segunda-feira, 22 de outubro de 2007

À saída do Templo


Histórias

Porque consomes tantas energias em tentar esquecer as histórias que durante tanto tempo lutaste por manter vivas, como se a tua vida delas dependesse? Vale a pena fingir que nada se passou e que a história que nos une não irá existir para sempre?

A virtude das histórias é que não deixam de existir uma vez contadas. Podemos tentar esquecê-las, mas as histórias perduram para sempre. Não são como as palavras, gravadas na esperança da posteridade; mas também não são como os sentimentos, tristes ilusões de eternidades fugazes.

As histórias têm pH neutro, são inconsequentes. Não há histórias boas ou más: são como as estradas, com rectas e curvas, com lombas e superfícies planas e muitas delas não dão a sítio nenhum.
Apenas existem num mapa de inconsciente colectivo que se actualiza com os acidentes de percurso que acontecem quando esbarramos uns nos outros nas curvas não sinalizadas.

As histórias não têm de ser tristes, mesmo quando não acabam bem.
Triste é não sentir com emoção todos os capítulos e esquecermo-nos que somos nós os protagonistas. A vida é uma história na qual não há artistas secundários.

As histórias não são boas apenas porque acabam bem.
Só a ideia é um contra-senso. Como sobrevive a noção de bem se a história se acaba?

As histórias são o que são, e sucedem-se como capítulos de uma novela que não acaba. Somos todos contadores das histórias uns dos outros, todos actuamos numa orquestra de histórias sincronizadas, uma míriade de maestros iludidos com a ideia de conduzir todos os outros.

Por isso não te esqueças da nossa história.
Não te queiras esquecer de ti.
Não vale a pena.
Acredita que sei do que falo.

Muros

Estão a construir muros à minha volta, os malvados, que me querem tapar as vistas para o outro lado, aquele lado que olho de soslaio pelo canto do olho como que o seduzindo. Levantam os muros para se debruçarem lá do alto e para poderem espreitar para dentro do meu território, procurando ver mais do que estou disposto a mostrar.
Procuro ser transparente quanto posso, cingido pela rigidez da minha flexibilidade que verga até ao ponto em que quase se parte em pedaços. Procuro oferecer apontamentos, notas soltas, retratos fugazes das coisas que me compõem, mesmo sabendo que quase ninguém tem grande interesse em as receber. Mas estão a construir muros à minha volta, procuram subtrair-me de coisas que não estou disposto a oferecer e por isso vou ter de partir. Não com medo que me prendam cá dentro, estive preso já várias vezes e mesmo que seja pelo buraco da agulha sempre consegui desenrascar-me. Mas estes muros apenas servem para que me espiolhem para lá dos limites que imponho até quando me quero espiolhar a mim próprio, nas alturas em que fujo em frente e não olho para o rasto que deixo ao passar.
As minhas janelas estão a descoberto, deixam ver cá para dentro e mesmo sem estarem dependurados nos muros, com algum esforço podem ver o meu perfil movimentando-se na penumbra. Mal o meu. Vou mudar as janelas de sítio porque não as quero tapar para que a luz nunca me falte, e gosto de ver a humidade formar-se nos vidros e solidificar-se até se instalar uma névoa permanente lá fora.
Mas para as deixar assim tenho de as mudar de sítio.
Vou voltá-las para as planícies a perder de vista, amarelecidas pelo trigo que balouça ao sabor do vento norte, ondulando como os cabelos das mulheres. Vou imaginar-me a correr lá fora sempre que encarar os campos rasos de frente, sentido as espigas roçarem-me na pele. Vou esbugalhar os olhos de espanto com a proximidade dos raios enquanto o meu corpo estremecer com a violência dos trovões, soando como paradas de bombos em ruas estreitas de granito. Vou deixar entrar o luar pela minha casa dentro e banhar-me nu no seu véu, deitado no chão de ladrilho que me arrepia a pele.
Sou aquilo que se vê da minha janela. Esta já tem os horizontes mais próximos da minha mão, como sempre aconteceu com todas as janelas que já tive. E quero os horizontes no seu sítio, longe de mim. No início eram os prados que se avistavam como tapetes bordados de infinito. Depois apareceram os muros, como sempre aparecem.
Deixá-lo.
Serei sempre mais forte do que os que se aboleiram nos muros para viver a vida dos outros em vez das suas, pobres coitados que nunca procuram as suas planícies a perder de vista. Vou deixá-los pendurados lá em cima, a olhar para coisa nenhuma.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Olhares

