quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Calçadinha da Figueira


Estás aí?

Eu não sei o que dizer com medo de me arrepender.
Olho para a frente
Procuro ver algo,
Um beijo perdido algures
Uma carícia, um abraço, um afago.
Gostava de ser um sonhador
Partir para a terra do amor
Largar amarras e voar
E nunca mais voltar.
Para ser sincero, não sei se te mereço
Apenas sei que à noite não adormeço.
Estou sempre à espera que a lua traga luz
Sobre a minha estrada.
Talvez seja tarde,
Tanto faz!
Nem tenho a certeza de ser capaz
De te dar mais do que o meu silêncio
De te oferecer mais do que me dás.
Mas estás aí?
Queres vir até mim?
Então derruba os muros que tenho feito
E tira esta dor que há no meu peito

Momentos

Os meus silêncios perpetuam-se pela eternidade dos segundos custosos de passar, ecoam pela escuridão dos recantos húmidos das vielas malcheirosas, como bestas salivando frenéticas em busca de presas fáceis.
Os meus gritos cheiram a carne posta ao sol a secar, sabem ao sal das marés vivas empurrando as dunas terra adentro.
Sinto mais o bater do coração e em certas noites acordo com o ruído que emite e que faz vibrar toda a cama. Empurra-me para fora dela quando o Sol começa a raiar no céu e impele-me a desfazê-la no reboliço da paixão assolapada.
Nas axilas escorre-me mais emoção pelos poros, às vezes pinga como torrente descontrolada como o choro convulsivo das crianças esfomeadas. Toma forma, ganha cheiro, deve saber a qualquer coisa que não identifico mas que desejo classificar na taxonomia dos sentimentos.
Conto os minutos, conto todos os minutos, não para tentar perceber quantos faltam até ao fim da jornada, mas para saber que estão lá, que ainda estão lá, marcando o ritmo das minhas passadas, remetendo-me a todo o instante para a minha condição de ser comum, banal, que descobriu o gozo da descoberta, da intensidade, que se encontra viciado nos momentos, em vez de condescender à monotonia.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Nascer de novo, vezes sem conta, até morrer

Não dou um passo em falso
Não me atiro ao ar
Nos meus lábios não passam as coisas que eu quero contar


Não levanto a voz
Não me ouvem gritar
Tenho a garganta seca da dor que não pude chorar

Sou capaz de te encontrar numa estrada junto ao mar
Sou capaz de me perder
Passar a vida sem a ver
Incendiar o lume a arder
Bater a porta sem querer
E ver-me de novo a nascer

Não dou parte de fraco
Não me canso de mim
E ao ver o meu retrato engano-me mais do que a ti

Não jogo só pela sorte
Não deixo de tentar
Só lamento as derrotas que tive por não arriscar

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Paixão Verdade

Um aviso à navegação: o que aqui for escrito será relatado com a crueza dos factos, arrepiado da confabulação dos espíritos com a força de fórceps em forma de garra. Acabaram-se as meias-palavras e as meias-tintas, as sugestões dissimuladas e os sinais imperceptíveis para os cérebros conscientes do mundo em redor. Não farei apelo nem agravo a sensibilidades de vão de escada nem a flores de estufa. Quem aguentar o embate é convidado a seguir viagem, os outros são convidados a sair. As letras que se seguem podem ter o poder das balas nos tambores das pistolas num jogo de roleta russa viciado. Podem magoar quem jogar a medo, podem libertar quem estiver disposto a deitar tudo a perder perante a recompensa da revelação.

A verdade é que ela estava apaixonada. Apresentava todos os sinais típicos desse estado: a pele cada vez mais encostada aos ossos porque a comida não havia maneira de ser mais do que engolida; os olhos cada vez mais cobertos pelas olheiras das noites dormidas a correr; o rosto com mais borbulhas que procurava, em vão, solucionar com os cremes em catadupa; o sorriso mais fácil nos lábios perante o assombro das memórias das coisas simples.
Desta vez, como nas outras em que se apaixonou por outros homens (apesar de não se recordar disso agora), os seus pensamentos levavam-na recorrentemente até ele como numa viagem dentro de um beco sem saída. Sentia o seu corpo estremecer com o desejo do prazer já experimentado, numa expectativa que não via a hora de tornar real e por isso, quando a geografia os arredava, a sua memória conduzia-os até próximo um do outro. Fechava os olhos para sentir por debaixo de si as pregas do lençol enrugado e o peso dele por cima dela a funcionar como um cilindro daqueles que pavimentam as estradas, andando para cima e para baixo como que tentando fazer desaparecer os vincos das noites idas. Nas suas memórias habitavam os dedos dele, que por vezes percorriam o seu corpo com a doçura dos dentes-de-leão cortejando a sua pele, e outras irrompiam pelas suas entranhas com a violência dos martelos pneumáticos e quase a dividiam em dois.

