terça-feira, 28 de agosto de 2007

O homem que não conseguia controlar a intensidade da voz

A primeira vez que lhe aconteceu estava na caixa de um supermercado, numa rua agitada da cidade, onde só moram velhinhas aos dias de semana.
Acabara de passear pelos corredores, recolhendo os produtos de acordo com a ordem descrita na lista em papel pautado e amarfanhado pela viagem. As pernas conduziam-no entre as paletes de leite e os sacos de comida para cão, os braços esticavam-se num movimento a três tempos, mas a sua cabeça não estava por ali. Passou o tempo todo que durou aquele ritual a recordar-se dos tempos em que espalhava areia no quintal da casa onde cresceu, perto daquela rua, a deixar-se estar tardes inteiras a fazer corridas com carrinhos matchbox. A areia ajudava às derrapagens imaginárias e facilitava algumas capotagens que davam emoção à competição na qual, invariavelmente, apenas um carro tinha o direito de ganhar. Lembrava-se dele com um detalhe assombroso, laranja entrecortado por riscas brancas nas quais se podia ler um número qualquer. Apenas esse número lhe faltou “- Que chatice!”. Estava a ver as rodinhas pequenas, saltitantes (mais do que as dos outros carros que com ele competiam), os faróis de metal a simular o vidro, mas o número não conseguia recuperar. Lembrava-se que se sentava tardes a perder de vista pilotando aquele carro, com o capacete posto, luvas nas mãos, fato no corpo. A destreza nas curvas fazia afastar para fora da pista os demais concorrentes, e nas bancadas o público rejubilava com as derrapagens que levantavam a poeira na sua direcção. Lembrava-se de todas as corridas que fizeram crescer um palmarés invejável ao piloto, menos do número impresso sobre as listas brancas…
A procura deste fragmento de memória acompanhou todo o seu trajecto entre os corredores do supermercado. E foi apenas quando já estava na caixa para pagar que lhe aconteceu. A senhora do lado de lá, farda azul e cabelo puxado para cima em caracóis sofridos como se se estivessem a desfazer parede abaixo, perguntou-lhe “- Tem cartão de descontos?” e foi quando quis responder “-Não, mas obrigado na mesma” que da sua boca saíram sons descontrolados, gritos infernais que dirigiram na sua direcção todos os olhares presentes.
Não eram palavras, não eram gemidos. O som assemelhava-se a um estrondo metalizado composto por uma variedade de timbres semelhantes, um som orquestrado mas pouco harmonioso, um som digno de um Adamastor dolente berrando às caravelas que passam para que passem mais ao largo. Era um som demasiado poderoso para o seu corpo franzino, um som que nenhum humano seria capaz de fazer.
Quando o som saiu da sua boca o seu corpo contorceu-se, agitou-se um pouco e foi atirado para a frente. A violência com que o vociferou faria supor uma espécie de efeito chicote, como quando se disparam armas de calibre elevado e o corpo recua, mas aquele movimento descontrolado parecia querer fazer atirar o som ainda mais para a frente, como se fosse preciso reforçar a sua projecção no espaço.
A senhora da caixa do supermercado ficou com um ar aterrorizado, enquanto os caracóis no seu cabelo procuravam ganhar novamente posição. Por momentos haviam sido ressuscitados e pareciam querer fugir daquela condição miserável e oleosa.
Ele ruboresceu quando aquilo lhe aconteceu. Quando sentiu sobre si os olhares dos outros clientes como focos apontados ao artista principal, deu um passo atrás primeiro e depois, largando as coisas pelo chão, saiu porta fora em direcção à rua onde as velhinhas moram durante a semana.
Não foi apenas a sensação de não ter conseguido controlar a sua voz que o apavorou, mas o som vindo do inferno que emitiu, que nenhum humano seria capaz de fazer, fê-lo duvidar do significado que teria.
Fechou-se em casa e a sua voz não se ouviu até acordar no dia seguinte. Testou primeiro, a medo, algumas palavras antes de pronunciar uma frase completa e a normalidade da situação ainda o fez pensar se tudo não se teria tratado de um sonho. Tinha consciência que era nisso que queria acreditar, mas sabia que o que tinha acontecido era bem real. Na melhor das hipóteses teria sido caso isolado e poderia viver a sua vida normalmente a partir daí. Apenas necessitaria de escolher um supermercado diferente.
Passaram-se semanas até aquilo lhe acontecer de novo. Na segunda vez estava a passear o corpo quando um senhor de meia-idade lhe perguntou por uma rua ali perto, que por sinal ele conhecia bem. Mas a direcção da rua não lhe saiu e apenas o som infernal voltou a ecoar. Desta vez pareceu-lhe mais forte, com uma intensidade que fez as crianças do outro lado da estrada levarem as mãos aos ouvidos. Haviam cães ali perto que entraram num frenesim, latindo feitos doidos e procurando escapar das trelas dos donos. Como lhe acontecera no supermercado, o seu corpo projectou-se para a frente, e o movimento causou-lhe cansaço quando o grito terminou. Desta vez não teve de sair correndo dali para fora, porque o homem de meia-idade fez isso por ele. As mães das crianças do outro lado da estrada empurravam-nas apressadas e os donos dos cães tentavam, chamando repetidamente pelo nome, acalmar os seus fiéis amigos.
Ele ficou parado no meio da rua de braços caídos e esgotado, enquanto as pessoas desapareciam à sua volta. Sentia a sua cabeça à deriva, como que vazia de pensamentos. Sabia que ainda funcionava bem, pois até aquele momento, enquanto descia a rua e sentia na pele o calor de um Maio que se avizinhava quente, estava entretido a recordar os livros de quadradinhos que lera anos atrás, uns sobre a conquista do oeste selvagem outros sobre aventuras no espaço sideral. Eram fontes de inspiração para as suas brincadeiras solitárias mesmo quando outras crianças estavam em sua volta. Transformava rapidamente as paredes do quarto em salas de controlo de naves espaciais, botões nas paredes, teclados nas estantes, manómetros nas maçanetas das portas; e os tabuleiros da roupa onde a sua mão armazenava as próximas vítimas do ferro em brasa, davam excelentes carroças por onde explorava pradarias e se defendia dos ataques dos pele-vermelha.
Naquele dia não conseguiu dormir. Pareceu-lhe ter estado o tempo todo deitado na mesma posição, vasculhando no seu corpo pela explicação para aquele feito extraordinário. Mas talvez o seu corpo não lhe pudesse dar as respostas que procurava, pois aquele som nenhum humano seria capaz de fazer. As suas cordas vocais seriam despedaçadas se fossem as responsáveis por aquela voz ensurdecedora.