Estou sempre a procurar o teu olhar mesmo quando sei ser inoportuno porque descobri que o teu olhar funciona como um espelho daqueles de que me recordo quando era criança e ia às feiras àquelas casas de espelhos retorcidos que devolviam a minha imagem com formas divertidas e às vezes monstruosas e que me faziam rir e pensar que nunca iria conseguir olhar para mim da maneira como os outros me vêem, se calhar podia ser até assim que me vissem, não é que me preocupasse muito isso porque para olhar para mim bastei eu tantas e tantas vezes quando sentia que passava transparente pelas ruas e pelas pessoas com quem tentava cruzar o olhar da mesma maneira que agora procuro fazer contigo, mas se calhar estou enganado e afinal sempre me preocupei com isso, apenas disfarço numa humildade irritante que de hipócrita tem muito pouco e que por essa razão mais irritante se torna, mas quando penso bem nisso concluo que tenho procurado muitas vezes perceber se olham para mim mais do que perceber o que vêem afinal e isso faz com que ainda hoje não conheça bem as formas que definem o meu ser por dentro e por fora e depois não te esqueças que estou mais perto das nuvens os meus olhos estão mais perto das nuvens e eu estou muitas vezes nas nuvens e por isso tenho quase a certeza que me escaparam muitos olhares virados na minha direcção, sim, só pode ser, mas isso não interessa nada agora porque o espelho retorcido encontrei-o nos teus olhos que me parecem ser de mar revolto quando não apontam para mim mas de mar sereno quando me miram, agitados nas profundezas por um turbilhão viciante que faz com que os nossos olhares se continuem a cruzar constantemente mesmo quando é inoportuno.

Não me interessam os hipotéticos espelhos de que não dei conta ao longo das minhas caminhadas pelas ruas cheias de gente que tantas vezes me pareceram desertas se agora antes tarde do que nunca vejo reflectido nos teus olhos quem sou, não sei se é quem sou, mas gosto do que vejo da imagem que me faz rir mesmo que seja uma imagem retorcida como as que via nas feiras a que ia quando era criança, a imagem que pode ser falsa aos olhos de todos os outros que por quererem ou não lá cruzam os seus olhares com o meu, mas que é verdadeira é, sei que é verdadeira enquanto dura o relance em que os nossos olhos se cruzam e o teu mar revolto se confronta com o meu rio em maré alta desaguando violentamente no teu seio salpicando de ternura e tesão o espaço que existe entre os nossos olhos.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Predador de emoções

Não te deixes enganar se vires gente à minha volta
E se me vires agitar a bandeira da revolta.
Não sou como tu me vês, e talvez não como me vejo
Estou na idade dos porquês, no principio do desejo.

Não te queiras iludir com a imagem que projecto,
Não sou mais do que uma sombra, a miragem no deserto,
Não sou o pontão que afasta a força das marés
Sou a porta que se abre e se fecha a pontapés.

Sou um predador de emoções
Que se perde em convicções
Sou um ser estranho, uma obra de arte
Desenquadrado, neste cenário feito à parte
Sou um predador de emoções

Não procures entender o que não é perceptível
Vou perdendo a habilidade de me tornar infalível.
Não venhas atrás de mim, sou um mero prisioneiro
Um modesto egoísta a enganar o mundo inteiro.
Não quero ser o herói de almanaques de outras eras,
Não quero matar os vilões nem salvar as donzelas
Quero ficar transparente, ser de carne a deitar cheiro
Quero ser ser imperfeito, ser um erro verdadeiro,

