quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Click


4

Não consigo deixar de lamber os dedos com a sofreguidão de um guloso insaciável. Ainda sinto o teu cheiro no ar rarefeito do quarto, rarefeito porque quero prender esse aroma entre as 4 paredes, prisioneiro e refém da minha vontade de prolongar o momento para além da hora em que partiste. Estava capaz de perder um sentido qualquer dos outros 4 para que pudesse apurar ainda mais o olfacto. Com ele consigo sentir a tua presença, agora que os meus ouvidos não te ouvem, que os meus olhos não te vêem, que os meus dedos não te tocam nem a minha boca te sente.
Passámos para uma outra qualquer dimensão, diferente da que viemos, e continuo sem saber se isso é bom. Que se foda! Que se danem os sentimentos nem que apenas por fugazes momentos. Enquanto deixo a razão vazar pelo ralo da consciência e dou cabo da engrenagem em que me montei, testo-me para ver se consigo ser mais coração, ver se aguento. Para já estou de 4, para não cair, eu que sempre procurei ficar de pé. Mas não sou como as árvores apesar de ter procurado sempre ser recto; não sou como as árvores apesar do tempo que dediquei a fazer-me crescer, à força de poder ser derrubado pela ventania; não sou como as árvores porque as minhas raízes não estão presas ao solo mas sim na minha cabeça, eu que sempre achei que não as tinha de todo.

Não quero que te sustentes nas minhas palavras, não quero que as vejas como os pilares a partir dos quais podes construir o teu novo edifício, pois talvez sejam apenas palavras frágeis como as 4 pernas da cama onde brincamos com o fogo. Repara como também elas abanam e chiam com a violência da ilusão de perenidade. Bem, talvez as minhas palavras não sejam assim tão frágeis e possam perdurar na tua memória pelo menos o tempo que o teu cheiro perdura entre as 4 paredes do meu quarto. Mas não posso dizer o mesmo sobre o que sou, que é diferente do que escrevo. Sou um turbilhão de razões que esgrimo com a dificuldade de um maneta, enquanto assisto à sua passagem pelo ralo. Sou alguém que se parece encontrar na medida em que se sente perdido, como se o meu destino fosse vaguear pelo deserto só pelo prazer de andar em direcção ao horizonte. Percebes porque sou perigoso?

Nas folhas de papel os registos podem durar uma eternidade, mas na dimensão para a qual passámos o tempo e o espaço confundem-se a toda a hora. Porém, esse é também o nosso trunfo, faz com que cada momento seja sentido como podendo ser o último, concretizando na realidade aquilo que parecia nunca poder passar da intenção.
Faz-me um favor: não te prendas ao perigo eminente que eu sou, afasta-te dele o suficiente para não seres apanhada num emaranhado no qual sufocarás.
Mas, se entretanto quiseres continuar a deixar-me de 4, de queixo caído com a violência das sensações que despertámos, e estiveres disposta a deixar ficar o teu cheiro entre as 4 paredes do meu quarto, segue o conselho que começo a chamar de meu: manda foder tudo o resto!