Procurou médicos, padres, espíritas mas nunca conseguiu recriar junto deles a voz infernal que lhe saía das entranhas. De todos trouxe explicações, teorias e soluções. Uns disseram-lhe “- Sabe, como a nível fisiológico não conseguimos encontrar qualquer tipo de anomalia com o seu aparelho fonético, talvez o problema seja psicossomático. Tem andado calmo por estes dias?”; outros “- O poder da oração deve ecoar na sua vida. Se é verdade que o que lhe está a acontecer não pode ser explicado pelo homem, então é porque tem um significado que só pode ser revelado pela fé”; outros ainda “- Você é uma pessoa especial, assim que entrou senti uma áurea à sua volta, e sabe que como eu muita gente nota isso. Mas se a mim essa revelação provoca reverência, noutros provoca inveja e são esses que estão a tomar conta do seu corpo”.
Todas estas ideias lhe pareceram como frágeis arco-íris, imagens fugazes no céu que não aguentam o tempo suficiente para que se identifiquem os tesouros enterrados no solo que beijam ao de leve. Não havia cruzes no mapa enredado que traçava a custo os caminhos erráticos dos seus pensamentos. E por isso a certa altura desistiu de procurar explicações, agarrando-se apenas à esperança, cada vez mais ténue, de que a voz não mais fugiria do seu controlo.
Mas os episódios foram-se sucedendo com uma cadência cada vez maior. O tempo que mediava entre eles era progressivamente mais curto, a intensidade da voz aumentava e o desgaste físico provocado pelos espasmos que acompanhavam aqueles sons de demónio feito de bigornas e martelos mais intenso.
De uma vez aconteceu-lhe num museu, numa exposição de pintura surrealista, quando quis fazer uma pergunta a um segurança estancado no meio da sala cheia de gente. Os alarmes do museu dispararam e gerou-se o pânico entre as dúzias de pequenos japoneses que se agarravam às suas câmaras como náufragos a bóias de salvação. Corriam para cá e para lá, fintando os seguranças que iam aparecendo às revoadas, como se estivessem dentro de bonecos insufláveis de pernas curtas a esbarrar em tudo o que era parede, sem conseguirem sair da sala. Houve quem gritasse também com o susto, mas esse tinha sido um grito normal, não a expressão colossal do barulho de mil trovões. Quando reviram, à frente dele, o vídeo de uma das câmaras de segurança, puderam verificar primeiro um homem serenamente a contemplar aqueles quadros de figuras oníricas, enquanto associava as formas lascivas de algumas pinturas à sua tentativa (faz tempos) de recriar não com o pincel mas com a caneta a sensação de ter estado pela primeira vez com uma mulher que amava (mas isso eles não puderam ver nas imagens do vídeo…). Depois viram a revelação da possessão que o transformava naquele ser gigantesco (só podia ser gigantesco) de voz enfurecida em rosto perturbado. Como não conseguiram perceber o que viam, nem adivinhavam o que lhe dizer, deixaram-no ir à sua vida.
Numa outra vez a voz descontrolou-se quando estava a fazer amor com uma mulher que tinha conhecido dias atrás. O desejo de materializar naquele corpo feminino as mulheres que no passado havia desejado fervorosamente, fê-lo acreditar que as estava a possuir todas juntas, fundidas naquele corpo de formas largas, cada vez mais largas à medida que ia incorporando os rostos e os nomes que durante o acto lhe vinham à cabeça. Quis sussurrar-lhes ao ouvido a sua condição de rendido, mas o que lhe saiu foi tudo menos um sussurro. O berro descontrolado fez a mulher saltar da cama num ápice, como se tivesse estado todo o tempo ali contrariada. Os seus olhos que até momentos atrás irradiavam as suas próprias ilusões, estavam agora abertos forçando as pálpebras ao limite. Não conseguiu dizer nada, ficou primeiro de pé em frente à cama, depois agarrou nas roupas que colocou à frente do seu corpo nu, e só depois saiu dali. Parecia procurar no rosto dele a explicação para a sua surdez súbita, mas ele mantinha um rosto inexpressivo, envergonhado, sem conseguir dizer nada não fosse novamente perder o controlo da sua voz. Enquanto faziam amor chegou a pensar se não seria assolado pelo arrependimento de a ter estado a violar sem ela saber. Mas agora esses sentimentos não lhe passavam pela cabeça, apenas tinha permanecido a ideia de ser uma aberração, como aquelas que os circos antigos mostravam às pessoas das aldeias.
Os episódios foram-se sucedendo e a vizinhança começou a olhar para ele com desdém. Sentia os risos abafados das crianças à sua passagem, os comentários em surdina das velhas que ocupavam parte do seu tempo com especulações sobre aquele seu destino e o olhar desinteressado das mulheres que o contemplavam com nojo.
Os seus dias foram sendo por isso, cada vez mais silenciosos. Algumas das crianças do bairro tentavam meter-se com ele lançando perguntas à toa, na esperança de ouvir novamente o ribombar da sua voz. Mas ele controlava-se agora melhor, e a sua boca foi ficando selada.
O peso da sombra dos outros a pairar no seu caminho, as farpas lançadas pelos seus olhares, as coisas que ouvia a seu respeito fizeram-no tomar uma decisão. Num belo dia desapareceu daquele bairro e nunca mais foi visto.
Mudou-se para perto do mar, e viveu até ao fim numa gruta que dava para o Atlântico. Adamastor seria!
Nessa gruta deixou o tempo passar devagar, enquanto mais rápido do que ele o seu corpo ia envelhecendo. A sua voz não mais ecoou e por isso os barcos que passavam junto à costa nunca foram convidados a procurar águas profundas.
Entretido na sua gruta, longe dos olhares alheios, sentiu-se como sempre se havia sentido, mesmo quando o seu espaço era partilhado por outros ou dormia alguém na sua cama: sentiu-se só. E nesse sentimento se deixou estar, confortado pela possibilidade de poder voltar a subir ao pódio dos circuitos mais famosos, de olhar para a Terra vista do espaço no seu foguetão, de fundar novas cidades no meio do deserto e ser lei, de deixar fluir as histórias da sua cabeça no espaço frio que estava à sua volta, decoradas com os pingentes do tecto da gruta, e de se entregar finalmente nas mãos de todas as mulheres por quem se apaixonou incomensuravelmente.

