quarta-feira, 25 de julho de 2007

Passada


Às vezes

Às vezes é difícil perceber a direcção do vento
Até estarmos dentro do tornado
Sentir que a brisa nos acaricia com os dedos
Fazendo-nos sonhar acordados

Às vezes custa acreditar que somos
Alguém que nos querem fazer crer ser
Mas a vida vai rolando, sem grandes assombros
Sem ligar importância ao que podemos perder

Às vezes parece que é no fio da navalha
Que se revela por fim o que podemos ter
Sem medos, receios, prontos para a batalha
Que nos rói cá por dentro sem transparecer

Às vezes sonhamos com aquilo que queremos
E no sonho nos deixamos adormecer
Às vezes perdemos, nas curvas da estrada
A razão que nos daria razão para viver



Às vezes ficamos com a boca calada
Às vezes ficamos sem nada fazer
Às vezes com tudo
Às vezes sem nada
Às vezes ganhamos dando tudo a perder

terça-feira, 17 de julho de 2007

Palavras

Ele gostava de conseguir dominar o poder das palavras. Gostava de consegui-las domar sem recorrer à pontuação. Fazer com que se movessem no espaço da mesma maneira que um pastor conduz o seu rebanho: deixá-las fluir sem recorrer a barreiras físicas, apenas dando alguns sinais aqui ou ali.
Gostava que as suas palavras não soassem bem apenas quando são ditas, porque a entoação essa podia dominá-la a seu belo prazer. Em vez disso, preferia que as palavras tivessem vida própria, que se articulassem num equilíbrio celestial.
Imaginava as palavras como cadeias de genes entrelaçadas. Em sequência, em harmonia. Mas tal como nos genes, isso não devia significar apenas ordem. O impulso da mutação também está presente nelas, e é por isso que as palavras encerram segredos inconfessáveis, declarações arrebatadoras, gritos de dor e de ódio visceral. Para além do que se lê ou do que se ouve.
As palavras (via-as ele assim) deviam ser mais do que as manchas que imprimia no papel. Elas deviam flutuar sobre o etéreo, fugir folha fora. Deviam soar ao que exprimiam, barafustando ruidosamente quando delas se aproximasse o nosso ouvido. Que se dane a voz, para lhes dar forma. As palavras deviam viver por si, escorrendo livros abaixo, entranhando-se por todas as frestas da casa num frenesim simbiótico.
Olhava para as palavras dos mestres e sentia-se dividido entre a raiva e a pequenez. O Deus que disse que “ no inicio era o Verbo “, tinha sido tremendamente injusto a distribuir o talento com que o manuseávamos. Era nas palavras dos mestres que por vezes ele ficava a duvidar se não existiria realmente Deus. Sem essas palavras, o sentimento de injustiça fazia negar a sua condição. Mas Deus, num capricho, nomeou alguns mortais para o deleitarem, cúmulo do narcisismo. Imaginava-o sentado numa nuvem (era tão literal quanto isto…) comovido ante o orgulho de ter criado seres tão especiais. Que arrogância! As proezas dos filhos não devem ser devidas aos pais, eles merecem o mérito próprio. Nunca Deus se daria ao trabalho de o reconhecer, mas as palavras dos mestres superaram as suas expectativas iniciais. O talento com que manobravam os rebanhos de palavras folhas fora, era a eles devido, filhos pródigos de um Deus menor. Pelo menos dessas palavras ninguém duvidava, transparentes que eram sobre a solidez do papiro. Que haja uma revolução e os mestres ocupem o lugar deste Deus enfezado pelo tempo.
As suas palavras nunca eram tão grandiosas, mesmo que lhe dissessem o contrário. Nunca ecoavam como um trovão em pradaria, nunca iluminavam como uma candeia em noite escura. Eram palavras amorfas, pouco mais do que óbvias e quando assim era já não era mau. Escritas no papel, raramente eram mais do que borrões de tinta. Por vezes, ao serem ditas, pareciam ganhar alguma alma, mas era a custo. A maldita pontuação às vezes só atrapalhava, se ao menos a pudesse dispensar…
Maldito o Deus das lotarias!
Maldito ele próprio, esmagado pela admiração dos mestres que mirravam e aumentavam, alternadamente, as suas vistas!
Pensou que à força de as proferir conseguiria chegar mais perto do divino. Triste ilusão: com o tempo as suas palavras apenas ficaram mais roucas. Com o vigor com que as arremessava, foram ficando cada vez mais vincadas no papel, presas ao papiro enquanto este durasse. Depois, amarelecidas pelo tempo, acabariam por se desvanecer num murmúrio surdo. A pontuação estava cada vez mais em todo o lado. As folhas eram estradas repletas de sinais de trânsito e polícias sinaleiros que diziam por onde ir. Nenhuma ultrapassava os limites de velocidade, obedientes.
Enquanto o seu punho enrijecia, as palavras continuavam fracas. Por vezes a chama das metáforas parecia aceder algumas, mas era chama de pouca dura. Logo a seguir voltaria a ficar encurralado pela evidência bacoca.
Pensou que o tempo e a pratica o ajudariam a aproximar-se do colo de Deus, mas a frequência com que as discorria folhas fora apenas servia para reforçar a máquina que nem assim ficava mais oleada. Uma máquina que foi ficando monstruosa, ocupando cada vez mais espaço na sua alma, ganhando-o aos poucos laivos de campos verdes e pores-do-sol que lhe restavam.
Com o passar do tempo, rendido pelas evidências, preocupou-se com as palavras que o acompanhariam no túmulo. Tinha perdido as ambições com o embranquecer do cabelo, mas nem por isso deixou de lidar com as palavras. Porém, as suas ambições agora eram outras. As palavras tinham-se apenas tornado companheiras de viagem, e já não pretendia com elas, mudar o mundo. Apenas trocavam confidências entre si, murmuravam histórias do passado como quem revisita fotografias. As palavras e ele próprio estavam mais cúmplices, conformados com o facto de não poderem deixar de ser terrenos.
Mas as palavras na lápide causavam-lhe alguma angústia. Não teria ele o ensejo de as escrever? Seriam tão ocas e secas quanto todas as outras, mas ainda mais visíveis por estarem agora gravadas em mármore?
Não lhe seria dada a honra de as ver escrita por nenhum dos mestres. Não, esses continuavam preocupados em entreter um Deus que o via passar pela vida sem nunca ter conseguido causar um arrepio pelas palavras. Malditos sejam todos!
Por isso teria de ser ele a tratar do assunto. Ocas por ocas, pelo menos que fossem dele e não retiradas de um qualquer catálogo mortuário.
A partir do momento em que sentiu esta angústia, não mais parou de pensar sobre o assunto. Todas as outras palavras foram desistindo da convivência, apesar de lhe acenarem de vez em quando. Ele deixou, com o tempo, de querer saber delas. Apenas o epitáfio o consumia. A sua vida podia ter passado ao lado de Deus, mas quando fosse forçado a visitá-lo levaria alguma coisa consigo para o impressionar. Nem que lhe tivesse de atirar o mármore à cara.
As palavras do epitáfio passaram a ser a sua comida e bebida, enquanto o ambiente ganhava os contornos das trevas.
As palavras que o abandonavam não pensavam regressar. Finalmente soltas, poderiam procurar outras frinchas por onde se entranhar.
Sem dar por isso, a sua dedicação ao tema fez com que vivesse para além da sua geração. Outras foram aparecendo e se extinguindo e ele permanece em busca das palavras que o acompanharão até ao além. Esta demanda não era a razão da sua vida, mas tornou-se sem dar conta, na razão da sua morte. E à medida que o tempo vai passando e as palavras o vão abandonando sem cessar, vai achando que está condenando a permanecer eternamente neste limbo literário.
Deus, esse mantém-se distraído deleitando-se à conta dos mestres, que não param de aumentar. Malditos sejam todos!

