terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Tatoo

Por entre o corrupio desenfreado das memórias dos odores e das cores que pintam o teu rosto de azul celeste e carmim e dos sons que os meus dedos provocam em ti como se dedilhassem as cordas da tua alma as teclas no teu íntimo as palhetas do teu corpo recordo aquele ser que pousou sobre a tua pele atraído pelo cheiro que podia ser o das flores da primavera e que o iludiu numa atracção irresistível que eu percebo tão bem que esse ser podia ser eu fui eu aliás que também tantas vezes me colei à tua pele como agora está ele mas com a diferença de que ele jamais te vai abandonar ao passo que eu te abandono por tudo e por nada e sobre a tua pele desapareço tantas vezes quanto as que desejo ficar colado a ti até os nossos corpos se fundirem num calor dos infernos que nos derreta e espalhe pela cama e pelo chão quem nós somos de verdade esse ser tem toda a sorte do mundo por poder permanecer poisado em ti para além do tempo e poder ver-te crescer e tornares-te senhora do mundo tu que és maior do que o espaço que ocupas

Percebo as suas formas os seus contornos a forma curiosa como parece perscrutar a tua silhueta e apenas rogo que te agarres às suas asas e te deixes levar por esse céu imenso lá em cima vais encontrar a minha cabeça de sonhador inveterado que pode não estar contigo quando ambos temos os pés no chão mas que flutua muitas vezes na tua direcção e que sabe que é no nevoeiro do etéreo que damos o melhor de nós longe das coisas terrenas que apenas servem aqueles que não vêem para além do que alcançam os olhos

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Montanha

Chegou ao topo da montanha depois de uma escalada longa e dolorosa. Trazia nas mãos as marcas do esforço de puxar pelo seu corpo vencendo a atracção do centro da Terra, e nos joelhos começavam a formar-se pequenas crostas de sangue seco, das vezes em que ia de encontro às rochas.
A roupa foi-se rasgando pelo caminho e agora conseguiam ver-se os contornos das suas pernas, os pêlos eriçados sobre os músculos tensos do esforço que o conduziu até ali. A camisa estava por fora das calças e baloiçava ao ritmo do vento que lá em cima era mais frio. Estava suja de terra e lama, numa aproximação a um tipo de camuflado natural.
A simbiose com a montanha foi aumentando com a escalada: confiou única e exclusivamente nela para que o protegesse e o fizesse chegar até ao topo. A certa altura, a meio do caminho, sentiu como se ela abrisse os braços para o receber, indicando-lhe os trilhos mais favoráveis de ser calcorreados. Sentiu-se mergulhar nas suas entranhas mesmo tendo claro que nunca deixou de roçar senão a superfície. Mas as marcas que a montanha deixava nele fizeram-no estremecer por vezes, sempre que perdia a noção completa dos seus contornos e começava a confundir os seus limites com as ervas e o musgo sobre as rochas, os líquenes que coloriam as sombras eternas de algumas colinas e a terra acastanhada com cheiro a vinho seco e quente.
Foi por pretender entregar-se aos desígnios da montanha, que decidiu não levar consigo quaisquer utensílios ou ferramentas. A montanha decidiria o que fazer com ele. O caminho tinha de ser completamente honesto, não havia volta a dar. Se cair fosse o seu destino, cairia de bom grado. Não valia a pena deixar-se enganar pelas intenções falaciosas dos subterfúgios. A montanha poderia fazer dele um joguete, um peão do seu tabuleiro pronto a sacrificar-se por um bem maior.
Não o fez por querer afrontar a montanha ou fazer valer a sua determinação. Fê-lo porque confiava nela, apenas confiava nela. O desejo de a escalar e deixar-se entregar às alturas era a força suficiente para pôr tudo em risco, mesmo a sua própria vida que sentia ser cada vez menos sua à medida que ia caminhando em direcção ao céu. Era esse o desígnio da escalada: entregar a sua vida à montanha, quer isso significasse morrer durante o trajecto ou manter vivo o seu corpo para que se tornasse dela.
A montanha não o deixou ficar mal e recompensou a sua confiança. Ao fim de um tempo que lhe pareceu menor do que fora realmente, atingiu o cume almejado.
Pensou que iria dar mais pela falta de oxigénio pois continuava a respirar normalmente como quando estava lá em baixo, mas depois deu-se conta que já entre os seus vales por vezes lhe faltava a respiração ao sentir-se arrebatado pela sua beleza, pela imponência e a elegância com que trespassava as nuvens namoradeiras que a visitavam sem parar. Desejou tantas vezes ser nuvem e poder roçar-se no seu corpo que a sua cabeça flutuava, realmente, e o levava até aos picos mais distantes onde se deleitava no regaço das cordilheiras. Acordado, sentia a textura da erva massajar-lhe suavemente os pés e o cheiro das pequenas flores que decoravam o seu corpo; a dormir, muitas vezes acordava molhado pelo toque dos glaciares que o visitavam de noite, assombrando o seu sono descansado, passando os dedos gélidos nas suas costas queimando-as com o rigor dos Invernos mais sombrios.
Já no cimo da montanha decidiu sentar-se sobre um precipício e admirar a paisagem em seu redor. A sua mais delirante imaginação nunca poderia ter suposto um cenário mais magnifico. Sentiu estar a contemplar a essência da beleza, em estado bruto, o arquétipo original que inspirou desde sempre os artistas iluminados pelo toque da genialidade. Não foi Deus quem definiu tal padrão, mas sim esta montanha e a sua paisagem em redor. Por ela terão suspirado os amantes das tripas corroídas pelo ciúme, por ela terão sido evocadas as notas mais belas das sinfonias que a história tratou de preservar.
A beleza da montanha, comprovada pelos olhos que ansiavam tanto tornar-se finalmente testemunhas, fez cair deles uma lágrima, singela quando comparada com a torrente de imagens e sentimentos que o esmagavam nessa altura.
A lágrima não escorreu pelo seu rosto como todas as outras lágrimas que derramara anteriormente. Deixou-se ficar um pouco abaixo da pálpebra, adiando o seu trajecto até se imobilizar de vez. Transformou-se numa espécie de espigão de gelo, numa estalactite inusitada. De repente todo o seu rosto ficou imóvel contagiado por esta vaga de frio que foi tomando conta do seu corpo até o tomar por completo.
A vida que lhe fora poupada durante a escalada tinha sido afinal entregue à montanha conforme previra. Ela reteve-o para sempre, naquela posição, deixando-o a contemplar por toda a eternidade a ideação mais perfeita da beleza. Deu-lhe os tons de azul e branco nos Invernos, e no meses quentes fez a sua pele estalar como casca seca das árvores. Ficou com ele, no seu seio, tomando conta dele até ao final dos tempos. Manteve-o longe do mundo e dos olhares impuros dos outros, e apenas permitiu que o silêncio povoasse o seu sentir. Durante toda a eternidade aquela devoção não viu maneira de ser ameaçada. Os animais nunca se aproximaram para tentar desvendar aquele desconhecido, e as labaredas dos fogos de Verão passavam à margem para que aquele amor permanecesse incólume.
Do alto da montanha ele ficaria para sempre, contra todas as probabilidades e as leis da natureza. Ficaria porque se entregou a um amor incompreensível, a algo que admirava para além dos limites da razão. Tornar-se-ia parte dela porque viver sem o ser seria engano.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Silêncio

São tantas as coisas que quero dizer que não consigo que saia nada cá para fora. Os meus lábios estão paralisados com a dormência provocada pela pressão das palavras por dizer.
São tantas as coisas que sinto que o meu coração não tem mãos a medir, e bate frenético tentando acompanhar em vão o ritmo dos meus pensamentos. Luta por manter a cadência por entre a turbulência dos sentimentos contraditórios que o forçam a compassar as batidas.
São tantas as ideias que me atropelam o espírito que sinto difícil fazê-lo levantar-se de novo, esmagado que está no asfalto pelo peso das reviravoltas, das incongruências, das vontades por cumprir.

Vou deixar o silêncio falar por mim, desta vez. A minha voz vai repousar, renunciando ao impulso de a fazer ecoar por entre os recantos da tua alma. Está a soar rouca agora, fraca nas tonalidades graves que sempre soaram bem perto de ti. Está esganiçada pela secura das lágrimas contidas, oscilante como o ruído do vento por entre os canaviais.
Vou deixar cair o manto escuro do silêncio sobre o cenário. Não há porquê correr o risco de o manchar com esta voz fragilizada, entorpecida pela fraqueza do corpo. Quero que te recordes dela como quando tinha a força de fazer mover as montanhas.

O silêncio vai falar por mim, desta vez.
Os meus lábios apenas vão servir, para já, para te dar o beijo que ficou por cumprir. Estão mudos mas não inertes, e juntam-se na celebração da epopeia que tem sido a nossa história. Uma viagem de descobertas de territórios inexplorados, onde procurámos não ficar apenas deslumbrados com a paisagem mas onde, para além dela, sempre procurámos ver o que havia por debaixo de cada pedra que encontrávamos.
Fica com o meu silêncio, por agora. Mas não me recuses este beijo!

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Calçadinha da Figueira


Estás aí?

Eu não sei o que dizer com medo de me arrepender.
Olho para a frente
Procuro ver algo,
Um beijo perdido algures
Uma carícia, um abraço, um afago.
Gostava de ser um sonhador
Partir para a terra do amor
Largar amarras e voar
E nunca mais voltar.
Para ser sincero, não sei se te mereço
Apenas sei que à noite não adormeço.
Estou sempre à espera que a lua traga luz
Sobre a minha estrada.
Talvez seja tarde,
Tanto faz!
Nem tenho a certeza de ser capaz
De te dar mais do que o meu silêncio
De te oferecer mais do que me dás.
Mas estás aí?
Queres vir até mim?
Então derruba os muros que tenho feito
E tira esta dor que há no meu peito

Momentos

Os meus silêncios perpetuam-se pela eternidade dos segundos custosos de passar, ecoam pela escuridão dos recantos húmidos das vielas malcheirosas, como bestas salivando frenéticas em busca de presas fáceis.
Os meus gritos cheiram a carne posta ao sol a secar, sabem ao sal das marés vivas empurrando as dunas terra adentro.
Sinto mais o bater do coração e em certas noites acordo com o ruído que emite e que faz vibrar toda a cama. Empurra-me para fora dela quando o Sol começa a raiar no céu e impele-me a desfazê-la no reboliço da paixão assolapada.
Nas axilas escorre-me mais emoção pelos poros, às vezes pinga como torrente descontrolada como o choro convulsivo das crianças esfomeadas. Toma forma, ganha cheiro, deve saber a qualquer coisa que não identifico mas que desejo classificar na taxonomia dos sentimentos.
Conto os minutos, conto todos os minutos, não para tentar perceber quantos faltam até ao fim da jornada, mas para saber que estão lá, que ainda estão lá, marcando o ritmo das minhas passadas, remetendo-me a todo o instante para a minha condição de ser comum, banal, que descobriu o gozo da descoberta, da intensidade, que se encontra viciado nos momentos, em vez de condescender à monotonia.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Nascer de novo, vezes sem conta, até morrer

Não dou um passo em falso
Não me atiro ao ar
Nos meus lábios não passam as coisas que eu quero contar


Não levanto a voz
Não me ouvem gritar
Tenho a garganta seca da dor que não pude chorar

Sou capaz de te encontrar numa estrada junto ao mar
Sou capaz de me perder
Passar a vida sem a ver
Incendiar o lume a arder
Bater a porta sem querer
E ver-me de novo a nascer

Não dou parte de fraco
Não me canso de mim
E ao ver o meu retrato engano-me mais do que a ti

Não jogo só pela sorte
Não deixo de tentar
Só lamento as derrotas que tive por não arriscar

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Paixão Verdade

Um aviso à navegação: o que aqui for escrito será relatado com a crueza dos factos, arrepiado da confabulação dos espíritos com a força de fórceps em forma de garra. Acabaram-se as meias-palavras e as meias-tintas, as sugestões dissimuladas e os sinais imperceptíveis para os cérebros conscientes do mundo em redor. Não farei apelo nem agravo a sensibilidades de vão de escada nem a flores de estufa. Quem aguentar o embate é convidado a seguir viagem, os outros são convidados a sair. As letras que se seguem podem ter o poder das balas nos tambores das pistolas num jogo de roleta russa viciado. Podem magoar quem jogar a medo, podem libertar quem estiver disposto a deitar tudo a perder perante a recompensa da revelação.