domingo, 26 de agosto de 2007

Sonho dentro de uma moldura


Na tua rua

Estou plantado na tua rua à porta de tua casa por debaixo da tua janela, vejo lá em cima a luz que irradia da tua sala como uma mancha solar sobre o breu da noite, que está fria, cada vez mais fria (ainda deve chover), e às vezes sinto que é trespassada, deve ser a tua sombra quando caminhas pela sala, estou aqui parado a sentir o calor ainda fumegante das pedras da calçada por onde deves ter passado à pouco, o único calor que se sente, devia ter vindo mais agasalhado porque a noite parece arrefecer com os minutos que passam, e tu que passas lá em cima em frente à luz, que ganha volume com a humidade ao sair vidro fora, o teu perfume também cá anda mas não é o teu perfume é a forma como ele se mistura contigo, sei o que digo porque já o cheirei do frasco e não é a mesma coisa, acredita, talvez tenha sido essa mistura que deu comigo em doido e me faça estar a estas horas com este frio aqui por debaixo das folhas da árvore que vês daí de cima da tua sala, quem sabe se os nossos olhares não se cruzaram já num ponto qualquer do espaço, eu a olhar para cima, tu a olhares para a frente e a intersecção que só Deus vê, entre as folhas bamboleantes da árvore, tinhas razão quando me dizias que vivias num sítio sossegado, aqui não se passa nada, ninguém nas ruas (também está frio) a não ser eu que cerro os dentes entre arrepios, e a luz que sai da tua sala, que parece quente irradiando essa aureola alaranjada, pensei em tocar à tua porta só para te perguntar “ - Como estás?” mas isso era estúpido porque imagino como estejas e porque a pergunta só por si é estúpida e porque estou sempre a perguntar-te o mesmo e depois não teria mais nada para te perguntar e ficaríamos num daqueles nossos silêncios agonizantes em que tens medo de dizer o que queres e eu tenho medo de ouvir o que me tens para dizer, e sei que estás bem, tu estás sempre bem, forte como uma folha desta árvore sobre mim em meados de Outono, forte como o gelo em tarde solarenga, mas forte, sempre forte, é melhor não falarmos por agora porque ainda temos as palavras entaladas na garganta que está seca como a lenha crepitante, deixa primeiro que as nossas gargantas se humedeçam, posso falar-te se quiser, sei que está nas minhas mãos, mas não quero que as minhas palavras te trespassem como lâminas, gostava de te ver, talvez apareça por aqui um disco voador e me lance um feixe luminoso que me eleve do solo e ao passar pela tua janela possa ver que estás de pantufas calçadas a passar os canais na televisão, ou a ler um livro sobre gatos que falam com as pessoas, ou a pintar as unhas dos pés, não porque precises mas para te entreteres, fazer-te viajar com a cabeça, rabo sentado no sofá, mas isso pode dizer que estás nervosa, quando disse que eras sempre forte estava a ser irónico, espero que tenhas percebido a ironia, mas espera, a tua sombra ganha uma forma tridimensional, ajusto os olhos à luz alaranjada que agora está diferente, não, és tu que vens à janela fumar um cigarro (vê tu bem que já fumas em casa) e agora há mais um ponto alaranjado no céu sempre que puxas o fumo, levanto-me da calçada e coloco-me mesmo por debaixo de ti, não me vais ver no breu da noite e porque com o frio estás um pouco recolhida sobre o parapeito, mas quero estar mais perto, ver-te de relance, tentar perceber se estás mesmo bem (que pena não dar para ver se estás de pantufas), e enquanto te observo assim por debaixo sinto que uma lágrima tua cai sobre o meu olho, do outro já era eu que vertia uma lágrima, e agora correm as duas em paralelo pelo meu rosto, e procuro-as com a minha língua para que se misturem, entrem dentro de mim, e começa a chover, lágrimas do céu (já esperava que isto acontecesse) e tu recolhes-te mais ainda, estás dentro de casa e apenas o fumo sai pela janela entreaberta e procura desviar-se das gotas que engrossam e engrossam, deixo-me ficar a olhar para cima, com