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Bruxa


Caixa

Guarda o nosso último beijo numa caixa. Não é que seja o último, mas nunca se sabe…
Fecha a caixa, por enquanto. Coloca-lhe uma tampa e à sua volta, enrola uma fita como que se de um presente se tratasse.
Gostava que guardasses a caixa junto das outras coisas que guardas com carinho, mas essa é uma decisão que apenas tu podes tomar. Simplesmente espero que o faças, mas percebo se decidires guardá-la no sótão, junto das outras tralhas que aguardam a altura de desaparecer. Se calhar era o que eu merecia, não sei. Mas na caixa não estou eu, está o nosso último beijo. Não é que seja o último, mas nunca se sabe…
Se te puder influenciar na decisão, coloca a caixa num sítio onde a possas ver de vez em quando. Nem que seja para recuperares, quando for caso disso, a lembrança do momento em que trocámos partes de nós.
Pensei que talvez uma estante perto da janela fosse um bom sítio para a colocares. Assim fica arejada e consegues dar com ela facilmente. A luz vai fazer com que o nosso último beijo se mantenha quente, como na noite em que o partilhámos. Não é que seja o último, mas nunca se sabe…
Por agora mantém a caixa assim, fechada com um laço vistoso e à mão de semear. Não sei se a hás-de abrir alguma vez, mas isso para já não importa. O que está lá dentro já é teu e não o quero de volta. Caixas dessas tenho eu aos montes.