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Calendário

Aquele dia estava marcado nos calendários, que se sucediam ano após ano, pendurados nas paredes do hall de entrada como roupa estendida a secar até entesar. No início usara um marcador vermelho e com ele traçava uma cruz para o destacar de todos os outros, desses dias dolentes, custosos a passar. Hoje em dia era mais prosaica. Em torno das linhas que encaixavam aquele número, naquele mês do ano, fazia por vezes ilustrações simples, como heras trepadeiras galgando paredes em direcção às janelas. Usava várias cores (o vermelho ainda era muito presente), por vezes escrevinhava nos contornos da caixa ou desenhava setas como projécteis de um Cupido que ela desejava existisse de verdade.
O destaque daquele dia no calendário era como um templo em sua casa, o local onde habitava a Divindade protectora, a ilusão da perpetuidade. Olhava para aquele número vezes sem conta durante o ano, passando por vezes os seus dedos por ele como que procurando sentir o relevo da esperança.
Os calendários estavam colocados de forma estratégica, mesmo em frente à porta de entrada. Assim, não havia como escapar a vislumbrá-los sempre que chegava a casa, e por isso era sempre contemplada pela memória que aquela marca evocava, como o Deus profano da boa fortuna que alguns colocam nas ombreiras para receber os visitantes.
Os calendários não eram sempre iguais todos os anos o que estimulava a sua criatividade. Os diferentes tipos de papel e as dimensões variadas funcionavam como catalisadores da sua veia pictórica e ditavam a forma como decorava a efeméride.
Não se podia dizer que toda a sua vida fosse regida pela memória daquele dia perpetuado nas paredes do hall, mas ele parecia funcionar com o misticismo necessário para quem necessita apaziguar a angústia de se sentir só, mesmo quando gravitavam pessoas à sua volta. As pessoas que nunca perceberiam o significado daquela memória tão intensa, daquela experiência marcante como o ferro em brasa. Mas certo é que aquele número sublinhado nos sucessivos calendários estava sempre presente na sua vida como um canto recolhido num lugar infestado de lugares ocupados.
Os dias em branco no calendário eram todos iguais, sem vida, esmorecidos pelo destino de se verem permanentemente datados. Depois de acabarem seriam perdidos para sempre. Não ganhavam o direito a ser eleitos pela memória, essa caprichosa e arrogante que nos faz sempre crer termos mais poder sobre ela do que o que temos realmente. Eram dias, apenas isso, conjuntos de horas cadentes, sem cucos ou sinos a darem conta delas.
Mas aquele dia tinha mais colorido do que o que ela lhe dava nos calendários, tinha a cor das emoções à flor da pele, dos gritos descontrolados ao ouvido, dos sorrisos rasgados e das convulsões do êxtase. E também da dor, daquela dor saborosa que faz sentir a vida pulsar nas veias e sublinha de forma ainda mais exagerada o prazer.
Hoje era esse dia, 364 dias em branco depois tinha chegado novamente a altura da celebração.
Nesse dia acordou, como sempre nesses dias, com um formigueiro na barriga. Procurava sentir-se mais bonita, investindo mais tempo em arranjar-se em frente ao espelho, como fazem as velhas quando vão à missa aos Domingos na santa terrinha. Tinha cuidado em arranjar um camisa que desse bem com a saia, uns sapatos que fizessem figura com a carteira. Punha perfume no corpo e algumas baforadas por cima da roupa para que o sentisse mais intensamente e durante mais tempo. A sua pele tinha ganho algumas rugas e o cabelo tornara-se mais fino do que quando era jovem e se gabava da sua farta cabeleira. Os seus olhos ganhavam mais brilho nesse dia do que em todos os outros dias em branco e isso iluminava o seu rosto, que apesar dos sinais do tempo continuava bonito, de uma forma que se percebia melhor quando se estava perto dela.