A outra verdade é que também ele estava apaixonado. Apresentava todos os sinais típicos desse estado: a falta de pachorra para as coisas comezinhas da vida e para os zumbidos ocos das cabeças ocas; os impulsos electrizantes que percorriam o seu corpo para cima e para baixo e faziam brotar da sua cabeça, como molas saltitantes, ideias novas para mudar de vez o mundo; os silêncios cheios de ruídos abafados e as berrarias cheias de gritos mudos; os olhares vagos perscrutando o horizonte em busca de novas paragens que mesmo distantes, pareciam estar ali à mão de semear.
Desta vez, como nas outras em que se apaixonou por outras mulheres (apesar de não se recordar disso agora), todos os seus sentidos pareciam focados num ponto como um farol que iluminasse sempre em frente, fazendo encalhar na costa todos os navios que dela se aproximem. Sentia o cheiro dela visitá-lo nos momentos mais inusitados e quando não estava ninguém por perto, e por isso tinha a certeza de se tratar de um cheiro sobrenatural, não conspurcado pelos odores das gentes que passavam amiúde. Sentia-o em casa, dias depois da sua última visita, sentia-o nas roupas que deixava espalhadas pelo chão durante dias para fazer prolongar o momento em que revelavam os seus corpos um ao outro. Fechava os olhos para sentir na boca o pó discreto da sua maquilhagem ou a gordura dos cremes que ela espalhava pelo corpo, de manhã em frente ao espelho, e que se colavam aos seus lábios por todo o santo dia. Na sua memória habitavam os gritos dela e o peito em rubor, enquanto se contorcia e ofegava, levada para outras paragens bem distantes dali, conduzida pela cadência imposta pelos seus dedos curiosos, pela sua língua gulosa ou pelo seu sexo com vida própria.

A verdade é que ela receava que ele não voltasse a estar com ela. Animava-a saber que podiam tirar dela tudo menos as memórias das noites a escaldar, das músicas escutadas na penumbra, das conversas reveladoras de um ser que descobria despontar dentro de si própria. Mas sabia que para além da cúpula dourada que os protegia e resguardava do mundo lá fora, havia a vida que os puxava para longe um do outro, as âncoras que mandavam para trás das costas sempre que estavam juntos mas que continuavam lá apesar de tudo, arrastando com eles o espectro das sombras das profundezas. Ela prendia-se pela surpresa que ele despertava nela, a curiosidade insaciável de encontrar as explicações para as incongruências, a tentativa de descortinar como é que nele os preconceitos deixavam de fazer sentido. E prendia-a a descoberta do seu próprio corpo, e o desejo de perceber o porquê daquela sensação permanente de desfloração de cada vez que ele entrava dentro dela.

A verdade é que ele receava que ela não voltasse a estar com ele. Animava-o saber que podiam tirar dele tudo menos as memórias das noites em que vagueara pelas ruas com o copo numa das mãos e o peito junto da outra, das ideias alucinadas que ficavam gravadas em baixo relevo na sua alma, das conversas reveladoras de um ser que descobria despontar dentro de si próprio. Mas sabia que para além dos muros que erguiam para se protegerem dos olhares alheios, havia a vida que os puxava para longe um do outro, como se a atracção que os juntava apenas servisse para queimar as suas asas como acontece às borboletas iludidas pela luminescência traiçoeira das lâmpadas incandescentes. Ele prendia-se à descoberta do seu próprio ser, à essência que descobria na altura ter perdido fazia tempo. E prendia-o o vicio galopante de se dar a conhecer e a usar, em benefício de um ser que seria alimentado por ele mesmo que à força de ver ser metido pela boca abaixo os nutrientes.

A verdade é que ela sabia que a paixão é um estado transitório e esta paixão tinha os dias contados. Ela apenas desejava a paixão e isso, inexplicavelmente, não seria o suficiente para a manter eternamente. Não queria saber do futuro para além daquele que via a um palmo de distância nem das amarras que para o comum dos mortais representam o conforto do expectável. Não queria nada mais do que a hipótese de sentir que a vida valia a pena ser vivida, um dia de cada vez, enquanto durassem aqueles dias, pelo menos. Não queria nada mais do que sorver daquela tesão e descobrir as doses maciças de fluidos que o seu corpo conseguia emanar. Não queria nada mais do que o que tinha de cada vez que estava com ele, arredados do mundo em símbolo e significado.