A verdade é que ela estava apaixonada. Apresentava todos os sinais típicos desse estado: a pele cada vez mais encostada aos ossos porque a comida não havia maneira de ser mais do que engolida; os olhos cada vez mais cobertos pelas olheiras das noites dormidas a correr; o rosto com mais borbulhas que procurava, em vão, solucionar com os cremes em catadupa; o sorriso mais fácil nos lábios perante o assombro das memórias das coisas simples.
Desta vez, como nas outras em que se apaixonou por outros homens (apesar de não se recordar disso agora), os seus pensamentos levavam-na recorrentemente até ele como numa viagem dentro de um beco sem saída. Sentia o seu corpo estremecer com o desejo do prazer já experimentado, numa expectativa que não via a hora de tornar real e por isso, quando a geografia os arredava, a sua memória conduzia-os até próximo um do outro. Fechava os olhos para sentir por debaixo de si as pregas do lençol enrugado e o peso dele por cima dela a funcionar como um cilindro daqueles que pavimentam as estradas, andando para cima e para baixo como que tentando fazer desaparecer os vincos das noites idas. Nas suas memórias habitavam os dedos dele, que por vezes percorriam o seu corpo com a doçura dos dentes-de-leão cortejando a sua pele, e outras irrompiam pelas suas entranhas com a violência dos martelos pneumáticos e quase a dividiam em dois.

A outra verdade é que também ele estava apaixonado. Apresentava todos os sinais típicos desse estado: a falta de pachorra para as coisas comezinhas da vida e para os zumbidos ocos das cabeças ocas; os impulsos electrizantes que percorriam o seu corpo para cima e para baixo e faziam brotar da sua cabeça, como molas saltitantes, ideias novas para mudar de vez o mundo; os silêncios cheios de ruídos abafados e as berrarias cheias de gritos mudos; os olhares vagos perscrutando o horizonte em busca de novas paragens que mesmo distantes, pareciam estar ali à mão de semear.
Desta vez, como nas outras em que se apaixonou por outras mulheres (apesar de não se recordar disso agora), todos os seus sentidos pareciam focados num ponto como um farol que iluminasse sempre em frente, fazendo encalhar na costa todos os navios que dela se aproximem. Sentia o cheiro dela visitá-lo nos momentos mais inusitados e quando não estava ninguém por perto, e por isso tinha a certeza de se tratar de um cheiro sobrenatural, não conspurcado pelos odores das gentes que passavam amiúde. Sentia-o em casa, dias depois da sua última visita, sentia-o nas roupas que deixava espalhadas pelo chão durante dias para fazer prolongar o momento em que revelavam os seus corpos um ao outro. Fechava os olhos para sentir na boca o pó discreto da sua maquilhagem ou a gordura dos cremes que ela espalhava pelo corpo, de manhã em frente ao espelho, e que se colavam aos seus lábios por todo o santo dia. Na sua memória habitavam os gritos dela e o peito em rubor, enquanto se contorcia e ofegava, levada para outras paragens bem distantes dali, conduzida pela cadência imposta pelos seus dedos curiosos, pela sua língua gulosa ou pelo seu sexo com vida própria.

A verdade é que ela receava que ele não voltasse a estar com ela. Animava-a saber que podiam tirar dela tudo menos as memórias das noites a escaldar, das músicas escutadas na penumbra, das conversas reveladoras de um ser que descobria despontar dentro de si própria. Mas sabia que para além da cúpula dourada que os protegia e resguardava do mundo lá fora, havia a vida que os puxava para longe um do outro, as âncoras que mandavam para trás das costas sempre que estavam juntos mas que continuavam lá apesar de tudo, arrastando com eles o espectro das sombras das profundezas. Ela prendia-se pela surpresa que ele despertava nela, a curiosidade insaciável de encontrar as explicações para as incongruências, a tentativa de descortinar como é que nele os preconceitos deixavam de fazer sentido. E prendia-a a descoberta do seu próprio corpo, e o desejo de perceber o porquê daquela sensação permanente de desfloração de cada vez que ele entrava dentro dela.

A verdade é que ele receava que ela não voltasse a estar com ele. Animava-o saber que podiam tirar dele tudo menos as memórias das noites em que vagueara pelas ruas com o copo numa das mãos e o peito junto da outra, das ideias alucinadas que ficavam gravadas em baixo relevo na sua alma, das conversas reveladoras de um ser que descobria despontar dentro de si próprio. Mas sabia que para além dos muros que erguiam para se protegerem dos olhares alheios, havia a vida que os puxava para longe um do outro, como se a atracção que os juntava apenas servisse para queimar as suas asas como acontece às borboletas iludidas pela luminescência traiçoeira das lâmpadas incandescentes. Ele prendia-se à descoberta do seu próprio ser, à essência que descobria na altura ter perdido fazia tempo. E prendia-o o vicio galopante de se dar a conhecer e a usar, em benefício de um ser que seria alimentado por ele mesmo que à força de ver ser metido pela boca abaixo os nutrientes.

A verdade é que ela sabia que a paixão é um estado transitório e esta paixão tinha os dias contados. Ela apenas desejava a paixão e isso, inexplicavelmente, não seria o suficiente para a manter eternamente. Não queria saber do futuro para além daquele que via a um palmo de distância nem das amarras que para o comum dos mortais representam o conforto do expectável. Não queria nada mais do que a hipótese de sentir que a vida valia a pena ser vivida, um dia de cada vez, enquanto durassem aqueles dias, pelo menos. Não queria nada mais do que sorver daquela tesão e descobrir as doses maciças de fluidos que o seu corpo conseguia emanar. Não queria nada mais do que o que tinha de cada vez que estava com ele, arredados do mundo em símbolo e significado.

A verdade é que ele sabia que a paixão é um estado transitório e esta paixão tinha os dias contados. Ele apenas desejava a paixão e isso, inexplicavelmente, não seria o suficiente para a manter eternamente. Não queria saber dos quadrados em que toda a gente costuma arrumar as suas vidas e as suas relações com os outros. Não queria nada mais do que as cicatrizes que já envergava como se os sentimentos despoletados tivessem ficado gravados a ferro quente na sua pele. Não queria mais do que a possibilidade de evocar o seu cheiro assombroso e deixar-se inspirar por ele para pintar a sua vida de cores garridas nos dias mais cinzentos. Não queria mais do que a vertigem dos acontecimentos fracturantes e sentir que o seu passado abanava na amplitude 9 da escala de Richter . Não queria nada mais do que a capacidade de recriar a seu belo prazer a intensidade que sentia de cada vez que estavam juntos, arredados do mundo em símbolo e significado.

A verdade é que ela sabia que ocupava o espaço deixado por outras. Sabia que ele não o via dessa maneira, mas a sofreguidão da forma como estavam juntos, era só mais uma sofreguidão a juntar-se ao rol de sofreguidões que tinham sido as relações dele até aí. Sabia que vistas bem as coisas ela tornara-se subtilmente num objecto que ele engolira como uma amiba, envolvendo-a dentro de si para subtrair dela tudo o que houvesse para tirar, até a converter num eco ou numa imagem idealizada apenas, por não ter querido ser mais exigente.

A verdade é que ele sabia que ocupava o espaço deixado por outros. Sabia que ela não o via dessa maneira, mas a extravagância da forma como estavam juntos era só mais uma extravagância a juntar-se ao rol de extravagâncias que tinham sido as relações dela até aí. Sabia que vistas bem as coisas ele tornara-se subtilmente em mais um fardo para ela carregar nos ombros, em mais uma lamúria futura quando ela se desse conta da culpa de não ter querido ser mais exigente.

A verdade é que tudo isto não era importante perante a inconsciência e o devaneio, a ilusão e a loucura, o desejo e a gritaria.

A verdade é que tudo isto era importante perante a consciência e o despertar, a ausência e a distância, a frieza e o silêncio.

A verdade é que não conseguimos ver mais do que os olhos nos dizem ou perceber para além das ideias condicionadas pelos paradigmas que dão forma aos nossos seres. Mas se conseguíssemos ver mais além, se tivéssemos a coragem de confrontar a verdade e deixarmo-nos cegar pelo seu brilho resplandecente, perceberíamos que nas paixões que vão e vêm, nada muda que não o objecto que faz despoletar a erupção. A verdade é que apenas nos apaixonamos por nós próprios. Os outros por quem pensamos estar apaixonados apenas actuam como os catalizadores das reacções químicas que nos vergam sobre nós mesmos. A verdade é que os outros, os objectos, são os espelhos nos quais queremos ver a nossa imagem reflectida. A verdade é que isso faz de nós utilizadores e utilitários uns dos outros, numa visão pouco romanceada da vida no sentido mais prosaico do tema.

A verdade é que o esclarecimento que ela e ele, por vezes, sentiam ter atingido, nada mais era do que uma ilusão a somar ao conjunto de todas as outras que pautavam as suas vidas. Enquanto pensavam estar a dar de beber um ao outro, apenas geravam a água suficiente para se afogarem. Mas até verem o fôlego desaparecer de vez, ocupariam por momentos o lugar de Poseidon, tridente em riste, comandando as ondas e as correntes, as tempestades marinhas e costeiras, originando nascentes e barragens naturais. Depois se havia de ver, quando o espelho ficasse mirrado de tanto ser usado, baço pelos seus bafos cada vez mais próximos porque a vista fica progressivamente mais curta.
A água de que se bebe nas paixões não é inodora, nem incolor nem insípida. Vicia como um liquido vindo dos infernos, o elixir que apazigua as labaredas dos condenados. E por isso não conseguimos deixar de beber, mesmo quando as taças estão cheias e as panças a deitar por fora. Procuramos novas cores, novos sabores, novos aromas, porque achamos sempre que ainda temos mais para conhecer sobre nós próprios, mais para nos deslumbrarmos com o “maravilhoso mundo do eu”.

A verdade é que ela e ele estarão juntos enquanto durar o encantamento que cada um despertou em si próprio. E a verdade é que isso já não é nada mau.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

À saída do Templo


Histórias

Porque consomes tantas energias em tentar esquecer as histórias que durante tanto tempo lutaste por manter vivas, como se a tua vida delas dependesse? Vale a pena fingir que nada se passou e que a história que nos une não irá existir para sempre?

A virtude das histórias é que não deixam de existir uma vez contadas. Podemos tentar esquecê-las, mas as histórias perduram para sempre. Não são como as palavras, gravadas na esperança da posteridade; mas também não são como os sentimentos, tristes ilusões de eternidades fugazes.

As histórias têm pH neutro, são inconsequentes. Não há histórias boas ou más: são como as estradas, com rectas e curvas, com lombas e superfícies planas e muitas delas não dão a sítio nenhum.
Apenas existem num mapa de inconsciente colectivo que se actualiza com os acidentes de percurso que acontecem quando esbarramos uns nos outros nas curvas não sinalizadas.

As histórias não têm de ser tristes, mesmo quando não acabam bem.
Triste é não sentir com emoção todos os capítulos e esquecermo-nos que somos nós os protagonistas. A vida é uma história na qual não há artistas secundários.

As histórias não são boas apenas porque acabam bem.
Só a ideia é um contra-senso. Como sobrevive a noção de bem se a história se acaba?

As histórias são o que são, e sucedem-se como capítulos de uma novela que não acaba. Somos todos contadores das histórias uns dos outros, todos actuamos numa orquestra de histórias sincronizadas, uma míriade de maestros iludidos com a ideia de conduzir todos os outros.

Por isso não te esqueças da nossa história.
Não te queiras esquecer de ti.
Não vale a pena.
Acredita que sei do que falo.