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

No banco do jardim


Prego

Dei pelo prego quando caminhava em direcção à beira-mar. Estava deitado sobre a areia como uma bússola apontando o norte e pensei que poderia magoar alguém, mesmo não estando com o bico voltado para cima.
Fitei-o por momentos e depois pus-me de cócoras para ver melhor o seu recorte. Olhei em todas as direcções para ver se alguém se tinha apercebido que estava atento a algo, àquela espécie de tesouro rasca que tinha desenterrado da areia da praia.
Ninguém parecia interessado na minha descoberta. Mais acima, quase coberta pela sombra da falésia que delimitava toda aquela extensão de areia, a minha mãe continuava entretida a ler as suas revistas e jornais. Por momentos tive pena dela quando percebi que se debatia contra o vento, tentado domar as folhas do jornal que teimavam em fugir ao seu controlo. Ela, contudo, mantinha-se calma, procurando vincar as páginas para reforçar a sua resistência à aragem marítima.
A minha irmã brincava perto dela com os baldes e os ancinhos de plástico que tinham sido comprados meses antes, nas férias de Verão. Era divertido vê-la naquelas andanças trémulas de quem tem um milhão de coisas para fazer enquanto o tempo dura, inebriada pela praia que para ela devia ser como uma extensão particular de um mundo que só agora começava a descobrir. Volta e meia assentava o rabo no chão, pois as pernas ainda arqueadas e rechonchudas não lhe serviam de muito neste piso irregular. Pouco se ralava com isso, achando natural estar constantemente a cair, ela que tantas vezes parecia ficar com o orgulho ferido sempre que tombava lá em casa ou na rua. Aqui os buracos no chão pareciam dar-lhe a desculpa que necessitava para conseguir viver bem com a frustração, com a noção das suas limitações motoras.
Estava um dia quente como já não me lembrava de estar nos últimos tempos. O Verão afinal parecia não querer ir embora preferindo em vez disso continuar a fustigar a minha pele seca. Ainda mantinha as marcas da temporada que passámos, dois meses antes, nas férias em que fui com a minha mãe e a minha irmã para uma casa alugada junto à praia. Ainda se notava claramente a marca do fato de banho e os pêlos das minhas pernas e braços mantinham um tom dourado que apenas adquiriam nesta altura do ano. Estava com um ar sadio, sentia-me cheio de energia e sabia-me bem voltar novamente à praia para poder dar os pinotes que entendesse. Pena era que a água estivesse fria, bem mais fria do que a do local onde passámos férias, e por isso não ficava tanto tempo a tomar banho, apesar de me saber bem refrescar o corpo transpirado pela correria.
O prego estava um pouco enferrujado. Devia estar por ali há algum tempo, corroído pela humidade das marés até ganhar um tom acastanhado que se desfez em pequenas partículas quando o peguei na minha mão.
Pensei no que faria um prego daqueles por ali, que histórias teria para contar se pudesse dizer algo. Era um senhor prego, não daqueles que estava habituado a ver lá por casa dentro da caixa de ferramentas vermelha que o meu pai deixou ficar num arrumo por debaixo do fogão. Este era um prego grande que daria para ser usado por qualquer carpinteiro que quisesse construir uma peça de mobiliário robusta. Não percebi como foi ali parar, mas só poderia ter sido deixado por alguém. Um prego daqueles não se deixa levar pelas ondas do mar como as garrafas de plástico ou os pedaços de madeira que, a espaços, vislumbrava pelo areal. Mas também não percebia porque razão alguém teria levado um prego daqueles até ali.
A singularidade da descoberta fez com que aquele momento tivesse uma dimensão que vivi com solenidade. A minha irmã bem que se podia admirar com as conchas da praia, as suas formas curiosas e tons desbotados, mas esses eram elementos naturais daquele habitat. Para mim, aquele prego suscitou um fascínio bem mais justificado, pois era um elemento estranho àquele cenário, uma peça à qual deveriam certamente estar associadas histórias interessantes e, além disso, tinha aquela dimensão de perigo que um rapaz da minha idade procura a toda a hora, procurando testar os limites da sua coragem, agora que os do corpo já passavam a ser território conhecido.
Voltei a olhar em direcção à minha mãe. Continuava deitada com a barriga voltada para cima, mas parecia ter desistido do jornal. A revista que agora usava para ler e tapar o Sol que lhe apontava de chapa sobre a cara era bastante mais dócil. Ao lado dela, a minha irmã continuava atarefadíssima nas suas deambulações imperceptíveis e afazeres rocambolescos. De resto, apenas algumas pessoas estavam na praia e bastante afastadas umas das outras em comparação com o que tinha testemunhado nas férias de Verão. Se calhar poucos foram os que acreditaram que este fim-de-semana de Outubro pudesse estar tão quente, e à prudência, escolheram outros destinos menos arriscados.