O dia seguinte

Passo pelas tascas nas vielas onde o Sol teima em não entrar. Mesmo ao lado, exulta em todo o seu esplendor iluminando as colinas que se vêem à vista desarmada. Mas aqui a sua força arrasadora parece, mesmo assim, não conseguir ser suficiente para forçar a entrada.
Passo pelo peixe à porta dos restaurantes, inerte por cima do gelo já carmim.
Há velhos de boinas na cabeça e camisas abertas até ao umbigo, presos às imagens que não conseguem apagar de memórias de espaços que deixaram para trás no seu percurso. Procuram o cheiro das giestas e do centeio estorricado ao Sol, mas aqui apenas cheira a vomitado da noite passada. Passeio por entre esses resquícios de bebedeiras, pelo mijo nas esquinas e a merda de pombos que dá um tom colorido ao empedrado.
Aqui ou ali as poças de água choca ajudam a dar um ar ainda mais sinistro a este ambiente, onde alguns dizem ouvir o Fado só de olhar para as guitarras em repouso.

Tudo está como eu deixei.

Um corcunda assenta um pé em cima de uma caixa de engraxador e invoco imagens que julgava já ter esquecido. Terei recuado no tempo?
Mais à frente uma pedinte debruça-se na minha direcção, ao ver-me passar. Faz olhos de carneiro mal morto enquanto estende o braço esburacado e põe o rabinho entre as pernas. Desvio o olhar em direcção a uns turistas que tiram fotos às fachadas enegrecidas dos prédios.
Nos meus ouvidos o Jack White grita feito um louco, mas tenho os auscultadores tão enterrados que consigo sentir no peito o bater dos pés no empedrado colorido dos pombos.

Nas ruas mais apertadas sinto os graffitis que inundam as paredes colarem-se à minha pele. Tento esfregá-la a ver se saem, mas apenas os enterro em camadas mais profundas. Agora vão ficar aqui para sempre, tatuados à força, imagens sem sentido.

O calor sabe bem, mas não devia ter vindo de preto. O Sol entra pela roupa dentro sem pedir permissão, apenas não entra nas vielas apertadas onde os velhos de boinas continuam a beber vinho tinto.

Reconheço tudo, não tenho surpresas. Apenas o Fado me escapa, as guitarras não me soam, inertes, mas espero que seja só por enquanto.

Ao sair passa por mim o carro do lixo, mas já passa tarde demais.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Bola de cristal

Não me pediste para o fazer e se calhar não o devia ter feito. Apenas foste querendo dar algum espaço, pé ante pé, como quem espreita a medo pela janela do vizinho. Mas não consegui resistir a olhar para dentro da bola de cristal. Chama-me curioso, perverso, chama-me nomes que eu estou por tudo…

Não me pediste para o fazer e se calhar estou a meter-me por caminhos tortuosos. Mas não resisto a dizer-te o que encontrei lá dentro, entre as brumas que me procuravam ofuscar a visão. Serias tu com os teus bruxedos a fazer elevar o manto sombrio da neblina? Isso não consegui ver…
Mas dissipada a opacidade da esfera, conseguida à custa de uma maior concentração, lá fui descobrindo ponto a ponto quem tu és, juntando-os como fazia antigamente nos livros de passatempos que o meu avô me trazia no final de cada dia.


Não me pediste que o revelasse e se calhar estou a abusar da confiança. Mas houve alguma coisa que me preocupou quando descortinei os sinais com que a bola agredia o meu olhar. Percebi que te sentes enganada, profundamente enganada e que isso te magoa como se uma coroa de espinhos estivesse cravada no teu rosto. Senti que em algumas alturas achas que mereces padecer dessa dor, que castiga a tua inocência e credulidade. Percebi que não só sentes por vezes o peso do mundo nos teus ombros, mas que procuras a tempos juntar-lhe mais uns satélites e astros solares. És como um buraco negro propenso a atrair os males do universo no teu peito.

Não me pediste para fazer parte e se calhar apenas resolvi entrar por ti a dentro. Mas não tenho como resistir a um céu estrelado, misterioso e que me inspira a pensar sobre mim próprio. Curiosas as coisas que descobri sobre mim quando procurei desenhar o teu destino na bola de cristal.

Não me pediste mas vou ter de o dizer, coberto pelo conforto do anonimato e pela adrenalina do risco. Vou ter de te dizer que vi muito mais do que mostras e mesmo o que não vi, adivinho. À medida que as imagens se tornavam mais claras, parecias-me sempre maior. Cheguei a um ponto em que pensei que ias saltar para fora da bola de cristal. Acho que desejei que isso acontecesse. Queria ver-te tornares-te maior que a sombra fria e previsível que projectas no chão. Queria que vomitasses todos os corpos celestiais que tens engolido por achares que devias. Manda-os às urtigas!!! Excreta pelos poros todos os resíduos que te obrigaram a beber, à força.