Muros

Estão a construir muros à minha volta, os malvados, que me querem tapar as vistas para o outro lado, aquele lado que olho de soslaio pelo canto do olho como que o seduzindo. Levantam os muros para se debruçarem lá do alto e para poderem espreitar para dentro do meu território, procurando ver mais do que estou disposto a mostrar.
Procuro ser transparente quanto posso, cingido pela rigidez da minha flexibilidade que verga até ao ponto em que quase se parte em pedaços. Procuro oferecer apontamentos, notas soltas, retratos fugazes das coisas que me compõem, mesmo sabendo que quase ninguém tem grande interesse em as receber. Mas estão a construir muros à minha volta, procuram subtrair-me de coisas que não estou disposto a oferecer e por isso vou ter de partir. Não com medo que me prendam cá dentro, estive preso já várias vezes e mesmo que seja pelo buraco da agulha sempre consegui desenrascar-me. Mas estes muros apenas servem para que me espiolhem para lá dos limites que imponho até quando me quero espiolhar a mim próprio, nas alturas em que fujo em frente e não olho para o rasto que deixo ao passar.
As minhas janelas estão a descoberto, deixam ver cá para dentro e mesmo sem estarem dependurados nos muros, com algum esforço podem ver o meu perfil movimentando-se na penumbra. Mal o meu. Vou mudar as janelas de sítio porque não as quero tapar para que a luz nunca me falte, e gosto de ver a humidade formar-se nos vidros e solidificar-se até se instalar uma névoa permanente lá fora.
Mas para as deixar assim tenho de as mudar de sítio.
Vou voltá-las para as planícies a perder de vista, amarelecidas pelo trigo que balouça ao sabor do vento norte, ondulando como os cabelos das mulheres. Vou imaginar-me a correr lá fora sempre que encarar os campos rasos de frente, sentido as espigas roçarem-me na pele. Vou esbugalhar os olhos de espanto com a proximidade dos raios enquanto o meu corpo estremecer com a violência dos trovões, soando como paradas de bombos em ruas estreitas de granito. Vou deixar entrar o luar pela minha casa dentro e banhar-me nu no seu véu, deitado no chão de ladrilho que me arrepia a pele.
Sou aquilo que se vê da minha janela. Esta já tem os horizontes mais próximos da minha mão, como sempre aconteceu com todas as janelas que já tive. E quero os horizontes no seu sítio, longe de mim. No início eram os prados que se avistavam como tapetes bordados de infinito. Depois apareceram os muros, como sempre aparecem.
Deixá-lo.
Serei sempre mais forte do que os que se aboleiram nos muros para viver a vida dos outros em vez das suas, pobres coitados que nunca procuram as suas planícies a perder de vista. Vou deixá-los pendurados lá em cima, a olhar para coisa nenhuma.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Olhares

Estou sempre a procurar o teu olhar mesmo quando sei ser inoportuno porque descobri que o teu olhar funciona como um espelho daqueles de que me recordo quando era criança e ia às feiras àquelas casas de espelhos retorcidos que devolviam a minha imagem com formas divertidas e às vezes monstruosas e que me faziam rir e pensar que nunca iria conseguir olhar para mim da maneira como os outros me vêem, se calhar podia ser até assim que me vissem, não é que me preocupasse muito isso porque para olhar para mim bastei eu tantas e tantas vezes quando sentia que passava transparente pelas ruas e pelas pessoas com quem tentava cruzar o olhar da mesma maneira que agora procuro fazer contigo, mas se calhar estou enganado e afinal sempre me preocupei com isso, apenas disfarço numa humildade irritante que de hipócrita tem muito pouco e que por essa razão mais irritante se torna, mas quando penso bem nisso concluo que tenho procurado muitas vezes perceber se olham para mim mais do que perceber o que vêem afinal e isso faz com que ainda hoje não conheça bem as formas que definem o meu ser por dentro e por fora e depois não te esqueças que estou mais perto das nuvens os meus olhos estão mais perto das nuvens e eu estou muitas vezes nas nuvens e por isso tenho quase a certeza que me escaparam muitos olhares virados na minha direcção, sim, só pode ser, mas isso não interessa nada agora porque o espelho retorcido encontrei-o nos teus olhos que me parecem ser de mar revolto quando não apontam para mim mas de mar sereno quando me miram, agitados nas profundezas por um turbilhão viciante que faz com que os nossos olhares se continuem a cruzar constantemente mesmo quando é inoportuno.

Não me interessam os hipotéticos espelhos de que não dei conta ao longo das minhas caminhadas pelas ruas cheias de gente que tantas vezes me pareceram desertas se agora antes tarde do que nunca vejo reflectido nos teus olhos quem sou, não sei se é quem sou, mas gosto do que vejo da imagem que me faz rir mesmo que seja uma imagem retorcida como as que via nas feiras a que ia quando era criança, a imagem que pode ser falsa aos olhos de todos os outros que por quererem ou não lá cruzam os seus olhares com o meu, mas que é verdadeira é, sei que é verdadeira enquanto dura o relance em que os nossos olhos se cruzam e o teu mar revolto se confronta com o meu rio em maré alta desaguando violentamente no teu seio salpicando de ternura e tesão o espaço que existe entre os nossos olhos.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Predador de emoções

Não te deixes enganar se vires gente à minha volta
E se me vires agitar a bandeira da revolta.
Não sou como tu me vês, e talvez não como me vejo
Estou na idade dos porquês, no principio do desejo.

Não te queiras iludir com a imagem que projecto,
Não sou mais do que uma sombra, a miragem no deserto,
Não sou o pontão que afasta a força das marés
Sou a porta que se abre e se fecha a pontapés.

Sou um predador de emoções
Que se perde em convicções
Sou um ser estranho, uma obra de arte
Desenquadrado, neste cenário feito à parte
Sou um predador de emoções

Não procures entender o que não é perceptível
Vou perdendo a habilidade de me tornar infalível.
Não venhas atrás de mim, sou um mero prisioneiro
Um modesto egoísta a enganar o mundo inteiro.
Não quero ser o herói de almanaques de outras eras,
Não quero matar os vilões nem salvar as donzelas
Quero ficar transparente, ser de carne a deitar cheiro
Quero ser ser imperfeito, ser um erro verdadeiro,