a chuva a acertar-me em cheio na cara, estou empapado em água, a roupa colada ao corpo e lembro-me de outras alturas em que estive igualmente alagado, prazer em bica a escorrer-me pelos poros (lembras-te?) e tu a passares a tua mão pelo meu cabelo encharcado, as gotas que caiam sobre o teu rosto (pensas que não vi?), a intensidade com que sentimos as coisas valeu por uma vida inteira de lume brando, sabes que acho que foi a precariedade que fez com que as sentíssemos tão intensamente, e sei agora plantado na tua rua à porta da tua casa por debaixo da tua janela que foi por nunca te ter tido que te vou possuir para sempre, ninguém há-de perceber isto mas acredito que perceberás, tu que me percebes como ninguém, sinto de repente um nó no peito e a respiração mais ofegante, senti o mesmo quando me chamaste para dizer que não gostavas de despedidas, mas nós não nos despedimos, apenas celebrámos a intensidade invejada por toda a gente que vive em lume brando, e não sou capaz de te dizer adeus, mas também não sei se vou subir a tua casa algum dia, mesmo que esteja trancada a sete chaves sabes que se for isso que me der na gana irei à luta, dessa vez será a minha altura de lutar contra as probabilidades, mas nunca será para seres minha porque te quero ter para sempre, mas nós não nos despedimos porque faço tenções de vir cá todas as noites, nem que esteja frio e chuva como nesta, para ver a luz que irradia da tua sala, essa luz alaranjada com o cheiro do frasco de perfume misturado com o teu, vou sempre arranjar um tempinho para vir cá, saber se estás bem, com os pés quentes.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Fantasias

Quando acordou percebeu que ela já estava em casa. Do seu quarto, entre ramelas, ouvia ao longe os seus passos na marquise e o barulho da tábua de engomar a ser montada.
Pensava se não seria naquele dia que ela o arrebataria nos seus braços. Talvez quando passasse por ela a caminho do banho, ou quando saísse, já sem o cheiro da noite. Mergulharia no seu corpo jovem, inexperiente, invadida por um desejo inconsequente. Mostrar-lhe-ia os caminhos do prazer que ele ansiava descobrir até então, e que antevia apenas nas suas congeminações e sonhos húmidos.
Ao pensar nisso, sentiu que a erecção que o acompanhou naqueles primeiros minutos do dia se tornava mais intensa, com todo o seu sangue a fluir para o pénis. Talvez fosse isso que fez com que as primeiras ideias e imagens que afloraram o seu espírito não fossem tão claras, pois com tamanha manifestação de desejo, o seu cérebro não poderia estar a ser oxigenado convenientemente.

Chamava-se Maria o que lhe dava alguma graça. Não se chamavam assim todas as empregadas domésticas? Provavelmente seria um género de nome artístico. Talvez assumisse um papel, de facto. E para além de engomar e arrumar a confusão instalada, duas vezes por semana, talvez representasse o papel de mulher sonsa que levaria à loucura todos os adolescentes das casas onde trabalhava. Como ele, que se sentia expectante pelo momento em que passaria por ela a caminho do banho e que levava as mãos ao membro duro, como que para o manter em vigilância.
Devia ter perto de 30 anos, o dobro dos dele. Não era particularmente bonita, nem era mulher de muitas conversas. Ele aliás não se lembrava de terem alguma vez conversado, e nada sabia sobre a sua vida. Ela, pelo contrário, estava em sua casa, mexia nas suas coisas, tinha o poder de descobrir a sua intimidade. Tinha um corpo magro, coberto por roupas modestas que deveriam ser parte dos adereços que usava na representação do papel de empregada doméstica. Olhava sempre para ele de soslaio, como não querendo ver os pensamentos que lhe afloravam à cabeça quando passava por ela a caminho do banho. Nessa altura, apenas uma porta fechada os separava, porque a casa de banho era encostada à marquise. Apenas uma porta mantinha a distância entre o seu corpo nu e aquela fera com olhos de carneiro mal morto.