Dei alguns passos em direcção a lado nenhum e pelo caminho fui procurando sentir o peso do prego, fazendo-o dar pequenos saltos na palma da minha mão, que ia ganhando progressivamente uns tons cada vez mais acastanhados. Num desses movimentos escapou-se por entre os dedos e caiu a meus pés, fazendo-me recuar para que não me furasse. Ficou cravado na areia como uma haste sem bandeira.
Peguei nele novamente, e fiquei a admirá-lo como quem diz “sim, senhor, aqui o sr. prego ainda está para as curvas!”.
Lancei-o ao ar, sobre a minha cabeça, não com muita força, mas a suficiente para que desse umas quantas piruetas até cair na areia, novamente. Desta vez não consegui que ficasse espetado no chão e por isso, voltei a tentar. Fi-lo mais uma vez, e outra, e outra, até que finalmente ele ficou direito, como se estivesse a pregar a areia àquela praia.
Senti o meu corpo exultar e dei um salto descoordenado, enquanto os meus braços se agitaram como os de uma marioneta com os fios embaraçados.
A minha mãe mexeu-se para tirar um cigarro da mala. Não sei se olhou para mim mas pareceu-me que não, segura que estava que naquela praia quase deserta o pior que me poderia acontecer era morrer de tédio.
Voltei a pegar no prego e desta vez atirei-o com mais força para o ar. Ele voou bem por cima da minha cabeça, deu mais piruetas do que as que consegui contar, e voltou a cair sem ficar espetado na areia como pretendia. Isso só fez com que desejasse continuar a tentar. Deveria haver alguma técnica que me tornasse exímio na arte de atirar o prego ao ar. Talvez devesse fazer um movimento do pulso mais brusco e manter o meu braço quase imóvel. Ou então era o braço que se devia agitar, apesar de me parecer que assim, o prego voava mais para trás e menos para cima, o que prejudicava a sua trajectória. Tentei ainda perceber como o colocar entre os dedos: se preso entre o polegar e o indicador ou se deveria meter o dedo médio ao barulho.
Escusado será dizer que fiquei bastante tempo nestas andanças, testando as diferentes possibilidades de arremesso. O prego voava cada vez mais alto sobre a minha cabeça e os casos de sucesso que aconteciam amiúde faziam-me ganhar mais confiança para o fazer voar mais alto.
Ia olhando para a minha mãe de vez em quando. Sabia que se percebesse que me estava a divertir com um prego, a brincadeira iria ficar por ali. Mas talvez, àquela distância, mesmo que olhasse para mim, não perceberia que era de um prego que se tratava, pensando que talvez tivesse pegado num daqueles paus em forma de farpa que havia em abundância pela praia.
Numa dessas vezes em que me voltei em direcção à falésia, reparei num homem que estava sentado numa cadeira de praia, não muito longe dela, e que me parecia fitar por detrás dos seus óculos escuros. Não percebi como ali teria ido parar pois estava certo de que ninguém ocupara aquele lugar da última vez que olhei, o que acontecia com maior frequência desde que comecei a atirar o prego em direcção às nuvens.
Ele mantinha uma posição fixa, imóvel, com o rosto virado na minha direcção. Tinha um sorriso forçado, como quem procura dar ao mundo sinal de vida enquanto conduz a cabeça para locais distantes. Era um homem elegante, não tão gordo como o meu pai, e tinha uma pele demasiado branca para aquele Sol de Outubro. A cadeira de praia era daquelas de pano, com padrões florais em tons de verde-escuro.
Senti que o fitei durante mais tempo do que o normalmente levo a fitar outras pessoas, enquanto procurava organizar as ideias e perceber como é que ele ali tinha chegado. Durante esse período ele manteve o mesmo sorriso congelado que apontava na minha direcção.
Atirei novamente o prego, bem alto até onde a minha força conseguia. Quando caiu espetou a areia bem fundo e voltei a sentir o júbilo do objectivo atingido. Enquanto o meu corpo dava mostras do entusiasmo, voltei a procurar o homem, não fosse ele ter desaparecido tão subtilmente como chegara. Mantinha-se na cadeira de praia, imóvel, e imaginava que por detrás das lentes escuras os seus olhos me observavam atentamente. Devia estar impressionado com a minha capacidade para atirar o prego assim tão alto. Voltei a fazê-lo várias vezes e agora mais frequentemente ele ficava enterrado no chão. Entre cada lançamento sentia que dava pequenos saltinhos como se estivesse a atravessar um lago de nenúfares e eles pudessem suportar o peso do meu corpo ligeiro e ágil. E de cada vez que o prego ficava cravado como uma estaca de alguns centímetros, o meu entusiasmo era mais exuberante.