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

No banco do jardim


Prego

Dei pelo prego quando caminhava em direcção à beira-mar. Estava deitado sobre a areia como uma bússola apontando o norte e pensei que poderia magoar alguém, mesmo não estando com o bico voltado para cima.
Fitei-o por momentos e depois pus-me de cócoras para ver melhor o seu recorte. Olhei em todas as direcções para ver se alguém se tinha apercebido que estava atento a algo, àquela espécie de tesouro rasca que tinha desenterrado da areia da praia.
Ninguém parecia interessado na minha descoberta. Mais acima, quase coberta pela sombra da falésia que delimitava toda aquela extensão de areia, a minha mãe continuava entretida a ler as suas revistas e jornais. Por momentos tive pena dela quando percebi que se debatia contra o vento, tentado domar as folhas do jornal que teimavam em fugir ao seu controlo. Ela, contudo, mantinha-se calma, procurando vincar as páginas para reforçar a sua resistência à aragem marítima.
A minha irmã brincava perto dela com os baldes e os ancinhos de plástico que tinham sido comprados meses antes, nas férias de Verão. Era divertido vê-la naquelas andanças trémulas de quem tem um milhão de coisas para fazer enquanto o tempo dura, inebriada pela praia que para ela devia ser como uma extensão particular de um mundo que só agora começava a descobrir. Volta e meia assentava o rabo no chão, pois as pernas ainda arqueadas e rechonchudas não lhe serviam de muito neste piso irregular. Pouco se ralava com isso, achando natural estar constantemente a cair, ela que tantas vezes parecia ficar com o orgulho ferido sempre que tombava lá em casa ou na rua. Aqui os buracos no chão pareciam dar-lhe a desculpa que necessitava para conseguir viver bem com a frustração, com a noção das suas limitações motoras.
Estava um dia quente como já não me lembrava de estar nos últimos tempos. O Verão afinal parecia não querer ir embora preferindo em vez disso continuar a fustigar a minha pele seca. Ainda mantinha as marcas da temporada que passámos, dois meses antes, nas férias em que fui com a minha mãe e a minha irmã para uma casa alugada junto à praia. Ainda se notava claramente a marca do fato de banho e os pêlos das minhas pernas e braços mantinham um tom dourado que apenas adquiriam nesta altura do ano. Estava com um ar sadio, sentia-me cheio de energia e sabia-me bem voltar novamente à praia para poder dar os pinotes que entendesse. Pena era que a água estivesse fria, bem mais fria do que a do local onde passámos férias, e por isso não ficava tanto tempo a tomar banho, apesar de me saber bem refrescar o corpo transpirado pela correria.
O prego estava um pouco enferrujado. Devia estar por ali há algum tempo, corroído pela humidade das marés até ganhar um tom acastanhado que se desfez em pequenas partículas quando o peguei na minha mão.
Pensei no que faria um prego daqueles por ali, que histórias teria para contar se pudesse dizer algo. Era um senhor prego, não daqueles que estava habituado a ver lá por casa dentro da caixa de ferramentas vermelha que o meu pai deixou ficar num arrumo por debaixo do fogão. Este era um prego grande que daria para ser usado por qualquer carpinteiro que quisesse construir uma peça de mobiliário robusta. Não percebi como foi ali parar, mas só poderia ter sido deixado por alguém. Um prego daqueles não se deixa levar pelas ondas do mar como as garrafas de plástico ou os pedaços de madeira que, a espaços, vislumbrava pelo areal. Mas também não percebia porque razão alguém teria levado um prego daqueles até ali.
A singularidade da descoberta fez com que aquele momento tivesse uma dimensão que vivi com solenidade. A minha irmã bem que se podia admirar com as conchas da praia, as suas formas curiosas e tons desbotados, mas esses eram elementos naturais daquele habitat. Para mim, aquele prego suscitou um fascínio bem mais justificado, pois era um elemento estranho àquele cenário, uma peça à qual deveriam certamente estar associadas histórias interessantes e, além disso, tinha aquela dimensão de perigo que um rapaz da minha idade procura a toda a hora, procurando testar os limites da sua coragem, agora que os do corpo já passavam a ser território conhecido.
Voltei a olhar em direcção à minha mãe. Continuava deitada com a barriga voltada para cima, mas parecia ter desistido do jornal. A revista que agora usava para ler e tapar o Sol que lhe apontava de chapa sobre a cara era bastante mais dócil. Ao lado dela, a minha irmã continuava atarefadíssima nas suas deambulações imperceptíveis e afazeres rocambolescos. De resto, apenas algumas pessoas estavam na praia e bastante afastadas umas das outras em comparação com o que tinha testemunhado nas férias de Verão. Se calhar poucos foram os que acreditaram que este fim-de-semana de Outubro pudesse estar tão quente, e à prudência, escolheram outros destinos menos arriscados.
Dei alguns passos em direcção a lado nenhum e pelo caminho fui procurando sentir o peso do prego, fazendo-o dar pequenos saltos na palma da minha mão, que ia ganhando progressivamente uns tons cada vez mais acastanhados. Num desses movimentos escapou-se por entre os dedos e caiu a meus pés, fazendo-me recuar para que não me furasse. Ficou cravado na areia como uma haste sem bandeira.
Peguei nele novamente, e fiquei a admirá-lo como quem diz “sim, senhor, aqui o sr. prego ainda está para as curvas!”.
Lancei-o ao ar, sobre a minha cabeça, não com muita força, mas a suficiente para que desse umas quantas piruetas até cair na areia, novamente. Desta vez não consegui que ficasse espetado no chão e por isso, voltei a tentar. Fi-lo mais uma vez, e outra, e outra, até que finalmente ele ficou direito, como se estivesse a pregar a areia àquela praia.
Senti o meu corpo exultar e dei um salto descoordenado, enquanto os meus braços se agitaram como os de uma marioneta com os fios embaraçados.
A minha mãe mexeu-se para tirar um cigarro da mala. Não sei se olhou para mim mas pareceu-me que não, segura que estava que naquela praia quase deserta o pior que me poderia acontecer era morrer de tédio.
Voltei a pegar no prego e desta vez atirei-o com mais força para o ar. Ele voou bem por cima da minha cabeça, deu mais piruetas do que as que consegui contar, e voltou a cair sem ficar espetado na areia como pretendia. Isso só fez com que desejasse continuar a tentar. Deveria haver alguma técnica que me tornasse exímio na arte de atirar o prego ao ar. Talvez devesse fazer um movimento do pulso mais brusco e manter o meu braço quase imóvel. Ou então era o braço que se devia agitar, apesar de me parecer que assim, o prego voava mais para trás e menos para cima, o que prejudicava a sua trajectória. Tentei ainda perceber como o colocar entre os dedos: se preso entre o polegar e o indicador ou se deveria meter o dedo médio ao barulho.
Escusado será dizer que fiquei bastante tempo nestas andanças, testando as diferentes possibilidades de arremesso. O prego voava cada vez mais alto sobre a minha cabeça e os casos de sucesso que aconteciam amiúde faziam-me ganhar mais confiança para o fazer voar mais alto.
Ia olhando para a minha mãe de vez em quando. Sabia que se percebesse que me estava a divertir com um prego, a brincadeira iria ficar por ali. Mas talvez, àquela distância, mesmo que olhasse para mim, não perceberia que era de um prego que se tratava, pensando que talvez tivesse pegado num daqueles paus em forma de farpa que havia em abundância pela praia.
Numa dessas vezes em que me voltei em direcção à falésia, reparei num homem que estava sentado numa cadeira de praia, não muito longe dela, e que me parecia fitar por detrás dos seus óculos escuros. Não percebi como ali teria ido parar pois estava certo de que ninguém ocupara aquele lugar da última vez que olhei, o que acontecia com maior frequência desde que comecei a atirar o prego em direcção às nuvens.
Ele mantinha uma posição fixa, imóvel, com o rosto virado na minha direcção. Tinha um sorriso forçado, como quem procura dar ao mundo sinal de vida enquanto conduz a cabeça para locais distantes. Era um homem elegante, não tão gordo como o meu pai, e tinha uma pele demasiado branca para aquele Sol de Outubro. A cadeira de praia era daquelas de pano, com padrões florais em tons de verde-escuro.
Senti que o fitei durante mais tempo do que o normalmente levo a fitar outras pessoas, enquanto procurava organizar as ideias e perceber como é que ele ali tinha chegado. Durante esse período ele manteve o mesmo sorriso congelado que apontava na minha direcção.
Atirei novamente o prego, bem alto até onde a minha força conseguia. Quando caiu espetou a areia bem fundo e voltei a sentir o júbilo do objectivo atingido. Enquanto o meu corpo dava mostras do entusiasmo, voltei a procurar o homem, não fosse ele ter desaparecido tão subtilmente como chegara. Mantinha-se na cadeira de praia, imóvel, e imaginava que por detrás das lentes escuras os seus olhos me observavam atentamente. Devia estar impressionado com a minha capacidade para atirar o prego assim tão alto. Voltei a fazê-lo várias vezes e agora mais frequentemente ele ficava enterrado no chão. Entre cada lançamento sentia que dava pequenos saltinhos como se estivesse a atravessar um lago de nenúfares e eles pudessem suportar o peso do meu corpo ligeiro e ágil. E de cada vez que o prego ficava cravado como uma estaca de alguns centímetros, o meu entusiasmo era mais exuberante.
Olhava para o homem mais insistentemente e percebi que a ideia de ter assistência fazia com que procurasse esmerar mais o meu desempenho e tornar mais entusiastas as minhas celebrações. A experiência da descoberta daquele tesouro rasca tinha-se transformado numa prova de perícia e agora transformara-se novamente, numa exibição pavoneante de um artista na arte do arremesso.
Durante todo aquele tempo o homem deixou-se estar, concerteza fascinado com a minha performance. Pela minha parte, assolou-me uma sensação estranha de deja vu, uma ideia que foi ganhando forma na minha cabeça. Quando dei por ela por inteiro quase me esqueci de desviar do prego que caía aos trambolhões e por pouco me acertava na cabeça. Desviei-me no último momento mas não deixei de fitar o horizonte para onde os meus olhos me tinham levado, assoberbado com a ideia que me invadia nesse instante. Parecia-me uma ideia febril, talvez resultante do Sol intenso que me aquecia até aos ossos. Não sei. O que é certo é que comecei a achar que já tinha visto aquele homem noutras alturas.
De início não me lembrei de quais e essa dúvida fez permanecer a fantasia no meu espírito. Mas com mais umas quantas piruetas do prego, a lembrança dos momentos transformou o mito em realidade, a ideação febril em algo que conseguia visualizar na minha cabeça sem o espectro da dúvida.
Aquele homem já tinha estado perto de mim, a observar-me atentamente como daquela vez. Sempre que isso aconteceu não dei por ter aparecido tão de mansinho. Talvez erradamente tivesse concluído que já lá estava quando cruzámos os nossos olhares. Mas o que é certo é que poderia ter-se materializado de todas essas vezes, vindo do nada, como acontecera desta.
Lembrava-me dele uma vez em que estava no pátio da minha escola e jogava à bola com os meus colegas da turma. Estava um dia bonito como este e aproveitávamos o pouco tempo que durava o intervalo para nos imaginarmos num estádio relvado sobre as luzes dos holofotes, emocionados com os cânticos de milhares de pessoas que nos idolatravam.
Noutra ocasião, pareceu-me vê-lo no fundo do teatro onde tínhamos estado no Natal a representar uma peça ridícula para os nossos pais, uma coisa tipicamente de miúdos… Senti aquele olhar penetrante e aquele sorriso congelado, ainda que com esforço, pois ele ocupava um lugar na penumbra das últimas filas.
Lembrava-me ainda dele por detrás de uma janela, lá na nossa rua, enquanto brincava com os rufias do bairro a perseguições policiais, munidos com as nossas pistolas de fingir.
Era ele, neste momento não tinha qualquer dúvida. O homem do sorriso congelado e dos óculos escuros que não conseguiam esconder a atenção que os seus olhos me davam. Era ele que aparecia nos locais mais diversos, apesar de não estar sempre a aparecer. Alguma coisa devia condicionar a sua materialização mas até àquela altura ainda não me tinha apercebido do quê. Poderia haver um denominador comum a todas as ocasiões em que me deparei com ele, mas isso escapava-me agora, difusa que era a noção das vezes em que o vira como uma imagem em contra luz.
Continuei a atirar o prego para o ar, bem por cima da minha cabeça, com toda a força que o meu braço dormente conseguia. De todas as vezes, conseguisse ou não fazer com que se estancasse na areia, confirmava a atenção que aquele homem misterioso me concedia.
A minha mãe, já quase sob a sombra da falésia, levantou-se para acender um cigarro e percebi que me vira naquela excitação desenfreada. Deve ter desconfiado de algo, talvez da consistência do que atirava ao ar (os paus espalhados pela praia não tinham a densidade necessária para um voo tão perfeito) e chamou-me para perto de si.
Quando olhei para o local em que o homem estava, dei conta de que tinha desaparecido. Tão subtilmente quanto tomara forma, esfumara-se agora por entre as ondas de calor que faziam emanar vapores na areia, mais ao fundo.Dirigi-me para o local em que a minha mãe estava, agora sentada, esperando por mim. Estava cansado da correria e sentia que o braço se queria despegar do resto do meu corpo. Levava comigo o prego, sabendo que corria o risco de ouvir das boas da minha mãe. Quando cheguei perto dela, apenas me disse para pôr o chapéu na cabeça e para ter cuidado com o Sol. Aproveitei e coloquei o prego dentro do meu saco, que tinha umas quantas revistas de banda desenhada e a bola de praia. Podia ser que ainda me fosse útil, noutra altura, em que pudesse evocar a presença daquele homem de sorriso congelado e olhar penetrante por detrás dos óculos escuros. Apesar de ser estranha a forma como sentia a sua presença, sempre a vi como reconfortante e sabia que certamente iria gostar de o voltar a ver. Ou gostar que ele me voltasse a ver a mim…

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Limbo

Já sei o que me faz aparecer esta ruga na testa sem a franzir como quem olha de frente para o Sol. Já sei o que me faz ter este ar carregado, os vincos marcados no rosto, a pele cinzenta e os olhos papudos. Sei o que me tira o sono nas madrugadas e me faz desejar que as noites não terminem, nunca mais. Descobri porque é que a minha paciência se esgota mais frequentemente e de cada vez que acontece, mais velozmente me assola a vontade de mandar às urtigas quem me desvia com a perversidade do seu pensamento viciado. Sinto que o ar que outrora usava para respirar agora me sufoca de cada vez que se altera, ainda que ligeiramente, a pressão atmosférica. Sinto mais próxima, incomodamente mais próxima, a respiração dos outros quando com os seus bafos malcheirosos sussurram aos meus ouvidos as suas ladaínhas insuportáveis de aturar, conversas ocas que entretanto deixaram de fazer sentido às partes do meu cérebro que as processavam com agilidade, antigamente.

É o limbo, a fronteira, a passagem adiada para outro lado, qualquer lado, a fuga para a frente que não acontece, condenada por esta tremideira idiota de quem quer caminhar em frente sem tirar os olhos do retrovisor, a anestesia que não afecta os sentimentos mas condiciona as acções, o torpor da indecisão quando se descobre no íntimo que a solução passa por mudar o rumo e se não tem a coragem para o fazer, a dormência dos movimentos quando o corpo deixa de responder às ordens da cabeça, a paralisia do medo que nos assola quando finalmente chega a coragem de enfrentar quem somos realmente, a vertigem de encararmos o campo raso e imenso à nossa frente e a sensação de estarmos perdidos por terem desaparecido todas as referências, aquelas que até então têm sido as responsáveis pelo curso dos acontecimentos.


Não estou amargurado porque me alenta o prazer da descoberta de mim próprio.
Não estou ansioso porque sei que como sempre aconteceu, hei-de conseguir voltar a arriscar tudo o que hoje dou como certo.
Não estou feliz porque já perdi as ilusões de desejar mais do que momentos breves que fiquem para a história

Estou no limbo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Click


4

Não consigo deixar de lamber os dedos com a sofreguidão de um guloso insaciável. Ainda sinto o teu cheiro no ar rarefeito do quarto, rarefeito porque quero prender esse aroma entre as 4 paredes, prisioneiro e refém da minha vontade de prolongar o momento para além da hora em que partiste. Estava capaz de perder um sentido qualquer dos outros 4 para que pudesse apurar ainda mais o olfacto. Com ele consigo sentir a tua presença, agora que os meus ouvidos não te ouvem, que os meus olhos não te vêem, que os meus dedos não te tocam nem a minha boca te sente.
Passámos para uma outra qualquer dimensão, diferente da que viemos, e continuo sem saber se isso é bom. Que se foda! Que se danem os sentimentos nem que apenas por fugazes momentos. Enquanto deixo a razão vazar pelo ralo da consciência e dou cabo da engrenagem em que me montei, testo-me para ver se consigo ser mais coração, ver se aguento. Para já estou de 4, para não cair, eu que sempre procurei ficar de pé. Mas não sou como as árvores apesar de ter procurado sempre ser recto; não sou como as árvores apesar do tempo que dediquei a fazer-me crescer, à força de poder ser derrubado pela ventania; não sou como as árvores porque as minhas raízes não estão presas ao solo mas sim na minha cabeça, eu que sempre achei que não as tinha de todo.

Não quero que te sustentes nas minhas palavras, não quero que as vejas como os pilares a partir dos quais podes construir o teu novo edifício, pois talvez sejam apenas palavras frágeis como as 4 pernas da cama onde brincamos com o fogo. Repara como também elas abanam e chiam com a violência da ilusão de perenidade. Bem, talvez as minhas palavras não sejam assim tão frágeis e possam perdurar na tua memória pelo menos o tempo que o teu cheiro perdura entre as 4 paredes do meu quarto. Mas não posso dizer o mesmo sobre o que sou, que é diferente do que escrevo. Sou um turbilhão de razões que esgrimo com a dificuldade de um maneta, enquanto assisto à sua passagem pelo ralo. Sou alguém que se parece encontrar na medida em que se sente perdido, como se o meu destino fosse vaguear pelo deserto só pelo prazer de andar em direcção ao horizonte. Percebes porque sou perigoso?

Nas folhas de papel os registos podem durar uma eternidade, mas na dimensão para a qual passámos o tempo e o espaço confundem-se a toda a hora. Porém, esse é também o nosso trunfo, faz com que cada momento seja sentido como podendo ser o último, concretizando na realidade aquilo que parecia nunca poder passar da intenção.
Faz-me um favor: não te prendas ao perigo eminente que eu sou, afasta-te dele o suficiente para não seres apanhada num emaranhado no qual sufocarás.
Mas, se entretanto quiseres continuar a deixar-me de 4, de queixo caído com a violência das sensações que despertámos, e estiveres disposta a deixar ficar o teu cheiro entre as 4 paredes do meu quarto, segue o conselho que começo a chamar de meu: manda foder tudo o resto!