De todas as vezes que esta história se repetia, ele não conseguia controlar as suas fantasias. Imaginava que ela a dada altura entraria pela casa de banho dentro e se banharia com ele, entre esfregadelas que fariam a água espalhar-se por toda a divisão. Ou então ele sairia porta fora, todo nu, e ela o atiraria para a cama dos pais dele, e navegaria pelo seu corpo com a língua a servir de leme. Ou então, de surpresa, quando já estivesse lá dentro a vestir-se, seria ela que apareceria nua e o tomaria como o seu joguete. Ele imaginava os seus pêlos púbicos fartos, a roçarem o seu corpo deixando por todo o lado os vestígios da loucura febril que marcaria o momento em que os seus sonhos tomariam a forma do suor em bica. Imaginava o seu cheiro nos dedos, que faria perdurar na memória aqueles instantes que ansiava sempre que estava sozinho com ela em casa, o que acontecia com frequência.

Ouvia ao longe o ruído surdo da roupa a ser dobrada e dos borrifos de água do ferro de engomar. Ele sentia que estava um dia quente, pois tinha acordado todo destapado e mesmo sem ter dormido de t-shirt como era seu hábito, não sentiu necessidade de se cobrir. Ela devia estar pior: com o calor do ferro , na marquise que naquelas horas do dia era banhada pelo sol, devia ter o corpo inundado de orvalho quente. A sua imaginação voltou a tomar conta dos seus pensamentos. Imaginou estar por detrás dela, lambendo o calor que irradiava do seu pescoço enquanto as suas mãos passeavam com firmeza sobre os seus peitos pequenos. Ela virar-se-ia finalmente para trás e poderiam trocar um beijo polvilhado pelos gemidos abafados do desejo que começava a tomar conta da situação. As mãos dele estavam agora dentro da sua blusa, modesta como a de todas as empregadas domésticas, e por debaixo do soutien poderia sentir os seus mamilos tomarem forma. Ela arfava com mais força, e os seus beijos molhados eram agora interrompidos pelo ar que a custo procurava insuflar nos pulmões. Depois ela decidiria tomar uma posição e empurrá-lo-ia contra a parede. Por detrás deles, o ferro em brasa dava ao ambiente uma sensação de calor supérflua, por que o que deles emanava era mais do que suficiente.
Tomado por aquele animal que agora, finalmente, se começava a revelar, sentiu-se explodir quando as mãos dela entraram por dentro dos seus boxers, e o arrepanharam com a força certa, num convite a fazer subir ainda mais a temperatura.

Na cama, indeciso sobre se levantar, com receio de que apenas um banho como todos os outros fosse tudo o que estivesse à sua espera, o seu corpo não dava tréguas. Nunca pensou insinuar-se realmente, para além da fantasia. Não estivesse ele enganado e ela o tomasse por um miúdo parvo, que nem saberia o que fazer com uma mulher experiente como ela devia ser. Mas talvez se passasse por ela, a caminho do banho, com aquele volume todo por dentro dos boxers, ela notasse o sinal das suas intenções e isso desencadeasse a resposta que ele sentia que deveria acontecer, o sinal de aprovação de quem está disposta a assumir o papel de mestre. Esta ideia fê-lo estremecer, num misto de ansiedade e excitação. Mais do que as palavras, que manobrava com dificuldade, deixaria o seu corpo tomar conta das operações. Da maneira como estava, não havia como disfarçar a vontade de a possuir, e passou mais uma vez as mãos pelo corpo intumescente para se certificar que essas condições se manteriam.
Sentou-se na cama e passou a mão pelo cabelo que não parecia estar tão desguedelhado naquela manhã. Enquanto atravessava o corredor em direcção à marquise, foi sendo percorrido por pequenas descargas eléctricas que davam o ritmo à sua passada.
- Bom dia, Maria! Tudo bem? - disse ele, tentando exprimir o sorriso mais maroto que o seu nervosismo permitia.
- Olá. Tudo bem. - disse ela, pelo canto do olho, sem reparar nos seus esforços por sorrir, nem nos outros sinais que ele tanto queria revelar. Mais preocupada com os vincos da camisa que custavam a traçar, quase nem deu pela sua passagem em direcção à casa de banho, respondendo de forma automática sem se deixar contagiar pelo calor que de facto, irradiava na marquise.
Ele fechou a porta e pôs a água a correr. Apenas mais um banho o aguardava, como todos os outros, tinha agora a certeza. Mas se ela não estava disposta a tomar conta do seu corpo, já nada podia fazer em relação ao seu espírito, e entre a água quente e o sabão que tiravam dele o cheiro da noite, deixou-se levar novamente pelas suas fantasias.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Pedinte