A verdade é que ele sabia que a paixão é um estado transitório e esta paixão tinha os dias contados. Ele apenas desejava a paixão e isso, inexplicavelmente, não seria o suficiente para a manter eternamente. Não queria saber dos quadrados em que toda a gente costuma arrumar as suas vidas e as suas relações com os outros. Não queria nada mais do que as cicatrizes que já envergava como se os sentimentos despoletados tivessem ficado gravados a ferro quente na sua pele. Não queria mais do que a possibilidade de evocar o seu cheiro assombroso e deixar-se inspirar por ele para pintar a sua vida de cores garridas nos dias mais cinzentos. Não queria mais do que a vertigem dos acontecimentos fracturantes e sentir que o seu passado abanava na amplitude 9 da escala de Richter . Não queria nada mais do que a capacidade de recriar a seu belo prazer a intensidade que sentia de cada vez que estavam juntos, arredados do mundo em símbolo e significado.

A verdade é que ela sabia que ocupava o espaço deixado por outras. Sabia que ele não o via dessa maneira, mas a sofreguidão da forma como estavam juntos, era só mais uma sofreguidão a juntar-se ao rol de sofreguidões que tinham sido as relações dele até aí. Sabia que vistas bem as coisas ela tornara-se subtilmente num objecto que ele engolira como uma amiba, envolvendo-a dentro de si para subtrair dela tudo o que houvesse para tirar, até a converter num eco ou numa imagem idealizada apenas, por não ter querido ser mais exigente.

A verdade é que ele sabia que ocupava o espaço deixado por outros. Sabia que ela não o via dessa maneira, mas a extravagância da forma como estavam juntos era só mais uma extravagância a juntar-se ao rol de extravagâncias que tinham sido as relações dela até aí. Sabia que vistas bem as coisas ele tornara-se subtilmente em mais um fardo para ela carregar nos ombros, em mais uma lamúria futura quando ela se desse conta da culpa de não ter querido ser mais exigente.

A verdade é que tudo isto não era importante perante a inconsciência e o devaneio, a ilusão e a loucura, o desejo e a gritaria.

A verdade é que tudo isto era importante perante a consciência e o despertar, a ausência e a distância, a frieza e o silêncio.

A verdade é que não conseguimos ver mais do que os olhos nos dizem ou perceber para além das ideias condicionadas pelos paradigmas que dão forma aos nossos seres. Mas se conseguíssemos ver mais além, se tivéssemos a coragem de confrontar a verdade e deixarmo-nos cegar pelo seu brilho resplandecente, perceberíamos que nas paixões que vão e vêm, nada muda que não o objecto que faz despoletar a erupção. A verdade é que apenas nos apaixonamos por nós próprios. Os outros por quem pensamos estar apaixonados apenas actuam como os catalizadores das reacções químicas que nos vergam sobre nós mesmos. A verdade é que os outros, os objectos, são os espelhos nos quais queremos ver a nossa imagem reflectida. A verdade é que isso faz de nós utilizadores e utilitários uns dos outros, numa visão pouco romanceada da vida no sentido mais prosaico do tema.

A verdade é que o esclarecimento que ela e ele, por vezes, sentiam ter atingido, nada mais era do que uma ilusão a somar ao conjunto de todas as outras que pautavam as suas vidas. Enquanto pensavam estar a dar de beber um ao outro, apenas geravam a água suficiente para se afogarem. Mas até verem o fôlego desaparecer de vez, ocupariam por momentos o lugar de Poseidon, tridente em riste, comandando as ondas e as correntes, as tempestades marinhas e costeiras, originando nascentes e barragens naturais. Depois se havia de ver, quando o espelho ficasse mirrado de tanto ser usado, baço pelos seus bafos cada vez mais próximos porque a vista fica progressivamente mais curta.
A água de que se bebe nas paixões não é inodora, nem incolor nem insípida. Vicia como um liquido vindo dos infernos, o elixir que apazigua as labaredas dos condenados. E por isso não conseguimos deixar de beber, mesmo quando as taças estão cheias e as panças a deitar por fora. Procuramos novas cores, novos sabores, novos aromas, porque achamos sempre que ainda temos mais para conhecer sobre nós próprios, mais para nos deslumbrarmos com o “maravilhoso mundo do eu”.

A verdade é que ela e ele estarão juntos enquanto durar o encantamento que cada um despertou em si próprio. E a verdade é que isso já não é nada mau.