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Calendário

Aquele dia estava marcado nos calendários, que se sucediam ano após ano, pendurados nas paredes do hall de entrada como roupa estendida a secar até entesar. No início usara um marcador vermelho e com ele traçava uma cruz para o destacar de todos os outros, desses dias dolentes, custosos a passar. Hoje em dia era mais prosaica. Em torno das linhas que encaixavam aquele número, naquele mês do ano, fazia por vezes ilustrações simples, como heras trepadeiras galgando paredes em direcção às janelas. Usava várias cores (o vermelho ainda era muito presente), por vezes escrevinhava nos contornos da caixa ou desenhava setas como projécteis de um Cupido que ela desejava existisse de verdade.
O destaque daquele dia no calendário era como um templo em sua casa, o local onde habitava a Divindade protectora, a ilusão da perpetuidade. Olhava para aquele número vezes sem conta durante o ano, passando por vezes os seus dedos por ele como que procurando sentir o relevo da esperança.
Os calendários estavam colocados de forma estratégica, mesmo em frente à porta de entrada. Assim, não havia como escapar a vislumbrá-los sempre que chegava a casa, e por isso era sempre contemplada pela memória que aquela marca evocava, como o Deus profano da boa fortuna que alguns colocam nas ombreiras para receber os visitantes.
Os calendários não eram sempre iguais todos os anos o que estimulava a sua criatividade. Os diferentes tipos de papel e as dimensões variadas funcionavam como catalisadores da sua veia pictórica e ditavam a forma como decorava a efeméride.
Não se podia dizer que toda a sua vida fosse regida pela memória daquele dia perpetuado nas paredes do hall, mas ele parecia funcionar com o misticismo necessário para quem necessita apaziguar a angústia de se sentir só, mesmo quando gravitavam pessoas à sua volta. As pessoas que nunca perceberiam o significado daquela memória tão intensa, daquela experiência marcante como o ferro em brasa. Mas certo é que aquele número sublinhado nos sucessivos calendários estava sempre presente na sua vida como um canto recolhido num lugar infestado de lugares ocupados.
Os dias em branco no calendário eram todos iguais, sem vida, esmorecidos pelo destino de se verem permanentemente datados. Depois de acabarem seriam perdidos para sempre. Não ganhavam o direito a ser eleitos pela memória, essa caprichosa e arrogante que nos faz sempre crer termos mais poder sobre ela do que o que temos realmente. Eram dias, apenas isso, conjuntos de horas cadentes, sem cucos ou sinos a darem conta delas.
Mas aquele dia tinha mais colorido do que o que ela lhe dava nos calendários, tinha a cor das emoções à flor da pele, dos gritos descontrolados ao ouvido, dos sorrisos rasgados e das convulsões do êxtase. E também da dor, daquela dor saborosa que faz sentir a vida pulsar nas veias e sublinha de forma ainda mais exagerada o prazer.
Hoje era esse dia, 364 dias em branco depois tinha chegado novamente a altura da celebração.
Nesse dia acordou, como sempre nesses dias, com um formigueiro na barriga. Procurava sentir-se mais bonita, investindo mais tempo em arranjar-se em frente ao espelho, como fazem as velhas quando vão à missa aos Domingos na santa terrinha. Tinha cuidado em arranjar um camisa que desse bem com a saia, uns sapatos que fizessem figura com a carteira. Punha perfume no corpo e algumas baforadas por cima da roupa para que o sentisse mais intensamente e durante mais tempo. A sua pele tinha ganho algumas rugas e o cabelo tornara-se mais fino do que quando era jovem e se gabava da sua farta cabeleira. Os seus olhos ganhavam mais brilho nesse dia do que em todos os outros dias em branco e isso iluminava o seu rosto, que apesar dos sinais do tempo continuava bonito, de uma forma que se percebia melhor quando se estava perto dela.
Como em todos aqueles dias de todos os anos que tinham passado desde o dia primordial, o ponto alto das celebrações acontecia com um telefonema. A hora em que o fazia não era sempre a mesma, e isso era assim não por causa dela, mas porque sabia em cada ano qual a melhor altura para o apanhar do outro lado do éter. Utilizava parte dos dias em branco para fazer esse trabalho de pesquisa: saber se tinha mudado de casa, se tinha arranjado novo emprego, se tinha uma nova companheira, ou se mudara de número de telefone. Seguindo os seus passos como um cão de caça que persegue a sua vítima à distância, oculto pela sombra da discrição, conseguia saber sempre o que era preciso para ser bem sucedida no telefonema.
Nesse ano sabia que a melhor altura para lhe telefonar era de manhã, enquanto se deslocava de casa para o trabalho. Já no ano passado o fizera nessa altura. A sua vida parecia não ter mudado desde então, apenas a sua figura se tornava um pouco mais oval e os cabelos ganhavam a tonalidade das neves de Abril, derretendo pelas frontes em direcção às patilhas. Ainda era um homem charmoso segundo o seu entendimento, talvez apenas demasiado entretido com as correrias das quais não parecia conseguir escapar, excepto quando saia do escritório e fumava descontraidamente sentado nos bancos do jardim.
Pegou no telefone e discou o número escrito num papel. Passou um último olhar ao calendário que hoje mostrava em todo o seu esplendor aquele dia colorido.
O telefone tocou apenas uma vez até ele atender.
- Estou.
- Olá. Sou eu.
- Desculpe, não estou a ver quem é…
- Então já te esqueceste que dia é hoje?
Ele manteve-se em silêncio por uns segundos.
- Ouve, tu tens de parar com isto. Não vês que me fazes sentir esquisito?
- Eu sei, queria só dar-te um beijo e dizer que o nosso dia faz hoje anos .
- Ouve lá, tens de esquecer isso. Quer dizer, passamos um ano sem nos falarmos e de repente ligas-me por causa de uma coisa que já passou há tanto tempo… Tens de deixar de olhar para trás dessa forma! Assustas-me, às vezes.
- Desculpa, não te queria assustar. Só queria relembrar-te daquele dia maravilhoso que me marcou até hoje. Não te marcou a ti também?
- Desculpa lá mas vou desligar! Que raio queres que eu diga? Foi bom esse dia, como foram bons outros dias em que estivemos juntos, mas já correu muita água por debaixo dessa ponte… não quero falar mais sobre isso, até porque se o fizesse acho que estava a contribuir para que continues fixada nessa ilusão. Já caminhamos para velhos, que raio! Olha que se não começas a aproveitar todos os dias ainda te arrependes. Esquece lá isso! Foi bom, mas pronto, já lá vai.
- É só porque acho que não foi um dia qualquer. O que aconteceu foi muito especial.
- Vou desligar! Desculpa, mas tem de ser. Não quero alimentar essa coisa estranha que tu sentes, não quero dar mais uma volta na fechadura da cela em que pareces ainda estar presa. Adeus, e por favor, não me voltes a ligar mais. Tenho a minha vida organizada, e receber este tipo de telefonemas é demasiado estranho. Adeus!
E desligou o telefone.
Do outro lado da linha ela sorriu. Voltou a sentir aquela dor saborosa que fez palpitar o sangue nas suas veias. As emoções à flor da pele, os gritos descontrolados ao ouvido, os sorrisos rasgados e as convulsões do êxtase mantinham-se apenas alojados nas suas memórias, mas nunca esperou que fosse de maneira diferente. Sabia no seu intimo que jamais voltaria a ter essas sensações, mas nunca encarou isso com mágoa. Sempre se prendeu à ideia de que em pelo menos um dia da sua vida elas estiveram lá com ela e a arrebataram de uma forma sobrenatural. Um dia colorido num calendário era melhor que um calendário todo em branco. E mesmo que os seus vizinhos tivessem mais dias pintalgados do que ela, nos seus próprios calendários, sabia com toda a certeza do Mundo que nunca haveriam de ter os mesmos tons garridos e a mesma luz resplandecente que aquele seu dia especial.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O Homem que pedia desculpa mas não pedia perdão

Ele passava pela vida com o ímpeto dos furacões, levando consigo telhados de zinco e postes de luz. Deixava as vilas por onde passava mergulhadas nas trevas de olhos postos no céu em busca das estrelas que augurassem melhores dias. Furava ruas fora com a velocidade de quem não olha para os semáforos, atravessando cruzamentos de pouca visibilidade como quem nada tem a perder. Era como as enxurradas que levam na torrente o que encontram pela frente sem pedir licença, certas de estar a prestar um bom serviço retirando das estradas os objectos que impedem a circulação, não querendo saber se eles lá estariam por algum motivo.


Pedia desculpa por isso.


Ele levantava as saias às senhoras quando passava como a brisa pelo meio das suas pernas, seguindo em frente sem dar conta do embaraço. Fazia desgrenhar os seus cabelos e voltava a arrumá-los em novelos entrelaçados como os ninhos de rato. Resfriava as crianças que jogavam à bola nos jardins, pintadas nos rostos com o rubor da excitação e ensopadas em suor. Sentia-se como um soldado que descobrira, enterrado nas trincheiras, que a única maneira de fugir da morte certa era sair daí para fora dando o peito às balas do inimigo. Vivia como se a antecipação da morte fosse mais importante do que o seu esquecimento, para não deixar arrefecer a sensação de estar vivo.


Pedia desculpa por isso.


Deixava feridas abertas nas pessoas em quem se roçava, ao passar furiosamente com as garras afiadas. Deixava-as assim, a esvair-se em sangue morno, enquanto lambia os dedos e incorporava as suas essências. Lançava poeira nos olhos de quem se virasse ao seu relance, não porque quisesse mas porque não o conseguia evitar. Tudo acontecia para além do seu controlo, apenas os seus movimentos eram regidos pela sua vontade. Tudo o que fazia acontecer no mundo à sua volta, as intempéries ou a bonanças, os sorrisos ou as lágrimas, os remendos ou as suturas, estavam para além do seu escrutínio.


Pedia desculpa por isso.


Mas nunca pediu perdão.

Nunca pediu perdão porque corria cego, de olhos vendados pela convicção de estar sempre a correr em frente. Não deu pelas voltas em espiral, pelas rotundas no caminho ou pelas estradas sem saída. Nunca pediu perdão porque achou sempre que as feridas que abria nas pessoas no mundo à sua volta as faziam sentir-se vivas, a mesma sensação que lhe davam as cãibras nas pernas após as suas jornadas mais intempestivas.
Nunca pediu perdão porque achava que as casas sem telhados de zinco após a ventania, fariam as pessoas aproximar-se mais das estrelas, que agora se viam melhor sem a luz nos candeeiros.
Nunca pediu perdão porque achou sempre que corria sozinho. E por nunca ter pedido perdão, sozinho ficou.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Tomar banho dentro de ti

