretida a falar com uma amiga sem lhe prestar atenção.
A pedra era de facto de dimensões consideráveis. Era uma pedra como todas as outras as pedras, de formas indefinidas, lascada nalgumas partes da sua superfície pelo tempo e os elementos. Carregava-a com os braços deitados por terra, empurrando-a com o balançar da anca enquanto caminhava. O seu rosto estava carmim e a respiração ofegante, e de vez em quando sentia necessidade de parar para recuperar energias. Nessa altura pousava a pedra no chão encostada a uma parede e colocava-se à sua frente como que a protegendo dos olhares das gentes que passavam.

Passou cerca de meio dia pelos promontórios no alto de um mar que se agitava em reboliço lá bem em baixo, procurando ganhar espaço à massa sólida que se interpunha entre ele e o resto do mundo. Calcorreou com cuidado o piso escorregadio, colorido de verde limo, olhou para dentro de algumas poças que a chuva criou nas fendas dos pontões e espreitou para dentro das grutas improvisadas pelo tempo e os elementos.
Só passadas algumas horas encontrou a pedra, decorada de madeixas brancas que se esfumavam do centro para fora. Era uma pedra redonda, como quase todas as pedras que calhou se terem desprendido do promontório, e lisa como as unhas de uma criança. Apetecia quase afagá-la com a face e sentir o frio do vento norte nela impregnado com o aroma das marés.
Foi difícil fazer o caminho de volta até ao carro carregando a pedra nos braços. Era menor do que a primeira, mas mesmo assim sentia que muitas vezes o chão o queria trair e que o movimento da Terra acelerava de repente apenas para ver se ele mantinha o equilíbrio.

Chegou manhã cedo à floresta, ainda os primeiros raios de sol trespassavam os fetos e se fundiam com a neblina fazendo parecer que todo o ar estava invadido por espectros do outro mundo. As calças foram ficando molhadas à medida que ia passando por entre as veredas estreitas e se deixava mergulhar no orvalho. O ar estava frio naquele Outono que começava agora, finalmente, a provocar estragos nas árvores mais sensíveis. Sentiu-se por vezes observado pelas aves que pareciam seguí-lo com curiosidade, viajando de ramo em ramo até perceber o que faria ali aquele ser estranho. Houve pelo menos um corvo que garante tê-lo seguido durante todo o trajecto, ecoando o seu grasnar por entre as avenidas de pinheiros, as alamedas de begónias e as pracetas de jasmins.
Dessa vez não demorou muito tempo até encontrar a pedra. Ela lá estava, repousando em silêncio por debaixo de uma árvore, dissimulada pelas folhas amarelas que coloriam o chão por ali. Era a maior pedra de todas as que recolhera até agora. Estava forrada de musgo e alguns líquenes pequeninos emergiam apontando para o céu, parecendo querendo indicar a direcção das suas ambições mais desmedidas, eles que jamais seriam mais do que são, naquela rocha lapidada pelo tempo e os elementos.
O caminho de volta foi o mais difícil até então: teve se subir uma colina procurando agarrar-se ao chão por debaixo das folhas, que mais pareciam tapetes puxados sobre os seus pés. Perdeu-se até chegar à estrada, calcorreando em círculos pela floresta até se assustar e pensar não mais conseguir sair de dentro dela. Encontrou o corvo poisado num ramo e seguiu o seu esvoaçar até finalmente dar por si de volta ao sítio onde tudo começara nesse dia.

Subiu a uma montanha onde estivera anos atrás numa altura em que partilhou aquelas vistas com alguém que amou profundamente. O tempo apartou-o desse amor mas deixou ficar a memória dos momentos que mantiveram aquecido aquele lugar inóspito, de onde até o oxigénio fugia. Sobre as planícies cobertas de neve imaginou pairar a sombra dessa mulher como se fosse uma colina da montanha, estendendo-se pelo horizonte fora, espalhando com o seu abraço envolvente a ternura que sentiu tantas vezes na sua pele.
No alto da montanha as pedras eram difíceis de descobrir, escondidas por debaixo da neve e do gelo que por ali abundavam. Teve de deixar chegar o Sol do meio-dia para ver se se revelava uma pontinha de esperança. Com a ajuda das luvas ia raspando pacientemente os locais que lhe parecia ocultar relevos moldados pelo tempo e os elementos.
Não conseguiu descobrir nenhuma pedra à altura das suas pretensões, e por isso regressou no dia seguinte. O clima tinha sido compreensivo com ele e transformou em água grande parte do manto que cobria a montanha e as planícies lá em baixo. Sorriu ao imaginar que o abraço quente da mulher que amou profundamente poderia ter contribuído para esta alteração do cenário, à medida que estendia o seu aconchego acolhedor por entre os vales.
A tarefa não foi por isso mais fácil, pois os caminhos escondiam armadilhas mortais, a vegetação acalentava falsas esperanças e o ar rarefeito prendia os seus movimentos ao centro da Terra. Mas acabou o dia com a pedra na sua posse, de arestas pontiagudas como as setas dos homens primitivos e com a cor das casas das aldeias.