Deixaste o olhar ser levado pelos carros que passam sem cessar, no barulho infernal da cidade que não dás conta de crescer. Encostas o rosto aos que passam, balbuciando palavras que saem automaticamente, ladainhas de um sentido que te explicaram faz tempo, mas que hoje apenas são mais um prolongamento de ti, como os braços e as pernas magras que te arrastam por entre os carros que passam sem cessar. Faz tempo que corrias atrás deles, seguindo a manada daqueles que tinham já perdido o olhar faz tempo. No inicio sorrias com o reboliço, sem notares no desprezo dos que olhavam para ti nem na curiosidade faminta dos abutres. Os carros que passavam sem cessar davam alguma emoção a tua vida, e faziam com que as tuas pernas magras ganhassem algum alento para que corresses atrás deles. Hoje apenas a cidade cresceu, sem dares conta. Tu manténs-te igual, franzina nesse corpo que não encontra maneira de crescer. Não corres mais atrás dos carros que passam sem cessar porque os encontras sempre parados, ao lado de semáforos imaginários. Sempre no vermelho. Deixaste a manada, porque cada um procurou os seus cruzamentos, na imensidão de cruzamentos que surgiram entretanto. Sinto que vais ficar assim para sempre, franzina nesse corpo que não encontra maneira de crescer. Imagino que um dia sejas coroada rainha do cruzamento que adoptaste, com uma coroa de latão que jamais tirarás da cabeça. Sera outro motivo que te fará sorrir, agora que o entusiasmo das correrias faz parte do passado. Orgulhosa desse teu destino, peça desse teu cenário, vais continuar a admirar os abutres, sentados do outro lado dos vidros dos carros que continuarão a passar sem cessar. Espero que não tenhas reparado que num deles estava eu. Não queria que me visses assim, esperançado na tua coroação sem te ter prestado vassalagem.

sábado, 11 de agosto de 2007

Suor


Sentia que o espaço outrora exíguo se tornara, subitamente, demasiado amplo, como se o excesso de ar lhe causasse dificuldade em manobrar a respiração, numa estranha sensação de agorafobia inusitada. Sentia que o peso do silêncio lhe caia sobre os ombros, fazendo-a encolher-se sobre si própria. A Arminda sentia-se perdida naquele espaço que era seu. Reconhecia os recantos, as cores que tingiam as paredes já desbotadas, a forma como a luz incidia sobre as esquinas da casa e as sombras que projectava. Mas a casa tinha ganho uma nova tonalidade, não no que se via mas no que se sente. De repente, os sonhos que materializou naquele espaço esfumaram-se de vez, para todo o sempre. Sabia que deveria construir outros sonhos que suportassem o seu futuro, pilares sobre terrenos de incerteza construídos. Mas agora a amargura do momento fazia querer concentrar-se mais no passado. A Arminda procurava manter a chama acesa, com receio que se apagasse cedo demais, olhando para as fotografias expostas sobre o aparador da entrada. Não se lembrava da ultima vez que tinham despertado nela um sorriso, mas agora que o procurava com fervor, apenas percebia que funcionavam como catalisadores das lágrimas que lhe cobriam o rosto. Na alquimia das emoções que sentia naqueles momentos, todos os elementos se transformavam no sal que lhe saia dos olhos em direcção a boca. Sentia-se encolhida por dentro, como se a sua alma tomasse a posição fetal. Sentia que mesmo estando de pé, ombro encostado a ombreira, não conseguia manter os seus órgãos nos locais devidos, e eles se amontoavam numa cascata em precipício. Pensou que o pior seria passar tanto tempo sem ouvir a sua própria voz. Até ali, mesmo que fosse para discutir com ele, sempre poderia exercitar as suas cordas vocais. Mas agora nem para isso elas serviriam. Não receava o silêncio, porque tal como dantes a televisão serviria para ocupar os espaços mortos, ou a rádio, com os seus concursos matinais, manteriam ocupados os seus ouvidos. Não eram os ouvidos que a preocupavam, pois para esses percebia que o serviço não estava acabado. O que lhe preocupava era a voz, que agora, à conta da solidão em que se encontrava, não teria razão para ser usada. Sempre poderia procurar outra companhia, mas agora não via outra possibilidade que não carpir as mágoas sozinha. O choro já cansado, baloiçado nos soluços que exasperavam ainda mais o seu coração, acalmou quando olhou para o sofá. Era um sofá velho, amarelo, com os braços em madeira por envernizar novamente e roído pelo tempo. Os estofos tinham a marca do seu corpo, tantas tinham sido as vezes que ele se mantinha ali deitado até que ela o viesse chamar para a cama. Ficara moldado com a sua figura, um negativo do corpo que envelheceu naquele lugar. Quando se sentou no sofá, e passou as mãos pelos estofos, a Arminda sentiu que estavam impregnados do suor dele. Havia partes empapadas que fizeram humedecer as suas mãos. Ele continuava ali naquela casa, não na forma como habitualmente o reconhecia, não emitindo os sons com a sua voz cada vez mais cavernosa e expectorante da idade. Ele estava ali naquele liquido que era seu por direito próprio, emanado do seu corpo antes do estertor o levar dali, dela, para sempre. A Arminda sentiu-se estremecer. Já tinha pensado que seria agradável que ele a continuasse a visitar, para lhe fazer companhia nas noites que decorreriam entre reviravoltas no colchão. Mas esta presença física, real, do corpo que acabara de enterrar, fez surgir medos diferentes. Não saberia como conviver com aquela expressão de vida, como fazer desaparecer aquele aroma pútrido que exalava pela sala. Era uma assombração maior que a que poderia esperar de um ser vindo do além, do espectro que não lhe causaria surpresa. Mudaria de casa. Não, isso estava para alem das suas possibilidades e seria um disparate tendo em conta os anos que lhe restavam. Deitaria o sofá para o lixo. Não, isso seria forçar o desaparecimento do seu homem, que não quis desaparecer mesmo por debaixo da terra. A Arminda deixou-se ficar na sala, de pé, frente ao sofá. A historia que começara anos atrás, quando ambos tinham casado e conseguido mudar-se da aldeia para esta casa na cidade, apenas conheceria agora um novo capitulo. Era uma sequela da historia com a qual não sabia ainda como lidar. Mas o tempo, como tinha feito tantas vezes, seria bom conselheiro. A Arminda deixou-se ficar na sala, de pé, frente ao sofá. Sobre a janela dos fundos o Sol decidiu desaparecer e durante muito tempo pontinhos brilhantes no céu eram a única coisa que se avistava dali. A brisa começou a correr mais fresca, ate fazer brotar pequenas gotas de orvalho nas folhas das plantas penduradas na janela. A Arminda deixou-se ficar na sala, de pé, frente ao sofá. O tempo que passou e o calor que parecia ter regressado agora, não fizeram desaparecer o suor que coloria aquela divisão de uma fragrância familiar. As suas pernas fraquejaram com a dor habitual das articulações que lhe davam amanheceres hesitantes.
- É bom ter-te de volta!


sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Filme

- Luzes, câmara, acção!

Por detrás dele andavam num suplício uns pequenos seres. O realizador, balofo, bigodinho farto penteado para sobressair sobre os lábios finos, óculos de sol e boina na cabeça, calcas largas como nos tempos dos marajás com uma camisa aos quadrados. Do seu rosto pareciam brotar, permanentemente, umas gotas de suor como se a azafama fosse constante. E era de facto. Mesmo que em seu redor o cenário fosse tranquilo, o seu espírito estava permanentemente irrequieto e o seu corpo acompanhava-o nesse bulício. A procura do melhor plano, a luz ideal para o enquadramento, as baboseiras que dizia sem parar, elogiando permanentemente o protagonista. O cameraman, um túmulo de silencio. O olho direito colado ao visor da câmara e o sobrolho já vincado na face para o resto dos seus dias. Com o esquerdo, catrapiscava volta e meia para se dar conta dos passos do realizador e seguir no seu encalço.

Eram seres minúsculos, que ele por vezes receava esmagar com os pés. Contava com a destreza e os movimentos súbitos do realizador, sabendo que o cameraman o seguiria. Sabia que eram minúsculos por causa dos sons que emitiam. Vinham de longe, bem por debaixo dos seus joelhos. Tinham ainda outra particularidade que os fazia especiais: o seu tamanho diminuía sempre que ele se tentava voltar para eles. Ao fim de muito tempo, deixou de o tentar fazer, vencido pela frustração e o cansaço. Apenas confiava na sua audição para saber que eles lá estavam, sempre, e o acompanhavam onde quer que fosse, como uma sombra em forma de gente.

Nunca lhe deu para pensar que pudesse estar louco e que estes pequenos seres apenas seriam fruto da sua imaginação delirante. Pelo contrário, sentia-se fazer parte de uma enorme conspiração de silêncio, em que instintivamente todos os humanos teriam acordado não falar uns com os outros sobre os seus pequenos cineastas. Cada um teria o seu realizador e cameraman próprios, que registariam para a posterioridade a grandeza das suas vidas. Não poderia ser de outra forma, pois a loucura teria obrigatoriamente outras formas de se expressar, e tudo na sua vida decorria na maior das normalidades.

A única coisa que manchava de incerteza o seu espírito seguro, era o facto de apenas conseguir ouvir a voz do realizador quando se recordava da sua existência. Claro que ele não passava todo o santo tempo concentrado no seu papel de actor, nem se consumia até à exaustão com a preocupação de ter de ficar bem na película. Sobretudo quando estava com outras pessoas, deixava de ouvir os incessantes elogios do realizador e nem se preocupava com a eminência de os poder esmagar. Pensava que seria por uma questão de respeito, talvez eles se mantivessem em silêncio para não perturbar a cena com os figurantes que vinham e iam. Mas nem sempre era assim, pois nalgumas ocasiões sentia que os conselhos do realizador lhe eram particularmente úteis nas suas actividades sociais. - Levante um pouco a cabeça. Sim, isso mesmo! Agora faça aquele sorriso rasgado e mostre esses seus incisivos gloriosos. Perfeito!!