Olhava para o homem mais insistentemente e percebi que a ideia de ter assistência fazia com que procurasse esmerar mais o meu desempenho e tornar mais entusiastas as minhas celebrações. A experiência da descoberta daquele tesouro rasca tinha-se transformado numa prova de perícia e agora transformara-se novamente, numa exibição pavoneante de um artista na arte do arremesso.
Durante todo aquele tempo o homem deixou-se estar, concerteza fascinado com a minha performance. Pela minha parte, assolou-me uma sensação estranha de deja vu, uma ideia que foi ganhando forma na minha cabeça. Quando dei por ela por inteiro quase me esqueci de desviar do prego que caía aos trambolhões e por pouco me acertava na cabeça. Desviei-me no último momento mas não deixei de fitar o horizonte para onde os meus olhos me tinham levado, assoberbado com a ideia que me invadia nesse instante. Parecia-me uma ideia febril, talvez resultante do Sol intenso que me aquecia até aos ossos. Não sei. O que é certo é que comecei a achar que já tinha visto aquele homem noutras alturas.
De início não me lembrei de quais e essa dúvida fez permanecer a fantasia no meu espírito. Mas com mais umas quantas piruetas do prego, a lembrança dos momentos transformou o mito em realidade, a ideação febril em algo que conseguia visualizar na minha cabeça sem o espectro da dúvida.
Aquele homem já tinha estado perto de mim, a observar-me atentamente como daquela vez. Sempre que isso aconteceu não dei por ter aparecido tão de mansinho. Talvez erradamente tivesse concluído que já lá estava quando cruzámos os nossos olhares. Mas o que é certo é que poderia ter-se materializado de todas essas vezes, vindo do nada, como acontecera desta.
Lembrava-me dele uma vez em que estava no pátio da minha escola e jogava à bola com os meus colegas da turma. Estava um dia bonito como este e aproveitávamos o pouco tempo que durava o intervalo para nos imaginarmos num estádio relvado sobre as luzes dos holofotes, emocionados com os cânticos de milhares de pessoas que nos idolatravam.
Noutra ocasião, pareceu-me vê-lo no fundo do teatro onde tínhamos estado no Natal a representar uma peça ridícula para os nossos pais, uma coisa tipicamente de miúdos… Senti aquele olhar penetrante e aquele sorriso congelado, ainda que com esforço, pois ele ocupava um lugar na penumbra das últimas filas.
Lembrava-me ainda dele por detrás de uma janela, lá na nossa rua, enquanto brincava com os rufias do bairro a perseguições policiais, munidos com as nossas pistolas de fingir.
Era ele, neste momento não tinha qualquer dúvida. O homem do sorriso congelado e dos óculos escuros que não conseguiam esconder a atenção que os seus olhos me davam. Era ele que aparecia nos locais mais diversos, apesar de não estar sempre a aparecer. Alguma coisa devia condicionar a sua materialização mas até àquela altura ainda não me tinha apercebido do quê. Poderia haver um denominador comum a todas as ocasiões em que me deparei com ele, mas isso escapava-me agora, difusa que era a noção das vezes em que o vira como uma imagem em contra luz.
Continuei a atirar o prego para o ar, bem por cima da minha cabeça, com toda a força que o meu braço dormente conseguia. De todas as vezes, conseguisse ou não fazer com que se estancasse na areia, confirmava a atenção que aquele homem misterioso me concedia.
A minha mãe, já quase sob a sombra da falésia, levantou-se para acender um cigarro e percebi que me vira naquela excitação desenfreada. Deve ter desconfiado de algo, talvez da consistência do que atirava ao ar (os paus espalhados pela praia não tinham a densidade necessária para um voo tão perfeito) e chamou-me para perto de si.
Quando olhei para o local em que o homem estava, dei conta de que tinha desaparecido. Tão subtilmente quanto tomara forma, esfumara-se agora por entre as ondas de calor que faziam emanar vapores na areia, mais ao fundo.Dirigi-me para o local em que a minha mãe estava, agora sentada, esperando por mim. Estava cansado da correria e sentia que o braço se queria despegar do resto do meu corpo. Levava comigo o prego, sabendo que corria o risco de ouvir das boas da minha mãe. Quando cheguei perto dela, apenas me disse para pôr o chapéu na cabeça e para ter cuidado com o Sol. Aproveitei e coloquei o prego dentro do meu saco, que tinha umas quantas revistas de banda desenhada e a bola de praia. Podia ser que ainda me fosse útil, noutra altura, em que pudesse evocar a presença daquele homem de sorriso congelado e olhar penetrante por detrás dos óculos escuros. Apesar de ser estranha a forma como sentia a sua presença, sempre a vi como reconfortante e sabia que certamente iria gostar de o voltar a ver. Ou gostar que ele me voltasse a ver a mim…