Nas traseiras da sua casa tinha um pequeno quintal.


Os muros em sua volta tinham sido reforçados fazia meses, e em vez do tradicional chão cuidado resolvera deixar a terra revolta forrar aquele espaço. Era uma terra castanho escura, de grãos grandes e húmidos que insistiam em colar-se uns aos outros em pequenos grânulos mesmo nos dias quentes de Verão.
Naquele espaço nada mais existia senão um pequeno banco de madeira encostado a um dos cantos, do lado onde ficava a casa.
As pedras que recolhera nas suas jornadas epopeicas estavam agora a ser cuidadosamente colocadas no centro do quintal, formando uma espécie de círculo disforme. Colocou-as em posição com o cuidado com que se afaga as coxas de uma mulher, e em todos os instantes tinha escarrapachado um sorriso glorioso no seu rosto iluminando-o para além da tez acinzentada dos dias sobre as luzes fluorescentes.
Finalmente estava pronto o seu santuário. Olhou mais uma vez para confirmar que o equilíbrio possível estava conseguido e pareceu-lhe, depois de mais uns pequenos ajustes, ter encontrado a melhor forma de as dispor.
Após essa confirmação resolveu sentar-se no banco e montar guarda, ficando embevecido a mirá-las como quem contempla uma obra de arte de um pintor consagrado.
Pensou em todos os dias da sua vida até aí que não iriam ficar para a história. Da maior parte nem lembrar-se deles era capaz, maldita a memória limitada que nos amputa os momentos que constroem o nosso ser como os tijolos que constroem os prédios. Dos que se recordava, tinha presente a noção de serem pouco mais do que iguais uns aos outros, sucedendo-se como capítulos de uma história de sentido insondável. Sempre receou deixar este Mundo sem deixar a sua marca, caminhando pela vida em busca de um significado que já sabia perdido à partida. Não tinha filhos e o seu coração estava cada vez mais empedernido com a amargura de amores idos, corroídos pelo tempo e os elementos. E passou tempo até descobrir que marca seria essa que perdurasse para além da sua frágil condição de ser, até decidir construir este santuário.
O destino tinha outro desígnio para as pedras que agora plantara no jardim. Haveria de as procurar dissolver, espalhar as suas grainhas pelos rios em direcção ao mares, fundi-las no calor da lava incandescente. Como um plano bem montado desde o início dos tempos, aquelas pedras teriam uma história condicionada apenas pelo rumo dos acontecimentos naturais, tão desprovidas de significado e utilidade eram.
Mas agora ele interferira no curso da natureza e atribuíra-lhes todo um novo sentido. Naquele lugar, protegido na medida das suas possibilidades, elas tornar-se-iam coisa viva, símbolo da crença de ser possível fazer acontecer, agir sobre as cordas das marionetas que são todas as coisas nas mãos de Deus.
Perdera a esperança no seu coração e sabia que se tornaria cada vez mais parecido com as pedras do seu quintal, à medida que os anos passassem por si. E por isso, todo o tempo que dispunha para além das rotinas dos dias iguais e sem história, deixava-se ficar sentado no quintal, no seu banco de madeira, contemplando o seu poder de fazer mudar o Mundo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Ambiguidade


Mesmo que gostes da imagem podes sempre ir para além do que os teus olhos vêem; mesmo que sintas o frio na pele podes sempre procurar encontrar o pulsar do sangue quente nas tuas veias; mesmo que sintas a humidade nos ossos podes sempre aquecer-te perante a magnificiência do que te esmaga de tão belo te parecer.
Podes encontrar o caminho do meio da ambivalência e da ambiguidade que te deixo, incapaz de explicar o que à primeira vista parece ser tão simples e linear. Podes fazê-lo se quiseres, contando apenas contigo e com o que vales. De mim apenas tens garantida a neblina que confunde os sentidos, que atordoa, que baralha e volta a dar, que não descortina a fachada das traseiras...