Como em todos aqueles dias de todos os anos que tinham passado desde o dia primordial, o ponto alto das celebrações acontecia com um telefonema. A hora em que o fazia não era sempre a mesma, e isso era assim não por causa dela, mas porque sabia em cada ano qual a melhor altura para o apanhar do outro lado do éter. Utilizava parte dos dias em branco para fazer esse trabalho de pesquisa: saber se tinha mudado de casa, se tinha arranjado novo emprego, se tinha uma nova companheira, ou se mudara de número de telefone. Seguindo os seus passos como um cão de caça que persegue a sua vítima à distância, oculto pela sombra da discrição, conseguia saber sempre o que era preciso para ser bem sucedida no telefonema.
Nesse ano sabia que a melhor altura para lhe telefonar era de manhã, enquanto se deslocava de casa para o trabalho. Já no ano passado o fizera nessa altura. A sua vida parecia não ter mudado desde então, apenas a sua figura se tornava um pouco mais oval e os cabelos ganhavam a tonalidade das neves de Abril, derretendo pelas frontes em direcção às patilhas. Ainda era um homem charmoso segundo o seu entendimento, talvez apenas demasiado entretido com as correrias das quais não parecia conseguir escapar, excepto quando saia do escritório e fumava descontraidamente sentado nos bancos do jardim.
Pegou no telefone e discou o número escrito num papel. Passou um último olhar ao calendário que hoje mostrava em todo o seu esplendor aquele dia colorido.
O telefone tocou apenas uma vez até ele atender.
- Estou.
- Olá. Sou eu.
- Desculpe, não estou a ver quem é…
- Então já te esqueceste que dia é hoje?
Ele manteve-se em silêncio por uns segundos.
- Ouve, tu tens de parar com isto. Não vês que me fazes sentir esquisito?
- Eu sei, queria só dar-te um beijo e dizer que o nosso dia faz hoje anos .
- Ouve lá, tens de esquecer isso. Quer dizer, passamos um ano sem nos falarmos e de repente ligas-me por causa de uma coisa que já passou há tanto tempo… Tens de deixar de olhar para trás dessa forma! Assustas-me, às vezes.
- Desculpa, não te queria assustar. Só queria relembrar-te daquele dia maravilhoso que me marcou até hoje. Não te marcou a ti também?
- Desculpa lá mas vou desligar! Que raio queres que eu diga? Foi bom esse dia, como foram bons outros dias em que estivemos juntos, mas já correu muita água por debaixo dessa ponte… não quero falar mais sobre isso, até porque se o fizesse acho que estava a contribuir para que continues fixada nessa ilusão. Já caminhamos para velhos, que raio! Olha que se não começas a aproveitar todos os dias ainda te arrependes. Esquece lá isso! Foi bom, mas pronto, já lá vai.
- É só porque acho que não foi um dia qualquer. O que aconteceu foi muito especial.
- Vou desligar! Desculpa, mas tem de ser. Não quero alimentar essa coisa estranha que tu sentes, não quero dar mais uma volta na fechadura da cela em que pareces ainda estar presa. Adeus, e por favor, não me voltes a ligar mais. Tenho a minha vida organizada, e receber este tipo de telefonemas é demasiado estranho. Adeus!
E desligou o telefone.
Do outro lado da linha ela sorriu. Voltou a sentir aquela dor saborosa que fez palpitar o sangue nas suas veias. As emoções à flor da pele, os gritos descontrolados ao ouvido, os sorrisos rasgados e as convulsões do êxtase mantinham-se apenas alojados nas suas memórias, mas nunca esperou que fosse de maneira diferente. Sabia no seu intimo que jamais voltaria a ter essas sensações, mas nunca encarou isso com mágoa. Sempre se prendeu à ideia de que em pelo menos um dia da sua vida elas estiveram lá com ela e a arrebataram de uma forma sobrenatural. Um dia colorido num calendário era melhor que um calendário todo em branco. E mesmo que os seus vizinhos tivessem mais dias pintalgados do que ela, nos seus próprios calendários, sabia com toda a certeza do Mundo que nunca haveriam de ter os mesmos tons garridos e a mesma luz resplandecente que aquele seu dia especial.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O Homem que pedia desculpa mas não pedia perdão