Não me pediste para ser tão frontal mas acho que a razão pela qual decidiste dar tanto aos outros foi única e exclusivamente para ver se recebias alguma coisa em troca. Mas os outros foram achando que abusar de ti, da tua inocência e credulidade, era um direito que lhes assistia. Manda-os pastar!!!
Pelo meio do caminho esqueceste-te que as pessoas procuram mais aquelas que estão no pedestal do que as que se oferecem para o sacrifício. Vêem-se melhor lá do alto. E tu tens tudo para lá estar, a olhar em frente para a tua vida e de costas para as ilusões que criaste outrora.

Não me pediste para te dizer nada disto, mas preciso de te contar uma coisa mais. Quando olhei para a bola de cristal pareceu-me ver um vulto de mim próprio. Estava lá escondido, por detrás da bruma, como que num estado de suspensão inanimada. E não pude deixar de pensar que posso ser mais um espinho na coroa que te rasga a carne até aos ossos. Receio que o bem que te faça tenha o gosto amargo do fel, e que me procures encontrar por entre a neblina apenas porque achas que posso alimentar o teu desejo insaciável de dor. Receio que quando te convido para te deitares a meu lado, fiques a olhar de baixo para o pedestal quando eras tu que lá devias estar.
Salta para fora da bola de cristal pois o teu destino não pode estar confinado a um espaço tão pequeno. Manda bugiar todos os que te fazem sentir que o tempo é algo que te atravessa a pele deixando rasto.
Manda-me bugiar a mim!!!

domingo, 8 de julho de 2007

Viagem de autocarro

Imaginem um cenário em que a surpresa habita um lugar escuro e profundo, nos confins da Terra. Tudo parecia em harmonia como num quadro de uma natureza morta pintada a cinzento.
Os candeeiros apontavam para o chão despreocupadamente, não querendo saber dos espaços entre eles a habitar na penumbra. Apenas emprestavam um pouco do seu manto luminoso, a ponta que não chega para tapar a cabeça e cobrir os pés ao mesmo tempo.
Os carros iam passando, tal como noutra noite qualquer. Seguiam autistas pela estrada desafogada emitindo os grunhidos habituais, protestando por não serem donos do seu destino.
Às vezes folhas inteiras de jornal bailavam no ar como que manipuladas por seres etéreos.
Apenas isto se passava. Era uma noite igual a tantas outras.
Nem sinal de profecias ou oráculos. Por detrás das esquinas, mesmo daquelas que não se viam da paragem de autocarro, não pareciam habitar segredos. A luz escassa não fazia imaginar prenúncios disfarçados na escuridão.


Ela estava encostada ao ferro frio, que não se fazia sentir sobre o casaco forrado. Estava à espera já lá iam uns minutos. O tempo da espera descontava-o à sua vida, nestas noites que se sucediam desde que passou a frequentar a casa dele regularmente. Era um tempo sem sentido, inútil, uma ponte entre um momento e um outro. Nada mais do que um instante destinado a esfumar-se na memória.
Quando levou as mãos à cara sentiu ainda o cheiro do sexo dele. Um cheiro que lhe pareceu o de terra molhada cortado pelo aroma de medronhos maduros. Apetecia-lhe deixar os dedos junto do nariz, lambê-los, não fosse o embaraço.
Vivia a experiência dos sentidos com o vigor da descoberta. Não tinha a certeza do que sentia ao despertar em si a memória da última hora, entre afagos e suor gritado com o poder das entranhas. Preferia focar-se na surpresa da revelação que o cheiro lhe causava.
Um homem passou por ela e lançou-lhe um olhar furtivo. De onde teria surgido? De que intervalo entre os candeeiros terá tomado forma?
Ficou a pensar se o homem, que entretanto seguia o seu caminho entre a vereda, não teria visto estampado no seu rosto o deleite que sentia ao cheirar o sexo dele nos seus dedos. Pouco importava…

O autocarro demorou mais uns minutos até chegar. A ponte entre um momento e um outro finalmente parecia querer encurtar.
Passou pelo motorista como se este fosse mais uma peça da engrenagem, como se ali não estivesse ninguém.
Procurou um lugar ao fundo. Apenas estavam algumas pessoas e os lugares vagos, ao vê-la passar, não reclamavam possuí-la. Pareciam compreender que ao tomar o lugar do fundo, longe dos olhares dos outros passageiros, poderia continuar a sentir o perfume dos medronhos.
A viagem prosseguiu quando o motorista voltou a arrancar. Estava silencioso o autocarro, tal e qual como nas noites anteriores desde que começou a frequentar a casa dele regularmente.