Quero chegar-me perto de ti enquanto estiveres a dormir. Pegar-te levemente nas pernas nuas e afastá-las um pouco para que possa olhar lá para dentro, espreitar o teu interior enquanto te sinto agitar suavemente na cama, sem acordares. Olhar sem pudor a coberto do teu sono leve, curioso como uma criança a espreitar pela primeira vez por um microscópio pensado ir encontrar os homúnculos responsáveis pela construção do mundo.
Quero ver-te colocar um dedo na boca e trincá-lo suavemente, enquanto desenhas um sorriso breve no rosto que se ilumina um pouco mais. Deixar o frio da noite entrar por ti adentro, primeiro, e retribuir à noite com a humidade que emanas vinda das entranhas.
Quero ver como o teu corpo é uma palete de cores variadas, os tons de rosa sobre o negro e o dourado, sentir o cheiro deste orvalho nocturno que começa a perfumar o quarto contrariando o vento que surge por vezes pelas frestas da janela.
Quero entrar dentro de ti de uma forma diferente da habitual, entrar de vez sem ficar à superfície como sempre acontece, por mais força que faça. Quero banhar-me na tua humidade, sentir o meu corpo colidir em ricochete na massa esponjosa que tens por dentro e que é aquilo que tu és, suave como a espuma do mar que se acumula nas rochas da praia. Quero tomar banho dentro de ti.
Olhar-te por dentro até me arderem os olhos e afogar-me quando estiver cheio de te beber.
Entro primeiro com medo de te acordar mas o que acontece apenas é que a luz no teu rosto se torna simplesmente mais brilhante. Forço-me a entrar mais no teu âmago e sinto que me chamas por dentro, abrindo-me as passagens que estavam vedadas até há pouco, e puxas-me para mais fundo de ti com a força das correntes dos rios, que me encharcam até à medula. Tomo banho dentro de ti, nas águas cálidas que não me surpreendem e que me aconchegam num embalo irresistível.
Podia ficar aqui a vida toda, neste banho catártico, mas quero continuar o mergulho enterrando-me mais profundamente nos teus abismos, embrenhando-me mais intensamente na curvas e contracurvas das tuas vísceras e sentido me electrizar com os fluxos vitais que percorrem o teu corpo para cima e para baixo. Quero ir por ti adentro, subindo por ti acima. Quero chegar até por detrás dos teus olhos que continuam fechados não dando pela minha ausência do quarto. Quero ver se deixaste gravados neles alguma imagem minha, como um daguerreótipo. Quero procurar perceber porque os teus olhos, de repente, passaram a olhar para mim da mesma maneira que para todos os humanos. Deixaram de ver mais além, para além da carne que agora te percorre por dentro como nunca tinha acontecido. Deixaram de querer ver aquilo que consigo fazer, aquilo que sou realmente, ou recusam-se simplesmente a fazê-lo. Acomodaram-se à visão da carne, mesmo que a carne ainda consiga fazer-te esboçar esse sorriso breve quando sentes que entra por ti adentro.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

As margens dos rios são como ilhas vistas de terra

As margens dos rios são como ilhas vistas de terra. Penso nisso enquanto atravesso a ponte para o lado de lá, o lado que me acolhe com um sorriso esboçado com o esgar do amor interesseiro.
Nunca ninguém ousara pensar nisso antes, mas as margens dos rios são como ilhas vistas de terra. Quando olho para trás pelo retrovisor, apenas vislumbro os reflexos da água que ganha um tom metalizado com a luz do Sol a explodir assim já baixo no céu, bola de fogo incandescente que incendeia com a ternura possível o meu olhar. Água é o que vejo, sobre a costa a perder de vista. É assim que a margem do rio me recebe, numa ilusão enganadora de magnificência.
As margens dos rios são como ilhas vistas de terra, mas os rios não são como os mares, infindáveis. Por detrás das ondas prateadas vejo o sítio de onde vim, colocando um ponto final nas perspectivas de imensidão que o rio me quis dar: a água do rio, ao contrário da do mar, acaba já ali, no sítio de onde venho antes de atravessar a ponte. Mas as ilhas não se definem pelo tamanho dos braços de água que as envolvem, e por isso quando chego à margem caprichosa é como se atracasse numa ilha.
Deixo para trás parte do que sou e embarco na aventura, no calafrio do conhecimento progressivo dos territórios insondáveis. Vejo as pessoas na estrada a estenderem-me tapetes vermelhos à minha passagem, outras pintam de pétalas coloridas o meu caminho, e fazem-me sentir bem vindo a esta prisão que começo a chamar casa. Reconheço cada vez mais os cantos desta ilha pouco deserta, excepto quando quero e me isolo nas profundezas do mato virgem que mesmo grande parte dos nativos desconhece. São territórios hostis repletos de espinhos e animais selvagens, nos quais encontro a paz que anseio, o tempo que domino como uma ampulheta de controlo remoto.
Sinto que a ilha se vai apoderando do meu coração, não para o conquistar pois o mar será sempre o seu dono e ela sabe disso; mas para o destruir para cheirar o seu sangue para sentir a seiva que corre nas minhas veias empapar o chão seco das noites quentes essas noites que precisam do meu sacrifício para continuarem quentes nesta ilha fria como o raio que te parta onde o Sol parece não conseguir atravessar a ponte como eu.
Entrego-me à ilha com a doçura do cordeiro que vem assistir ao espectáculo. Faz de mim o que entenderes usa a seiva do meu corpo para te deleitares com o calor pulsante que emano e rasga a minha pele em mil pedaços. Sou do mar como sabes mas a ti me entrego pelo prazer de te possuir fazendo-te crer que sou teu. Sente nas profundezas que te agarram à terra para que não te percas de vez o gozo de me destruíres e espero que não descubras que afinal a carne que vês despedaçada em mil pedaços espalhados pela areia não é mais que uma ilusão como as que as tuas margens provocam quando estou de costas voltadas para ti e em frente ao rio.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

O homem que não conseguia controlar a intensidade da voz

A primeira vez que lhe aconteceu estava na caixa de um supermercado, numa rua agitada da cidade, onde só moram velhinhas aos dias de semana.
Acabara de passear pelos corredores, recolhendo os produtos de acordo com a ordem descrita na lista em papel pautado e amarfanhado pela viagem. As pernas conduziam-no entre as paletes de leite e os sacos de comida para cão, os braços esticavam-se num movimento a três tempos, mas a sua cabeça não estava por ali. Passou o tempo todo que durou aquele ritual a recordar-se dos tempos em que espalhava areia no quintal da casa onde cresceu, perto daquela rua, a deixar-se estar tardes inteiras a fazer corridas com carrinhos matchbox. A areia ajudava às derrapagens imaginárias e facilitava algumas capotagens que davam emoção à competição na qual, invariavelmente, apenas um carro tinha o direito de ganhar. Lembrava-se dele com um detalhe assombroso, laranja entrecortado por riscas brancas nas quais se podia ler um número qualquer. Apenas esse número lhe faltou “- Que chatice!”. Estava a ver as rodinhas pequenas, saltitantes (mais do que as dos outros carros que com ele competiam), os faróis de metal a simular o vidro, mas o número não conseguia recuperar. Lembrava-se que se sentava tardes a perder de vista pilotando aquele carro, com o capacete posto, luvas nas mãos, fato no corpo. A destreza nas curvas fazia afastar para fora da pista os demais concorrentes, e nas bancadas o público rejubilava com as derrapagens que levantavam a poeira na sua direcção. Lembrava-se de todas as corridas que fizeram crescer um palmarés invejável ao piloto, menos do número impresso sobre as listas brancas…
A procura deste fragmento de memória acompanhou todo o seu trajecto entre os corredores do supermercado. E foi apenas quando já estava na caixa para pagar que lhe aconteceu. A senhora do lado de lá, farda azul e cabelo puxado para cima em caracóis sofridos como se se estivessem a desfazer parede abaixo, perguntou-lhe “- Tem cartão de descontos?” e foi quando quis responder “-Não, mas obrigado na mesma” que da sua boca saíram sons descontrolados, gritos infernais que dirigiram na sua direcção todos os olhares presentes.
Não eram palavras, não eram gemidos. O som assemelhava-se a um estrondo metalizado composto por uma variedade de timbres semelhantes, um som orquestrado mas pouco harmonioso, um som digno de um Adamastor dolente berrando às caravelas que passam para que passem mais ao largo. Era um som demasiado poderoso para o seu corpo franzino, um som que nenhum humano seria capaz de fazer.
Quando o som saiu da sua boca o seu corpo contorceu-se, agitou-se um pouco e foi atirado para a frente. A violência com que o vociferou faria supor uma espécie de efeito chicote, como quando se disparam armas de calibre elevado e o corpo recua, mas aquele movimento descontrolado parecia querer fazer atirar o som ainda mais para a frente, como se fosse preciso reforçar a sua projecção no espaço.
A senhora da caixa do supermercado ficou com um ar aterrorizado, enquanto os caracóis no seu cabelo procuravam ganhar novamente posição. Por momentos haviam sido ressuscitados e pareciam querer fugir daquela condição miserável e oleosa.
Ele ruboresceu quando aquilo lhe aconteceu. Quando sentiu sobre si os olhares dos outros clientes como focos apontados ao artista principal, deu um passo atrás primeiro e depois, largando as coisas pelo chão, saiu porta fora em direcção à rua onde as velhinhas moram durante a semana.
Não foi apenas a sensação de não ter conseguido controlar a sua voz que o apavorou, mas o som vindo do inferno que emitiu, que nenhum humano seria capaz de fazer, fê-lo duvidar do significado que teria.
Fechou-se em casa e a sua voz não se ouviu até acordar no dia seguinte. Testou primeiro, a medo, algumas palavras antes de pronunciar uma frase completa e a normalidade da situação ainda o fez pensar se tudo não se teria tratado de um sonho. Tinha consciência que era nisso que queria acreditar, mas sabia que o que tinha acontecido era bem real. Na melhor das hipóteses teria sido caso isolado e poderia viver a sua vida normalmente a partir daí. Apenas necessitaria de escolher um supermercado diferente.
Passaram-se semanas até aquilo lhe acontecer de novo. Na segunda vez estava a passear o corpo quando um senhor de meia-idade lhe perguntou por uma rua ali perto, que por sinal ele conhecia bem. Mas a direcção da rua não lhe saiu e apenas o som infernal voltou a ecoar. Desta vez pareceu-lhe mais forte, com uma intensidade que fez as crianças do outro lado da estrada levarem as mãos aos ouvidos. Haviam cães ali perto que entraram num frenesim, latindo feitos doidos e procurando escapar das trelas dos donos. Como lhe acontecera no supermercado, o seu corpo projectou-se para a frente, e o movimento causou-lhe cansaço quando o grito terminou. Desta vez não teve de sair correndo dali para fora, porque o homem de meia-idade fez isso por ele. As mães das crianças do outro lado da estrada empurravam-nas apressadas e os donos dos cães tentavam, chamando repetidamente pelo nome, acalmar os seus fiéis amigos.
Ele ficou parado no meio da rua de braços caídos e esgotado, enquanto as pessoas desapareciam à sua volta. Sentia a sua cabeça à deriva, como que vazia de pensamentos. Sabia que ainda funcionava bem, pois até aquele momento, enquanto descia a rua e sentia na pele o calor de um Maio que se avizinhava quente, estava entretido a recordar os livros de quadradinhos que lera anos atrás, uns sobre a conquista do oeste selvagem outros sobre aventuras no espaço sideral. Eram fontes de inspiração para as suas brincadeiras solitárias mesmo quando outras crianças estavam em sua volta. Transformava rapidamente as paredes do quarto em salas de controlo de naves espaciais, botões nas paredes, teclados nas estantes, manómetros nas maçanetas das portas; e os tabuleiros da roupa onde a sua mão armazenava as próximas vítimas do ferro em brasa, davam excelentes carroças por onde explorava pradarias e se defendia dos ataques dos pele-vermelha.
Naquele dia não conseguiu dormir. Pareceu-lhe ter estado o tempo todo deitado na mesma posição, vasculhando no seu corpo pela explicação para aquele feito extraordinário. Mas talvez o seu corpo não lhe pudesse dar as respostas que procurava, pois aquele som nenhum humano seria capaz de fazer. As suas cordas vocais seriam despedaçadas se fossem as responsáveis por aquela voz ensurdecedora.
Procurou médicos, padres, espíritas mas nunca conseguiu recriar junto deles a voz infernal que lhe saía das entranhas. De todos trouxe explicações, teorias e soluções. Uns disseram-lhe “- Sabe, como a nível fisiológico não conseguimos encontrar qualquer tipo de anomalia com o seu aparelho fonético, talvez o problema seja psicossomático. Tem andado calmo por estes dias?”; outros “- O poder da oração deve ecoar na sua vida. Se é verdade que o que lhe está a acontecer não pode ser explicado pelo homem, então é porque tem um significado que só pode ser revelado pela fé”; outros ainda “- Você é uma pessoa especial, assim que entrou senti uma áurea à sua volta, e sabe que como eu muita gente nota isso. Mas se a mim essa revelação provoca reverência, noutros provoca inveja e são esses que estão a tomar conta do seu corpo”.
Todas estas ideias lhe pareceram como frágeis arco-íris, imagens fugazes no céu que não aguentam o tempo suficiente para que se identifiquem os tesouros enterrados no solo que beijam ao de leve. Não havia cruzes no mapa enredado que traçava a custo os caminhos erráticos dos seus pensamentos. E por isso a certa altura desistiu de procurar explicações, agarrando-se apenas à esperança, cada vez mais ténue, de que a voz não mais fugiria do seu controlo.
Mas os episódios foram-se sucedendo com uma cadência cada vez maior. O tempo que mediava entre eles era progressivamente mais curto, a intensidade da voz aumentava e o desgaste físico provocado pelos espasmos que acompanhavam aqueles sons de demónio feito de bigornas e martelos mais intenso.
De uma vez aconteceu-lhe num museu, numa exposição de pintura surrealista, quando quis fazer uma pergunta a um segurança estancado no meio da sala cheia de gente. Os alarmes do museu dispararam e gerou-se o pânico entre as dúzias de pequenos japoneses que se agarravam às suas câmaras como náufragos a bóias de salvação. Corriam para cá e para lá, fintando os seguranças que iam aparecendo às revoadas, como se estivessem dentro de bonecos insufláveis de pernas curtas a esbarrar em tudo o que era parede, sem conseguirem sair da sala. Houve quem gritasse também com o susto, mas esse tinha sido um grito normal, não a expressão colossal do barulho de mil trovões. Quando reviram, à frente dele, o vídeo de uma das câmaras de segurança, puderam verificar primeiro um homem serenamente a contemplar aqueles quadros de figuras oníricas, enquanto associava as formas lascivas de algumas pinturas à sua tentativa (faz tempos) de recriar não com o pincel mas com a caneta a sensação de ter estado pela primeira vez com uma mulher que amava (mas isso eles não puderam ver nas imagens do vídeo…). Depois viram a revelação da possessão que o transformava naquele ser gigantesco (só podia ser gigantesco) de voz enfurecida em rosto perturbado. Como não conseguiram perceber o que viam, nem adivinhavam o que lhe dizer, deixaram-no ir à sua vida.
Numa outra vez a voz descontrolou-se quando estava a fazer amor com uma mulher que tinha conhecido dias atrás. O desejo de materializar naquele corpo feminino as mulheres que no passado havia desejado fervorosamente, fê-lo acreditar que as estava a possuir todas juntas, fundidas naquele corpo de formas largas, cada vez mais largas à medida que ia incorporando os rostos e os nomes que durante o acto lhe vinham à cabeça. Quis sussurrar-lhes ao ouvido a sua condição de rendido, mas o que lhe saiu foi tudo menos um sussurro. O berro descontrolado fez a mulher saltar da cama num ápice, como se tivesse estado todo o tempo ali contrariada. Os seus olhos que até momentos atrás irradiavam as suas próprias ilusões, estavam agora abertos forçando as pálpebras ao limite. Não conseguiu dizer nada, ficou primeiro de pé em frente à cama, depois agarrou nas roupas que colocou à frente do seu corpo nu, e só depois saiu dali. Parecia procurar no rosto dele a explicação para a sua surdez súbita, mas ele mantinha um rosto inexpressivo, envergonhado, sem conseguir dizer nada não fosse novamente perder o controlo da sua voz. Enquanto faziam amor chegou a pensar se não seria assolado pelo arrependimento de a ter estado a violar sem ela saber. Mas agora esses sentimentos não lhe passavam pela cabeça, apenas tinha permanecido a ideia de ser uma aberração, como aquelas que os circos antigos mostravam às pessoas das aldeias.
Os episódios foram-se sucedendo e a vizinhança começou a olhar para ele com desdém. Sentia os risos abafados das crianças à sua passagem, os comentários em surdina das velhas que ocupavam parte do seu tempo com especulações sobre aquele seu destino e o olhar desinteressado das mulheres que o contemplavam com nojo.
Os seus dias foram sendo por isso, cada vez mais silenciosos. Algumas das crianças do bairro tentavam meter-se com ele lançando perguntas à toa, na esperança de ouvir novamente o ribombar da sua voz. Mas ele controlava-se agora melhor, e a sua boca foi ficando selada.
O peso da sombra dos outros a pairar no seu caminho, as farpas lançadas pelos seus olhares, as coisas que ouvia a seu respeito fizeram-no tomar uma decisão. Num belo dia desapareceu daquele bairro e nunca mais foi visto.
Mudou-se para perto do mar, e viveu até ao fim numa gruta que dava para o Atlântico. Adamastor seria!
Nessa gruta deixou o tempo passar devagar, enquanto mais rápido do que ele o seu corpo ia envelhecendo. A sua voz não mais ecoou e por isso os barcos que passavam junto à costa nunca foram convidados a procurar águas profundas.
Entretido na sua gruta, longe dos olhares alheios, sentiu-se como sempre se havia sentido, mesmo quando o seu espaço era partilhado por outros ou dormia alguém na sua cama: sentiu-se só. E nesse sentimento se deixou estar, confortado pela possibilidade de poder voltar a subir ao pódio dos circuitos mais famosos, de olhar para a Terra vista do espaço no seu foguetão, de fundar novas cidades no meio do deserto e ser lei, de deixar fluir as histórias da sua cabeça no espaço frio que estava à sua volta, decoradas com os pingentes do tecto da gruta, e de se entregar finalmente nas mãos de todas as mulheres por quem se apaixonou incomensuravelmente.