Era por isso quando estava sozinho, que a actividade cinematográfica atingia o seu expoente máximo. Sentava-se no cimo do muro do quintal da sua avó, e deixava-se estar de perfil para a câmara, sentido a brisa massajar-lhe o cabelo. - Fantástico, senhor! Por vezes imaginava quão bem lhe assentavam as luzes dos candeeiros, colocadas por debaixo dele, numa sala escura, e permanecia assim durante algum tempo, deixando correr solto o seu olhar até o perder. - O meu coração não aguenta de emoção, senhor! As melhores tiradas, julgava ele, aconteciam quando estava sozinho a ouvir música. O realizador ai tinha a oportunidade de filmar cenas que nunca teriam a chance de ser vistas ao vivo: a maneira como o seu corpo ondulava, as expressões do seu rosto que exprimiam por vezes melhor a intensidade do som do que a profundidade das letras, os seus gestos magistrais de condutor de orquestra imaginaria, suor na fronte e coração arrepiado. - Foi o melhor take ate agora, senhor!

O registo em filme já ia longo, pois estes personagens minúsculos acompanhavam-no desde o crepúsculo da sua vida. E nem ele se dava bem conta da extensão total do seu trabalho pois muitas vezes não dava pela presença deles, apesar de acreditar que uma vida assim merecia ser registada na sua plenitude. Por isso todos os passos, do amanhecer ao deitar, ficavam para sempre registados na celulose. Todos os banhos e refeições, todos os risos e choros, todas as banalidades ou todos os novos traços desenhados na palma da sua mão.

Julgava que este era um filme especial. Não que os outros filmes, dirigidos pela infinidade de realizadores e cameraman que perseguiam todos os outros humanos não fossem também importantes. Todos seriam importantes certamente, caso contrário não haveria necessidade de contratar tantos seres minúsculos. Mas este talvez correspondesse a um blockbuster. Não, talvez o sucesso de bilheteira não fosse o mais importante. Seria um filme reconhecido como uma obra de arte, sim, isso mesmo, uma obra de arte que mesmo que visualizada apenas por alguns, seria reconhecida como um marco na história do cinema. Sabia que muitos dos outros filmes que por esse mundo fora eram feitos, tinham por vezes mais e melhores cenas de acção, talvez até mais efeitos especiais. Mas faltava-lhes a sensibilidade deste protagonista, esta sua capacidade de sentir a poesia nos riachos de água a secar ou nas pedras do caminho. A forma como se chegava aos animais que o reconheciam como um deles, e a maneira como todas as estrelas do céu, nas noites quentes de Agosto, dançavam apenas para si uma valsa celestial. Era um filme em que o silêncio se sentia com a intensidade da fanfarra, em que as cores pálidas feriam os olhos como um caleidoscópio apontado para o Sol. - Que posso eu dizer, senhor?

Com os polegares e indicadores das duas mãos invertidos e unidos, o realizador procurava mais um plano digno da obra-prima que realizava. Que sorte a dele, ter podido ficar com um protagonista deste gabarito. - Passe a sua mão pelo queixo. Isso. Agora vá subindo em direcção ao ouvido contrário. Que sensual!

Nunca percebeu onde ficavam armazenadas as pilhas de película que entretanto já se deviam amontoar. Nem fazia ideia, quando pensava bem no assunto, como alguém poderia visualizar as suas façanhas, pois não se lembrava de ter visto as de ninguém, ou de ter sido convidado a fazê-lo. Para ele chegava saber que estava a fazer parte de um acontecimento histórico, de viragem. A arte não serve apenas para ser contemplada. Não teriam as pecas de Dali o mesmo interesse mesmo se não fossem conhecidas pelo Mundo?

Com o passar dos anos as vozes do realizador deixaram de ecoar com a mesma frequência. Julgou que teria envelhecido mais depressa, e imaginava o seu bigode agora embranquecido pelo tempo. Os animais reagiam agora com indiferença à sua presença e as luzes da cidade não deixavam ver tantas estrelas no céu do mês de Agosto. Quando passava agora a mão pelo queixo, sentia já a barba áspera irrompendo. Mesmo fazendo menos posses, sentia-se orgulhoso do seu filme. Sentia com o passar do tempo e os silêncios cada vez mais prolongados do realizador, que era agora ele que tomava a direcção dos acontecimentos. Colocar-se-ia nos planos que entendesse, fizesse luz ou escuridão. Mas as bobines permaneceriam junto dele, ate ao final. Não fazia questão de as mostrar a ninguém, e mesmo sem uma colaboração tão activa do realizador, continuava a acreditar que a obra que estaria a criar era sublime.

As bobines tinham-se tornado na sua alma, no que aspergia sobre os eleitos do seu coração, tão poucos que nunca poderiam difundir eficazmente a grandiosidade da obra. Mas com um acordo mútuo, poderiam ver todos os feitos de que ele era capaz ainda de fazer. As bobines tinham-se tornado a sua forma incorpórea, a fumaça que permaneceria neste Mundo já depois de ele o ter abandonado.

O Mundo nunca teria oportunidade de descobrir esta obra de arte, descobriu ele afinal.

Mas isso não tem mal.

A arte não serve apenas para ser contemplada.