Algo cobriu o seu espírito com a violência das águas livres pelas comportas da barragem. Levou os pensamentos em turbilhão, corrente fora, serpenteando pelas margens do seu espírito em direcção à foz. A um mar tingido a vermelho sangue, cheiro fétido de cisterna apodrecida.
Quando deu conta o prenúncio arrebatou-a. Estaria, afinal, à sua espera por detrás de uma esquina?
Sentiu que morria. Aliás, não sentiu. Soube para lá de qualquer resquício de dúvida que aquela seria a sua última viagem de autocarro, e que o destino a que se propunha chegar não seria outro que não o final. Jamais tocaria o sinal para que o motorista estancasse o autocarro na paragem pretendida. Jamais sentiria novamente a aragem da noite em todo o seu esplendor, invadindo-a por completo.
Ficou surpreendida com a tranquilidade com que reagiu à revelação. Morreria naquela viagem de autocarro. Não de uma forma dramática que enchesse as parangonas dos jornais nos dias seguintes. O motorista e os outros passageiros podiam ficar sossegados, pois a foice apenas apontava para ela.
Simplesmente se apagaria deixando de gozar os sentidos que agora tanto a haviam surpreendido. Tombaria nos bancos em seu redor, num estalido seco de tronco podado em terrenos de asfalto.
Não lhe afligiram as ideias de que o seu destino ficaria por cumprir. Deixar-se ia perpetuar na Primavera, condenada a não ver chegar o Verão.
Não procurou razões para se arrepender e buscar expiações de última hora. Terminaria a sua viagem com as bagagens que tinha, sem mais nem menos. Sem rodeios nem receios, sem dramas.
Afinal sempre soube que este momento era certo, apenas indagava sobre a generosidade que o tempo lhe concederia. Revelava-se finalmente, anunciando que permaneceria apenas para os outros passageiros do autocarro e para o motorista. Para ela o tempo acabou. Seria a última ponte que atravessaria.
O destino cumpria-se finalmente, dando-lhe uma sensação de perspectiva totalmente nova. A revelação colocou-a no sítio: ela era um pó no espaço infindo, um sopro fugaz no meio do tornado. Coisa assim não prevalece, não faz sentido que prevaleça. Serve apenas para ser manipulada a belo prazer do acaso.
Ela sempre suspeitou que a sombra da morte se revelaria como um toque ligeiro no ombro. Seria cruel retirarem-nos a hipótese de darmos conta do final da história, o único capítulo que sabemos como termina. E agora era o ombro dela que sentia o sinal da partida, aquele sinal que nos faz voltar a cabeça sem pensar e que nos condena.
A ideia de ser pó confortou-a. Pior seria ser galáxia.
Entregar-se ia nos braços da morte como Isaac se entregou a Abraão. Sem o desejar mas conformada.
Passou a mão pela cara e invadiu-a a sensação de ainda estar viva. A lembrança que os seus sentidos registaram valia por toda a eternidade.
Deixou-se estar sentada à espera, enquanto o autocarro seguia, autista, estrada fora.
Por vezes olhava pela janela e contemplava o manto negro da noite polvilhado de candeeiros obedientes e imóveis. Apenas as luzes pareciam baloiçar como as folhas de jornal levantadas pelo vento.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Correntes de ar

Não me peças para explicar, mas qualquer coisa me impele a abrir-te a porta. Não precisas de pedir permissão ou limpar os pés: para ti não há capachos pois as marcas que deixas são bem vindas. Não me peças para explicar pois encontrar explicações é algo que consigo fazer cada vez menos: mais fácil do que congeminar teorias é abrir-te a porta.
Não precisas de bater. Um leve toque das tuas mãos chega para a afastar da ombreira e por vezes com tanta força que não há batente que valha.
Há qualquer coisa que me faz desejar que entres. Não sei se é porque quero que vejas o que está cá dentro ou se é por sentir que és curiosa. E por essa razão não sei se o desejo para o meu bem ou para o teu. Mas entra, sente-te à vontade, como se morasses cá.
Não estás a entrar num sítio qualquer. Não porque seja especial ou profundamente diferente de outros onde já tenhas estado. O que o distingue é apenas o facto de ser um sítio pouco visitado. Não porque não tenha havido quem o tentasse fazer, mas normalmente encontravam as portas fechadas a cadeado. Se calhar batiam primeiro a pedir licença, e as portas reagiam condicionadas e fechavam-se a sete chaves. Tu não pedes licença: apenas encostas a mão com os olhos já lá dentro.
Parece que as portas se abrem em cadeia, como as peças de dominó que sincronizadas arrastam outras atrás de si. E quando dou por isso está tudo escancarado.

Não deixo de pensar que perante tantas divisões te podes por vezes sentir como estando dentro de um labirinto. E não sei se ao contrário de Adriadne, te esqueceste de atar um fio à entrada principal para não te perderes.
Queria que soubesses que me preocupam as correntes de ar, pois não quero que nada de mal te aconteça. Gostava de poder controlar os fluxos mas na maior parte das vezes o máximo que consigo fazer é pôr-te um xaile sobre os ombros. E não sei se isso será suficiente.