domingo, 26 de agosto de 2007

Sonho dentro de uma moldura


Na tua rua

Estou plantado na tua rua à porta de tua casa por debaixo da tua janela, vejo lá em cima a luz que irradia da tua sala como uma mancha solar sobre o breu da noite, que está fria, cada vez mais fria (ainda deve chover), e às vezes sinto que é trespassada, deve ser a tua sombra quando caminhas pela sala, estou aqui parado a sentir o calor ainda fumegante das pedras da calçada por onde deves ter passado à pouco, o único calor que se sente, devia ter vindo mais agasalhado porque a noite parece arrefecer com os minutos que passam, e tu que passas lá em cima em frente à luz, que ganha volume com a humidade ao sair vidro fora, o teu perfume também cá anda mas não é o teu perfume é a forma como ele se mistura contigo, sei o que digo porque já o cheirei do frasco e não é a mesma coisa, acredita, talvez tenha sido essa mistura que deu comigo em doido e me faça estar a estas horas com este frio aqui por debaixo das folhas da árvore que vês daí de cima da tua sala, quem sabe se os nossos olhares não se cruzaram já num ponto qualquer do espaço, eu a olhar para cima, tu a olhares para a frente e a intersecção que só Deus vê, entre as folhas bamboleantes da árvore, tinhas razão quando me dizias que vivias num sítio sossegado, aqui não se passa nada, ninguém nas ruas (também está frio) a não ser eu que cerro os dentes entre arrepios, e a luz que sai da tua sala, que parece quente irradiando essa aureola alaranjada, pensei em tocar à tua porta só para te perguntar “ - Como estás?” mas isso era estúpido porque imagino como estejas e porque a pergunta só por si é estúpida e porque estou sempre a perguntar-te o mesmo e depois não teria mais nada para te perguntar e ficaríamos num daqueles nossos silêncios agonizantes em que tens medo de dizer o que queres e eu tenho medo de ouvir o que me tens para dizer, e sei que estás bem, tu estás sempre bem, forte como uma folha desta árvore sobre mim em meados de Outono, forte como o gelo em tarde solarenga, mas forte, sempre forte, é melhor não falarmos por agora porque ainda temos as palavras entaladas na garganta que está seca como a lenha crepitante, deixa primeiro que as nossas gargantas se humedeçam, posso falar-te se quiser, sei que está nas minhas mãos, mas não quero que as minhas palavras te trespassem como lâminas, gostava de te ver, talvez apareça por aqui um disco voador e me lance um feixe luminoso que me eleve do solo e ao passar pela tua janela possa ver que estás de pantufas calçadas a passar os canais na televisão, ou a ler um livro sobre gatos que falam com as pessoas, ou a pintar as unhas dos pés, não porque precises mas para te entreteres, fazer-te viajar com a cabeça, rabo sentado no sofá, mas isso pode dizer que estás nervosa, quando disse que eras sempre forte estava a ser irónico, espero que tenhas percebido a ironia, mas espera, a tua sombra ganha uma forma tridimensional, ajusto os olhos à luz alaranjada que agora está diferente, não, és tu que vens à janela fumar um cigarro (vê tu bem que já fumas em casa) e agora há mais um ponto alaranjado no céu sempre que puxas o fumo, levanto-me da calçada e coloco-me mesmo por debaixo de ti, não me vais ver no breu da noite e porque com o frio estás um pouco recolhida sobre o parapeito, mas quero estar mais perto, ver-te de relance, tentar perceber se estás mesmo bem (que pena não dar para ver se estás de pantufas), e enquanto te observo assim por debaixo sinto que uma lágrima tua cai sobre o meu olho, do outro já era eu que vertia uma lágrima, e agora correm as duas em paralelo pelo meu rosto, e procuro-as com a minha língua para que se misturem, entrem dentro de mim, e começa a chover, lágrimas do céu (já esperava que isto acontecesse) e tu recolhes-te mais ainda, estás dentro de casa e apenas o fumo sai pela janela entreaberta e procura desviar-se das gotas que engrossam e engrossam, deixo-me ficar a olhar para cima, com a chuva a acertar-me em cheio na cara, estou empapado em água, a roupa colada ao corpo e lembro-me de outras alturas em que estive igualmente alagado, prazer em bica a escorrer-me pelos poros (lembras-te?) e tu a passares a tua mão pelo meu cabelo encharcado, as gotas que caiam sobre o teu rosto (pensas que não vi?), a intensidade com que sentimos as coisas valeu por uma vida inteira de lume brando, sabes que acho que foi a precariedade que fez com que as sentíssemos tão intensamente, e sei agora plantado na tua rua à porta da tua casa por debaixo da tua janela que foi por nunca te ter tido que te vou possuir para sempre, ninguém há-de perceber isto mas acredito que perceberás, tu que me percebes como ninguém, sinto de repente um nó no peito e a respiração mais ofegante, senti o mesmo quando me chamaste para dizer que não gostavas de despedidas, mas nós não nos despedimos, apenas celebrámos a intensidade invejada por toda a gente que vive em lume brando, e não sou capaz de te dizer adeus, mas também não sei se vou subir a tua casa algum dia, mesmo que esteja trancada a sete chaves sabes que se for isso que me der na gana irei à luta, dessa vez será a minha altura de lutar contra as probabilidades, mas nunca será para seres minha porque te quero ter para sempre, mas nós não nos despedimos porque faço tenções de vir cá todas as noites, nem que esteja frio e chuva como nesta, para ver a luz que irradia da tua sala, essa luz alaranjada com o cheiro do frasco de perfume misturado com o teu, vou sempre arranjar um tempinho para vir cá, saber se estás bem, com os pés quentes.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Fantasias

Quando acordou percebeu que ela já estava em casa. Do seu quarto, entre ramelas, ouvia ao longe os seus passos na marquise e o barulho da tábua de engomar a ser montada.
Pensava se não seria naquele dia que ela o arrebataria nos seus braços. Talvez quando passasse por ela a caminho do banho, ou quando saísse, já sem o cheiro da noite. Mergulharia no seu corpo jovem, inexperiente, invadida por um desejo inconsequente. Mostrar-lhe-ia os caminhos do prazer que ele ansiava descobrir até então, e que antevia apenas nas suas congeminações e sonhos húmidos.
Ao pensar nisso, sentiu que a erecção que o acompanhou naqueles primeiros minutos do dia se tornava mais intensa, com todo o seu sangue a fluir para o pénis. Talvez fosse isso que fez com que as primeiras ideias e imagens que afloraram o seu espírito não fossem tão claras, pois com tamanha manifestação de desejo, o seu cérebro não poderia estar a ser oxigenado convenientemente.