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Limbo

Já sei o que me faz aparecer esta ruga na testa sem a franzir como quem olha de frente para o Sol. Já sei o que me faz ter este ar carregado, os vincos marcados no rosto, a pele cinzenta e os olhos papudos. Sei o que me tira o sono nas madrugadas e me faz desejar que as noites não terminem, nunca mais. Descobri porque é que a minha paciência se esgota mais frequentemente e de cada vez que acontece, mais velozmente me assola a vontade de mandar às urtigas quem me desvia com a perversidade do seu pensamento viciado. Sinto que o ar que outrora usava para respirar agora me sufoca de cada vez que se altera, ainda que ligeiramente, a pressão atmosférica. Sinto mais próxima, incomodamente mais próxima, a respiração dos outros quando com os seus bafos malcheirosos sussurram aos meus ouvidos as suas ladaínhas insuportáveis de aturar, conversas ocas que entretanto deixaram de fazer sentido às partes do meu cérebro que as processavam com agilidade, antigamente.

É o limbo, a fronteira, a passagem adiada para outro lado, qualquer lado, a fuga para a frente que não acontece, condenada por esta tremideira idiota de quem quer caminhar em frente sem tirar os olhos do retrovisor, a anestesia que não afecta os sentimentos mas condiciona as acções, o torpor da indecisão quando se descobre no íntimo que a solução passa por mudar o rumo e se não tem a coragem para o fazer, a dormência dos movimentos quando o corpo deixa de responder às ordens da cabeça, a paralisia do medo que nos assola quando finalmente chega a coragem de enfrentar quem somos realmente, a vertigem de encararmos o campo raso e imenso à nossa frente e a sensação de estarmos perdidos por terem desaparecido todas as referências, aquelas que até então têm sido as responsáveis pelo curso dos acontecimentos.


Não estou amargurado porque me alenta o prazer da descoberta de mim próprio.
Não estou ansioso porque sei que como sempre aconteceu, hei-de conseguir voltar a arriscar tudo o que hoje dou como certo.
Não estou feliz porque já perdi as ilusões de desejar mais do que momentos breves que fiquem para a história

Estou no limbo.