Acho que às vezes não me limito a abrir-te a porta mas também te empurro lá para dentro. Às vezes o batente não sustenta o embate apenas porque sou demasiado violento. Não é por mal, mas entre a resistência das dobradiças e falta de hábito, os meus movimentos tornam-se desconexos e atabalhoados.
Estou sempre a dizer-te que ao abrir-te a porta te estou a convidar a invadir propriedade privada. Enquanto exploras o espaço não dou conta, mas se desse e se andasse à tua frente enquanto te deslocas pelas salas e pelos quartos, colocar-te-ia um cartaz à frente dos olhos a dizer “Proibido passar”. Sou o proprietário de um espaço que está alugado e por isso deixar-te entrar não é justo. Mas é o que me apetece fazer e não me peças para explicar porquê.

Não sei quanto mais tempo as portas se vão abrir. No final talvez apenas sobrem as ombreiras ou então decida tapá-las com tijolos. No final talvez despeje o inquilino e te convide a ficar de vez ou transforme os halls de entrada em campos minados para que não voltes. Não sei o que vai acontecer no final e para ser sincero não sei se isso me importa. De cada vez que o tento prever sinto que há uma porta que se fecha e para já apetece-me que se mantenham abertas.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Aroma

Se calhar as coisas resumem-se a uma simplicidade que nos custa atingir. Se calhar perdemo-nos em conjecturas vãs, sem sentido, apenas à procura de complicarmos o que é simples. Demasiado simples... Se calhar é por não querermos ver o que é obvio, ou então porque recusamos ver o que parece ser demasiado fácil. Provavelmente é mais estimulante ir à procura da escuridão do espaço, que se esconde por detrás do óbvio azul do céu. E teria o mar tanto encanto se não soubéssemos que encerra segredos inconfessáveis? Se calhar exaltamos demasiado a nossa racionalidade, a nossa marca registrada no Mundo. O que nos faz gabar de sermos diferentes, afinal pode ser a barreira que nos impede de atingir a exultação dos sentidos. Criamos teorias e filosofias; criamos Deus e a Ciência; procuramos por detrás de cada porta, por debaixo de cada pedra, a solução para a nossa angústia de morte, que a própria razão criou. Funcionamos como alquimistas da mente, combinando os elementos à procura de uma porta aberta para a salvação. E até agora apenas conseguimos morrer nos hospitais, escapando desta forma brilhante ao curso normal da natureza... que grandes conquistas as nossas! Se calhar supomos que a nossa convivência se deve a uma procura incessante de reflexos de nós próprios. Como que se a complementaridade ou a igualdade funcionassem como fiéis de uma balança que nunca se desequilibra. E seria por isso que é tão fácil verbalizar as emoções: ou somos um eco do outro ou então a peça que faltava de um puzzle incompleto, como se tudo na vida e nas relações entre as pessoas fosse possível e as alternativas não acabassem.

Ou então se calhar, nada disto é assim...

Posso perder-me em construções racionais que justifiquem o que sinto. Faço-o frequentemente, especialmente quando quero despoletar sensações à distância. E acreditem que todas elas fazem imenso sentido e serviriam para argumentar todos os laços que tenho e os nós que vou desapertando. Mas consigo achar que posso estar enganado quando evoco esses pensamentos. Quando sinto o teu cheiro, estremeço ao pensar que afinal tudo se pode resumir ao mais primitivo em nós. Ao mais básico e primordial, remetendo-nos para uma ancestralidade que à força queremos esquecer. Quanto tudo pode ser tão simples e natural! Sobretudo, natural... e o assombro de achar que é demasiado frágil sustentar o que sinto tão fortemente, com a fragilidade de um aroma, é ultrapassado quando realizo que o teu cheiro é tudo o que tu és. O que se cria desta forma é mil vezes mais forte do que o que se sustenta em pilares de consciência, erguidos em fundações de contradição. Gosto cada vez mais de me tornar visceral, sabendo que isso me torna mais humano em essência...

O Segredo

Encostei o ouvido à parede do meu coração na esperança de ouvir o outro lado. Alguma coisa deve soar para lá do que é óbvio, para além do ritmo cadente da sua pulsação. Só pode!
O segredo das conexões. O mistério das profundezas. A dúvida por detrás do sobressalto.
As coisas confusas e difusas com que tem de lidar devem significar algo mais do que a carne e o sangue. Algo imaterial, próximo do divino.
Se calhar o segredo do Big Bang está encerrado no coração. Explicar o começo de todas as coisas é falar de um determinismo tão abstracto (estranha condição) como o que parece coordenar o fluir dos sentimentos.
Tentei escutar para ver se me dizia algo para além do lógico. Procurei reunir as melhores condições: estava disposto a arriscar e a comprometer todas as outra funções vitais para me lançar nesta empreitada. A luz a meio gás, a janela fechada, o sofá a segurar-me por debaixo.
Não consegui ouvir nada de especial na primeira vez que tentei. Aliás, pareceu-me que mesmo o expectável pulsar se tinha extinguido, condenando-me a ficar nesta ignorância até ao final dos tempos.
A ansiedade da revelação conseguiu ofuscar os meus sentidos e tive de recomeçar tudo de novo. E mais uma vez. E outra.
Não sei quanto tempo levei até perceber o que o outro lado me tinha para dizer. As vozes que ecoavam, em turbilhão, estavam roucas de tanto gritar.
Duvidei se vinham mesmo do outro lado do coração ou se eram apenas vozes na minha cabeça. Estarei a ficar louco? Será que se cumpria finalmente a profecia que imaginei no crepúsculo do meu florescer, quando adivinhava que a VERDADE apenas procurava não revelar-se para nos proteger da demência?