Chamava-se Maria o que lhe dava alguma graça. Não se chamavam assim todas as empregadas domésticas? Provavelmente seria um género de nome artístico. Talvez assumisse um papel, de facto. E para além de engomar e arrumar a confusão instalada, duas vezes por semana, talvez representasse o papel de mulher sonsa que levaria à loucura todos os adolescentes das casas onde trabalhava. Como ele, que se sentia expectante pelo momento em que passaria por ela a caminho do banho e que levava as mãos ao membro duro, como que para o manter em vigilância.
Devia ter perto de 30 anos, o dobro dos dele. Não era particularmente bonita, nem era mulher de muitas conversas. Ele aliás não se lembrava de terem alguma vez conversado, e nada sabia sobre a sua vida. Ela, pelo contrário, estava em sua casa, mexia nas suas coisas, tinha o poder de descobrir a sua intimidade. Tinha um corpo magro, coberto por roupas modestas que deveriam ser parte dos adereços que usava na representação do papel de empregada doméstica. Olhava sempre para ele de soslaio, como não querendo ver os pensamentos que lhe afloravam à cabeça quando passava por ela a caminho do banho. Nessa altura, apenas uma porta fechada os separava, porque a casa de banho era encostada à marquise. Apenas uma porta mantinha a distância entre o seu corpo nu e aquela fera com olhos de carneiro mal morto.

De todas as vezes que esta história se repetia, ele não conseguia controlar as suas fantasias. Imaginava que ela a dada altura entraria pela casa de banho dentro e se banharia com ele, entre esfregadelas que fariam a água espalhar-se por toda a divisão. Ou então ele sairia porta fora, todo nu, e ela o atiraria para a cama dos pais dele, e navegaria pelo seu corpo com a língua a servir de leme. Ou então, de surpresa, quando já estivesse lá dentro a vestir-se, seria ela que apareceria nua e o tomaria como o seu joguete. Ele imaginava os seus pêlos púbicos fartos, a roçarem o seu corpo deixando por todo o lado os vestígios da loucura febril que marcaria o momento em que os seus sonhos tomariam a forma do suor em bica. Imaginava o seu cheiro nos dedos, que faria perdurar na memória aqueles instantes que ansiava sempre que estava sozinho com ela em casa, o que acontecia com frequência.

Ouvia ao longe o ruído surdo da roupa a ser dobrada e dos borrifos de água do ferro de engomar. Ele sentia que estava um dia quente, pois tinha acordado todo destapado e mesmo sem ter dormido de t-shirt como era seu hábito, não sentiu necessidade de se cobrir. Ela devia estar pior: com o calor do ferro , na marquise que naquelas horas do dia era banhada pelo sol, devia ter o corpo inundado de orvalho quente. A sua imaginação voltou a tomar conta dos seus pensamentos. Imaginou estar por detrás dela, lambendo o calor que irradiava do seu pescoço enquanto as suas mãos passeavam com firmeza sobre os seus peitos pequenos. Ela virar-se-ia finalmente para trás e poderiam trocar um beijo polvilhado pelos gemidos abafados do desejo que começava a tomar conta da situação. As mãos dele estavam agora dentro da sua blusa, modesta como a de todas as empregadas domésticas, e por debaixo do soutien poderia sentir os seus mamilos tomarem forma. Ela arfava com mais força, e os seus beijos molhados eram agora interrompidos pelo ar que a custo procurava insuflar nos pulmões. Depois ela decidiria tomar uma posição e empurrá-lo-ia contra a parede. Por detrás deles, o ferro em brasa dava ao ambiente uma sensação de calor supérflua, por que o que deles emanava era mais do que suficiente.
Tomado por aquele animal que agora, finalmente, se começava a revelar, sentiu-se explodir quando as mãos dela entraram por dentro dos seus boxers, e o arrepanharam com a força certa, num convite a fazer subir ainda mais a temperatura.

Na cama, indeciso sobre se levantar, com receio de que apenas um banho como todos os outros fosse tudo o que estivesse à sua espera, o seu corpo não dava tréguas. Nunca pensou insinuar-se realmente, para além da fantasia. Não estivesse ele enganado e ela o tomasse por um miúdo parvo, que nem saberia o que fazer com uma mulher experiente como ela devia ser. Mas talvez se passasse por ela, a caminho do banho, com aquele volume todo por dentro dos boxers, ela notasse o sinal das suas intenções e isso desencadeasse a resposta que ele sentia que deveria acontecer, o sinal de aprovação de quem está disposta a assumir o papel de mestre. Esta ideia fê-lo estremecer, num misto de ansiedade e excitação. Mais do que as palavras, que manobrava com dificuldade, deixaria o seu corpo tomar conta das operações. Da maneira como estava, não havia como disfarçar a vontade de a possuir, e passou mais uma vez as mãos pelo corpo intumescente para se certificar que essas condições se manteriam.
Sentou-se na cama e passou a mão pelo cabelo que não parecia estar tão desguedelhado naquela manhã. Enquanto atravessava o corredor em direcção à marquise, foi sendo percorrido por pequenas descargas eléctricas que davam o ritmo à sua passada.
- Bom dia, Maria! Tudo bem? - disse ele, tentando exprimir o sorriso mais maroto que o seu nervosismo permitia.
- Olá. Tudo bem. - disse ela, pelo canto do olho, sem reparar nos seus esforços por sorrir, nem nos outros sinais que ele tanto queria revelar. Mais preocupada com os vincos da camisa que custavam a traçar, quase nem deu pela sua passagem em direcção à casa de banho, respondendo de forma automática sem se deixar contagiar pelo calor que de facto, irradiava na marquise.
Ele fechou a porta e pôs a água a correr. Apenas mais um banho o aguardava, como todos os outros, tinha agora a certeza. Mas se ela não estava disposta a tomar conta do seu corpo, já nada podia fazer em relação ao seu espírito, e entre a água quente e o sabão que tiravam dele o cheiro da noite, deixou-se levar novamente pelas suas fantasias.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Pedinte


Deixaste o olhar ser levado pelos carros que passam sem cessar, no barulho infernal da cidade que não dás conta de crescer. Encostas o rosto aos que passam, balbuciando palavras que saem automaticamente, ladainhas de um sentido que te explicaram faz tempo, mas que hoje apenas são mais um prolongamento de ti, como os braços e as pernas magras que te arrastam por entre os carros que passam sem cessar. Faz tempo que corrias atrás deles, seguindo a manada daqueles que tinham já perdido o olhar faz tempo. No inicio sorrias com o reboliço, sem notares no desprezo dos que olhavam para ti nem na curiosidade faminta dos abutres. Os carros que passavam sem cessar davam alguma emoção a tua vida, e faziam com que as tuas pernas magras ganhassem algum alento para que corresses atrás deles. Hoje apenas a cidade cresceu, sem dares conta. Tu manténs-te igual, franzina nesse corpo que não encontra maneira de crescer. Não corres mais atrás dos carros que passam sem cessar porque os encontras sempre parados, ao lado de semáforos imaginários. Sempre no vermelho. Deixaste a manada, porque cada um procurou os seus cruzamentos, na imensidão de cruzamentos que surgiram entretanto. Sinto que vais ficar assim para sempre, franzina nesse corpo que não encontra maneira de crescer. Imagino que um dia sejas coroada rainha do cruzamento que adoptaste, com uma coroa de latão que jamais tirarás da cabeça. Sera outro motivo que te fará sorrir, agora que o entusiasmo das correrias faz parte do passado. Orgulhosa desse teu destino, peça desse teu cenário, vais continuar a admirar os abutres, sentados do outro lado dos vidros dos carros que continuarão a passar sem cessar. Espero que não tenhas reparado que num deles estava eu. Não queria que me visses assim, esperançado na tua coroação sem te ter prestado vassalagem.

sábado, 11 de agosto de 2007

Suor


Sentia que o espaço outrora exíguo se tornara, subitamente, demasiado amplo, como se o excesso de ar lhe causasse dificuldade em manobrar a respiração, numa estranha sensação de agorafobia inusitada. Sentia que o peso do silêncio lhe caia sobre os ombros, fazendo-a encolher-se sobre si própria. A Arminda sentia-se perdida naquele espaço que era seu. Reconhecia os recantos, as cores que tingiam as paredes já desbotadas, a forma como a luz incidia sobre as esquinas da casa e as sombras que projectava. Mas a casa tinha ganho uma nova tonalidade, não no que se via mas no que se sente. De repente, os sonhos que materializou naquele espaço esfumaram-se de vez, para todo o sempre. Sabia que deveria construir outros sonhos que suportassem o seu futuro, pilares sobre terrenos de incerteza construídos. Mas agora a amargura do momento fazia querer concentrar-se mais no passado. A Arminda procurava manter a chama acesa, com receio que se apagasse cedo demais, olhando para as fotografias expostas sobre o aparador da entrada. Não se lembrava da ultima vez que tinham despertado nela um sorriso, mas agora que o procurava com fervor, apenas percebia que funcionavam como catalisadores das lágrimas que lhe cobriam o rosto. Na alquimia das emoções que sentia naqueles momentos, todos os elementos se transformavam no sal que lhe saia dos olhos em direcção a boca. Sentia-se encolhida por dentro, como se a sua alma tomasse a posição fetal. Sentia que mesmo estando de pé, ombro encostado a ombreira, não conseguia manter os seus órgãos nos locais devidos, e eles se amontoavam numa cascata em precipício. Pensou que o pior seria passar tanto tempo sem ouvir a sua própria voz. Até ali, mesmo que fosse para discutir com ele, sempre poderia exercitar as suas cordas vocais. Mas agora nem para isso elas serviriam. Não receava o silêncio, porque tal como dantes a televisão serviria para ocupar os espaços mortos, ou a rádio, com os seus concursos matinais, manteriam ocupados os seus ouvidos. Não eram os ouvidos que a preocupavam, pois para esses percebia que o serviço não estava acabado. O que lhe preocupava era a voz, que agora, à conta da solidão em que se encontrava, não teria razão para ser usada. Sempre poderia procurar outra companhia, mas agora não via outra possibilidade que não carpir as mágoas sozinha. O choro já cansado, baloiçado nos soluços que exasperavam ainda mais o seu coração, acalmou quando olhou para o sofá. Era um sofá velho, amarelo, com os braços em madeira por envernizar novamente e roído pelo tempo. Os estofos tinham a marca do seu corpo, tantas tinham sido as vezes que ele se mantinha ali deitado até que ela o viesse chamar para a cama. Ficara moldado com a sua figura, um negativo do corpo que envelheceu naquele lugar. Quando se sentou no sofá, e passou as mãos pelos estofos, a Arminda sentiu que estavam impregnados do suor dele. Havia partes empapadas que fizeram humedecer as suas mãos. Ele continuava ali naquela casa, não na forma como habitualmente o reconhecia, não emitindo os sons com a sua voz cada vez mais cavernosa e expectorante da idade. Ele estava ali naquele liquido que era seu por direito próprio, emanado do seu corpo antes do estertor o levar dali, dela, para sempre. A Arminda sentiu-se estremecer. Já tinha pensado que seria agradável que ele a continuasse a visitar, para lhe fazer companhia nas noites que decorreriam entre reviravoltas no colchão. Mas esta presença física, real, do corpo que acabara de enterrar, fez surgir medos diferentes. Não saberia como conviver com aquela expressão de vida, como fazer desaparecer aquele aroma pútrido que exalava pela sala. Era uma assombração maior que a que poderia esperar de um ser vindo do além, do espectro que não lhe causaria surpresa. Mudaria de casa. Não, isso estava para alem das suas possibilidades e seria um disparate tendo em conta os anos que lhe restavam. Deitaria o sofá para o lixo. Não, isso seria forçar o desaparecimento do seu homem, que não quis desaparecer mesmo por debaixo da terra. A Arminda deixou-se ficar na sala, de pé, frente ao sofá. A historia que começara anos atrás, quando ambos tinham casado e conseguido mudar-se da aldeia para esta casa na cidade, apenas conheceria agora um novo capitulo. Era uma sequela da historia com a qual não sabia ainda como lidar. Mas o tempo, como tinha feito tantas vezes, seria bom conselheiro. A Arminda deixou-se ficar na sala, de pé, frente ao sofá. Sobre a janela dos fundos o Sol decidiu desaparecer e durante muito tempo pontinhos brilhantes no céu eram a única coisa que se avistava dali. A brisa começou a correr mais fresca, ate fazer brotar pequenas gotas de orvalho nas folhas das plantas penduradas na janela. A Arminda deixou-se ficar na sala, de pé, frente ao sofá. O tempo que passou e o calor que parecia ter regressado agora, não fizeram desaparecer o suor que coloria aquela divisão de uma fragrância familiar. As suas pernas fraquejaram com a dor habitual das articulações que lhe davam amanheceres hesitantes.
- É bom ter-te de volta!