Ele passava pela vida com o ímpeto dos furacões, levando consigo telhados de zinco e postes de luz. Deixava as vilas por onde passava mergulhadas nas trevas de olhos postos no céu em busca das estrelas que augurassem melhores dias. Furava ruas fora com a velocidade de quem não olha para os semáforos, atravessando cruzamentos de pouca visibilidade como quem nada tem a perder. Era como as enxurradas que levam na torrente o que encontram pela frente sem pedir licença, certas de estar a prestar um bom serviço retirando das estradas os objectos que impedem a circulação, não querendo saber se eles lá estariam por algum motivo.


Pedia desculpa por isso.


Ele levantava as saias às senhoras quando passava como a brisa pelo meio das suas pernas, seguindo em frente sem dar conta do embaraço. Fazia desgrenhar os seus cabelos e voltava a arrumá-los em novelos entrelaçados como os ninhos de rato. Resfriava as crianças que jogavam à bola nos jardins, pintadas nos rostos com o rubor da excitação e ensopadas em suor. Sentia-se como um soldado que descobrira, enterrado nas trincheiras, que a única maneira de fugir da morte certa era sair daí para fora dando o peito às balas do inimigo. Vivia como se a antecipação da morte fosse mais importante do que o seu esquecimento, para não deixar arrefecer a sensação de estar vivo.


Pedia desculpa por isso.


Deixava feridas abertas nas pessoas em quem se roçava, ao passar furiosamente com as garras afiadas. Deixava-as assim, a esvair-se em sangue morno, enquanto lambia os dedos e incorporava as suas essências. Lançava poeira nos olhos de quem se virasse ao seu relance, não porque quisesse mas porque não o conseguia evitar. Tudo acontecia para além do seu controlo, apenas os seus movimentos eram regidos pela sua vontade. Tudo o que fazia acontecer no mundo à sua volta, as intempéries ou a bonanças, os sorrisos ou as lágrimas, os remendos ou as suturas, estavam para além do seu escrutínio.


Pedia desculpa por isso.


Mas nunca pediu perdão.

Nunca pediu perdão porque corria cego, de olhos vendados pela convicção de estar sempre a correr em frente. Não deu pelas voltas em espiral, pelas rotundas no caminho ou pelas estradas sem saída. Nunca pediu perdão porque achou sempre que as feridas que abria nas pessoas no mundo à sua volta as faziam sentir-se vivas, a mesma sensação que lhe davam as cãibras nas pernas após as suas jornadas mais intempestivas.
Nunca pediu perdão porque achava que as casas sem telhados de zinco após a ventania, fariam as pessoas aproximar-se mais das estrelas, que agora se viam melhor sem a luz nos candeeiros.
Nunca pediu perdão porque achou sempre que corria sozinho. E por nunca ter pedido perdão, sozinho ficou.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Tomar banho dentro de ti

Quero chegar-me perto de ti enquanto estiveres a dormir. Pegar-te levemente nas pernas nuas e afastá-las um pouco para que possa olhar lá para dentro, espreitar o teu interior enquanto te sinto agitar suavemente na cama, sem acordares. Olhar sem pudor a coberto do teu sono leve, curioso como uma criança a espreitar pela primeira vez por um microscópio pensado ir encontrar os homúnculos responsáveis pela construção do mundo.
Quero ver-te colocar um dedo na boca e trincá-lo suavemente, enquanto desenhas um sorriso breve no rosto que se ilumina um pouco mais. Deixar o frio da noite entrar por ti adentro, primeiro, e retribuir à noite com a humidade que emanas vinda das entranhas.
Quero ver como o teu corpo é uma palete de cores variadas, os tons de rosa sobre o negro e o dourado, sentir o cheiro deste orvalho nocturno que começa a perfumar o quarto contrariando o vento que surge por vezes pelas frestas da janela.
Quero entrar dentro de ti de uma forma diferente da habitual, entrar de vez sem ficar à superfície como sempre acontece, por mais força que faça. Quero banhar-me na tua humidade, sentir o meu corpo colidir em ricochete na massa esponjosa que tens por dentro e que é aquilo que tu és, suave como a espuma do mar que se acumula nas rochas da praia. Quero tomar banho dentro de ti.
Olhar-te por dentro até me arderem os olhos e afogar-me quando estiver cheio de te beber.
Entro primeiro com medo de te acordar mas o que acontece apenas é que a luz no teu rosto se torna simplesmente mais brilhante. Forço-me a entrar mais no teu âmago e sinto que me chamas por dentro, abrindo-me as passagens que estavam vedadas até há pouco, e puxas-me para mais fundo de ti com a força das correntes dos rios, que me encharcam até à medula. Tomo banho dentro de ti, nas águas cálidas que não me surpreendem e que me aconchegam num embalo irresistível.
Podia ficar aqui a vida toda, neste banho catártico, mas quero continuar o mergulho enterrando-me mais profundamente nos teus abismos, embrenhando-me mais intensamente na curvas e contracurvas das tuas vísceras e sentido me electrizar com os fluxos vitais que percorrem o teu corpo para cima e para baixo. Quero ir por ti adentro, subindo por ti acima. Quero chegar até por detrás dos teus olhos que continuam fechados não dando pela minha ausência do quarto. Quero ver se deixaste gravados neles alguma imagem minha, como um daguerreótipo. Quero procurar perceber porque os teus olhos, de repente, passaram a olhar para mim da mesma maneira que para todos os humanos. Deixaram de ver mais além, para além da carne que agora te percorre por dentro como nunca tinha acontecido. Deixaram de querer ver aquilo que consigo fazer, aquilo que sou realmente, ou recusam-se simplesmente a fazê-lo. Acomodaram-se à visão da carne, mesmo que a carne ainda consiga fazer-te esboçar esse sorriso breve quando sentes que entra por ti adentro.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