Não.

As vozes vinham mesmo do outro lado do coração.
E contaram-me o segredo das conexões. O mistério das profundezas. A dúvida por detrás do sobressalto.

Mas como de um segredo se tratava, vou ficar com ele só para mim.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Mergulho

Queria que soubesses umas coisas. Que te deixasses mergulhar sem receios no teu mar interior e que procurasses ver o fundo. Mesmo que leves apenas uma lanterna e as águas estejam turvas, procura tocar na areia. É profundo o mar, mas a água está quente. As ondas apenas existem à superfície, e por isso tanto faz que o mar esteja calmo ou que as vagas sejam imensas. A nortada fica lá para cima, onde faz frio e onde a cor ainda é importante. Aqui em baixo, a cor é quase sempre a mesma, muda pouco com o passear do Sol pelas alturas.
Não ligues muito aos peixes que parecem brincar contigo, acenando as suas pequenas caudas como que a te convidarem a apanhá-los. Por vezes vais sentir as correntes a querem levar-te, mas não te preocupes: o objectivo é ir até ao fundo, não importa se mais à esquerda ou mais à direita.
Vais sentir que os ouvidos parecem gritar (não era suposto apenas ouvirem?). Vais sentir que o peito por vezes aperta, enquanto estás na expectativa de ver o chão. Vais sentir que a água faz arder o canto dos olhos e entra por ti a dentro sem dares conta. Não faz mal. O teu corpo não serve para nada nesta viagem. Apenas lá está para lidares com ele, como o veículo que te ofereceram para te levar ao teu destino. Mas é o destino que interessa, o meio para lá chegares é apenas uma fatalidade.

Vai descendo.
Já chegaste?

Primeiro sente nos dedos a areia a escorrer. O tempo parou cá em baixo. O que vez parece passar ao lado dos anos, tudo está calmo e o silêncio faz-te duvidar se não estarás num cenário irreal.

São assim as profundezas?

Porque será que, então, tantas vezes temos medo de cair?
Percebes agora o apelo da vertigem. O magnetismo da queda. Percebes agora porque tantas vezes o nosso cérebro nos impele a cair, mais vezes do que nos sugere que andemos em frente, em direcção ao horizonte. O horizonte afinal não serve para nada, o horizonte é um flop, uma visão irrealizável. O abismo não. A queda cumpre a sua promessa, sem apelo nem agravo. Quando nos largamos no seu regaço, sabemos que não nos vai deixar ficar mal.

Sentes a areia a passar-te por entre os dedos?

Estás na água já há algum tempo, mas agora finalmente experimentas a sensação de ter perdido o peso, enquanto baloiças, ora com os pés na areia ora apenas a pincelá-la com a ponta dos dedos.
Estás completamente só. Quando estás lá por cima, a solidão causa em ti um efeito estranho. Os outros falam-te de medo e de angustia, mas quando estás só apenas sentes culpa. Uma culpa que te aperta o esófago à passagem da comida. Uma culpa que se nota no teu corpo que se transforma sem dares conta, tornando-te estranhamente mais gutural e repelente.
Sempre te pareceu estranha esta sensação que te mirrava sem que fosse por te sentires menor. Que por vezes trazia a comoção do choro sem te sentires triste. Tão diferente dos outros…
Achavas curioso tal sentimento mas nunca fizeste muito por satisfazer a curiosidade. As ondas do mar, lá em cima, serviam sempre para te entreteres. Nunca estiveste disposto a mergulhar, como agora. E agora que voltaste a estar só, pareces ter deixado a culpa a meio do caminho.
A vertigem grita por ti de cada vez que te aproximas do abismo. Mas para te deixares cair, é preciso ter coragem. Uma coragem que te foi faltando e que te fez preferir dar sempre mais atenção ao horizonte. O horizonte que se mantinha sempre igual, mesmo quando olhavas para trás.
E à tua volta estiveram sempre pessoas, às vezes multidões, às vezes apenas almas penadas.


Para que não te sentisses culpado.

As pessoas precisaram sempre de ti. Sugavam-te até ficares seco como uma casca de árvore velha. Levavam-te os sorrisos, os embalos, as palmadas nas costas. Levavam-te a energia, a força que fazias questão de ter sempre disponível. Sentias que te viravam as entranhas do avesso à procura de tudo o que pudessem levar. E quando já não tinhas nada, ainda perguntavas se estavam bem servidos.
Não sei o que te fez achar que a missão era a de te esvaziares para os outros, mas isso deve ter-te feito pensar que és especial, desejado. Nem vias que apenas te alimentavas do estupro a que eras sujeito como um alarve, . Como um masoquista, aproveitavas a violação para te sentires amado.
E nunca quiseste perceber porquê.

Talvez porque a única coisa que nunca te levaram foi o amor próprio.
É claro que a violência a que te sujeitavas raramente causava sofrimento. Doía mais a ressaca da sua ausência. Como se as costas surgissem marcadas de cada vez que penduravas o chicote, em vez de sangrarem com as vergastadas. Mas a dor não te mandava abaixo. O pilar a que te seguravas para aguentar o embate, eras tu próprio. Por vezes esboçavas sorrisos quando sentias a carne rasgar, porque o gozo que os outros tinham na proeza de te despojar de tudo era um engano: tu é que tinhas deixado a porta aberta.

Qual mérito?
Qual conquista?
Os roubos de mão beijada são oferendas, não proezas.

Mas agora estás no fundo do teu mar interior. E estás só.
A ressaca que te provocava culpa, não se sente, imerso debaixo da água.
Decidiste arriscar para concluíres que o horizonte não desaparece apenas porque tu deixaste de o ver. Agora és apenas tu, enquanto as ondas se agitam à superfície. As ondas que nunca vão deixar de fustigar a costa, mesmo que a nortada se extinga.
A areia que escorre entre os teus dedos faz-te sentir vivo. Há quanto tempo não os sentias para além da sensação de estarem ligados à tua mão, que estava ligada ao braço, que estava ligado ao resto de ti? Agora não és a soma das partes, és apenas um conjunto de fragmentos com vida própria.
Descobres na escuridão que te envolve que existe uma luz de cada vez que fechas os olhos. E esteve lá sempre, mesmo quando apenas flutuavas ao sabor do vento. Finalmente encontras a coragem de olhar para ela, apesar de no teu íntimo, teres sempre suspeitado da sua existência.
Gostavas de poder apanhar a luz, mas ela é tão imaterial como todas as luzes que já viste. Mas anseias por a agarrar com a tua mão, a apertar entre os teus dedos e subir à superfície com ela.
Tiveste de vir tão longe, tão fundo, quando tudo o que precisavas de fazer era fechar os olhos para contemplar este clarão.
Esta luz fez-te pensar no que alguns diziam sobre a morte. Mas em vez de suspeitares que Deus estaria por detrás disto (qual Deus?), nunca duvidaste de estar vivo. Não sentias estar perante uma revelação, mas sim defronte de algo que sempre esteve à tua espera.

De mão beijada.

Desta vez era para ti que a porta se abria.

E a transcendência da experiência era por isso uma coisa banal.
Não era uma proeza.
E a luz ajudou melhor a ver o contorno dos teus dedos e o reflexo que alguns grãos de areia irradiavam ao voltar para o fundo quando por eles passavam. E parecia penetrar pela tua mão, dando-te a ilusão de ser transparente.
Não podias levar a luz contigo. Isso já sabias. E também sabias que ela sempre se encontraria ali. Bastava mergulhar.
E voltaste a pensar nas ondas, e no horizonte, e na nortada que enregelava até aos ossos.

Quando começarás a sentir os efeitos da ressaca?
Quando se iniciará a metamorfose que te vai fazer encolher, mirrado pelo peso do remorso?

Pensas em regressar.

Mas será que vais perder para sempre a luz? A luz que encontraste num sítio escuro como o breu?

Agora precisas é de coragem para regressar. Retornar ao mundo da gente, daqueles que estão corrompidos no vício de te sanear.

E então decides arriscar.
Novamente.

Sabes que o fundo estará sempre à tua espera, para quando quiseres ver novamente a areia a passar por entre os dedos. Basta deixares-te levar pelo apelo da vertigem. Mas de alguma forma sentes que não vais precisar de vir cá tão cedo.

Começas a subir.

As cores vão regressando lentamente e o peso no peito diminui, à medida que voltas a sentir o baloiçar das correntes.
Quando chegas cá acima, as ondas batem-te na cara.

Terão passado apenas minutos? Terão passados anos?

Quando abres os olhos vês que à superfície estão milhões de pessoas, flutuando sobre as águas, de mão estendida para ti, como que te querendo ajudar a sair da água.

São tantas, que o horizonte deixou definitivamente de existir.