As margens dos rios são como ilhas vistas de terra

As margens dos rios são como ilhas vistas de terra. Penso nisso enquanto atravesso a ponte para o lado de lá, o lado que me acolhe com um sorriso esboçado com o esgar do amor interesseiro.
Nunca ninguém ousara pensar nisso antes, mas as margens dos rios são como ilhas vistas de terra. Quando olho para trás pelo retrovisor, apenas vislumbro os reflexos da água que ganha um tom metalizado com a luz do Sol a explodir assim já baixo no céu, bola de fogo incandescente que incendeia com a ternura possível o meu olhar. Água é o que vejo, sobre a costa a perder de vista. É assim que a margem do rio me recebe, numa ilusão enganadora de magnificência.
As margens dos rios são como ilhas vistas de terra, mas os rios não são como os mares, infindáveis. Por detrás das ondas prateadas vejo o sítio de onde vim, colocando um ponto final nas perspectivas de imensidão que o rio me quis dar: a água do rio, ao contrário da do mar, acaba já ali, no sítio de onde venho antes de atravessar a ponte. Mas as ilhas não se definem pelo tamanho dos braços de água que as envolvem, e por isso quando chego à margem caprichosa é como se atracasse numa ilha.
Deixo para trás parte do que sou e embarco na aventura, no calafrio do conhecimento progressivo dos territórios insondáveis. Vejo as pessoas na estrada a estenderem-me tapetes vermelhos à minha passagem, outras pintam de pétalas coloridas o meu caminho, e fazem-me sentir bem vindo a esta prisão que começo a chamar casa. Reconheço cada vez mais os cantos desta ilha pouco deserta, excepto quando quero e me isolo nas profundezas do mato virgem que mesmo grande parte dos nativos desconhece. São territórios hostis repletos de espinhos e animais selvagens, nos quais encontro a paz que anseio, o tempo que domino como uma ampulheta de controlo remoto.
Sinto que a ilha se vai apoderando do meu coração, não para o conquistar pois o mar será sempre o seu dono e ela sabe disso; mas para o destruir para cheirar o seu sangue para sentir a seiva que corre nas minhas veias empapar o chão seco das noites quentes essas noites que precisam do meu sacrifício para continuarem quentes nesta ilha fria como o raio que te parta onde o Sol parece não conseguir atravessar a ponte como eu.
Entrego-me à ilha com a doçura do cordeiro que vem assistir ao espectáculo. Faz de mim o que entenderes usa a seiva do meu corpo para te deleitares com o calor pulsante que emano e rasga a minha pele em mil pedaços. Sou do mar como sabes mas a ti me entrego pelo prazer de te possuir fazendo-te crer que sou teu. Sente nas profundezas que te agarram à terra para que não te percas de vez o gozo de me destruíres e espero que não descubras que afinal a carne que vês despedaçada em mil pedaços espalhados pela areia não é mais que uma ilusão como as que as tuas margens provocam quando estou de costas voltadas para ti e em frente ao rio.